O Menino que não podia Morrer... Capítulo 30

terça-feira, 24 de julho de 2012

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          Já faz muitas décadas que o principal jornal de uma cidade no interior no estado do Paraná ilustrou sua primeira pagina com uma foto sinistra de uma casa no meio do mato, e a manchete “CHACINA NO CARDEAL PEREGRINO”. A nota era surpreendente:

          "A quase três meses sem quaisquer sinais dos moradores do único orfanato do município e arredores, o Padre Onório resolvera visitar o Lar Cardeal Peregrino, e uma visão chocante o surpreendera: Todos estavam mortos de maneiras surpreendentemente violentas.

          "Segundo o padre, o rapaz Gilmar Castro(que crescera no orfanato) era praticamente a única pessoa que se costumava ver saindo do orfanato. Era responsável por serviços pesados e, ora auxiliado por Hortência Gambrelli(que como ele, era uma órfã interna) ou pelas responsáveis Lira Maria Giardini ou Rute Giardini, periodicamente visitavam a cidade para comprar mantimentos e receber donativos feitos à paróquia.

          "O padre resolvera visitar o orfanato em busca de notícias e encontrou as 12 crianças mortas, umas com facadas no coração, outras degoladas, e os adultos igualmente mortos. “Eu nunca pensei que visitaria uma imagem como esta”, disse o padre, “Só Deus poderia presumir quem seriam aquelas crianças quando crescessem, mas isto já não vai mais acontecer.

         "Padre Onório optou pela discrição, e sem reparar em detalhes, procurou diretamente a polícia para investigar a cena. “Houve um claro confronto com as mulheres,” disse o inspetor Carlos Gianini, “Gilmar possuía a faca e, ao matar a todos no orfanato, tirou a própria vida num ato de extrema covardia”.

          "Segundo o padre, Gilmar sempre apresentou sinais de lucidez e uma fidelidade a suas tutoras que estava fora de discussão. A versão da polícia deveria estar errada. Segundo o padre, poderia haver mais alguém ou, indo além, haver influências demoníacas. O fato é, as crianças haviam sido assassinadas, uma a uma e, aparentemente, Gilmar havia cometido tais mortes, com exceção de Rute Giardini, que parecia ter sido vitima de um confronto com Hortência.

          "Aparentemente, as mortes já aconteceram a pouco mais de dois meses, e os corpos já estavam em estado avançado de decomposição. Investigadores de Curitiba foram enviados para auxiliar nas investigações. A região está isolada, e a anos é dita como assombrada."

          Isto aconteceu há muitos anos e os moradores daquele lugar remoto, por décadas, não conseguiram deixar aquela casa. Tornaram-se coisas. Coisas tristes, coisas isoladas, rancorosas, confusas e temerosas.

          Criança por criança, foram resgatadas num trabalho árduo de resgate. Forças mais antigas e fortes vinham para pacientemente estudá-las, lembrar-lhes de sua própria humanidade, e despertá-las. Mas houve uma que ninguém jamais conseguiu resgatar. Era esta sua missão. Mikail deveria salvar o menino que não podia morrer.

O Menino que não podia Morrer... Capítulo 29

segunda-feira, 16 de julho de 2012

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          Algo tinha dado terrivelmente errado, e Dona Lira sabia disto e, embora negasse, sabia que tudo começara a mudar no dia em que impedira Tia Rute de sacrificar Gilmar. Gilmar era uma criança gentil, mas isto muitas outras que morreram também eram. Gilmar era carinhoso com ela. Isto também outras crianças eram. Proteger Gilmar foi a forma que ela encontrou de salvar a todas, ainda que de uma maneira tola.
Lira nunca gostou de seu destino, mas nunca soube por onde mudar. Era apenas alguém que obedecia. Um soldado que mata porque mandam. Nunca teve muita escolha. Isto havia começado por amor a sua mãe, mas logo transformou-se num ofício. Lira não era feliz.


          Lira salvara Gilmar porque queria acreditar que através dele as coisas poderiam ser diferentes. Não seriam apenas ela e sua tia. Mas tudo começou a mudar. “Ele” cobrou mais, e tia Rute acabou enfraquecendo-se, e precisaram de alguém mais jovem, de força. Viera Nicanor, que molestara a menina Hortência, e ela perdera a finalidade. Não era pura. Era maliciosa. Outras crianças acabaram perdendo a inocência através do estímulo dela.


          Mas Lira não a julgava, como fazia tia Rute. Gilmar fora estimulado pela menina sem nem ser adolescente. E Hortência, tendo o sexo desde criança, não via mal em tocar crianças mesmo depois de adulta, pois para ela, era um prazer inocente, como qualquer brincadeira. Para tia Rute não. E a velha quis matá-la, como fizera com Nicanor anos antes, mas fora Ele quem a impedira, pois Ele via graça em humanos com comportamentos de aberração.


          Fora um alívio para dona Lira que não tivesse que explicar suas defesas, pois isso irritava a ira de sua tia. E depois que Gilmar crescera, algo mudou dentro dela. Ele era atencioso como um filho, mas não era o amor de mãe que ela sentia. Ela se apaixonara pelo rapaz, mas sabia que jamais o teria como homem.
Tocava-se à noite, ao pensar nele. Sentia-se culpada e suja ao fazer isso, como se traísse o respeito que ele tinha por ela, mas a verdade é que o desejo não era puramente carnal. Ela o amava como homem, e seu amor era sincero e cristalino. Não o queria, nem a nenhuma criança, envoltados por um ambiente de rancor, tristeza, e soberba.


          Dissera-lhe o espanhol, que Ele queria nascer para revelar ao mundo a grande mentira, pois que o pai da mentira não poderia ser outro, senão aquele que afirma dizer a verdade e oprime aos que perguntam. A fala macia vinda da boca daquele homem sábio era confiável, mas até que ponto salvar o mundo matando crianças traria paz para a humaninade?

          “Mas matam todos os dias em nome de Deus, Allah, Javé, e quando isto acontece, questionam o crime, mas jamais a intenção. Afinal, o criminoso pode parecer louco, mas o sacrifício para Ele está feito”, dissera o espanhol.

          Desde que Gilmar chegou com essa criança, tudo ficou estranho. Ela sonhara, na noite anterior a vinda do garoto, com uma criança que vinha do céu. No sonho, a criança vinha para libertá-los. Não lembrava de mais do que a idéia do sonho. Queria que tudo acabasse.

        Ele, o Antigo, precisava de virar um só com o menino, que depois morreria e então Ele poderia encarnar homem, como espírito de homem. Mas algo estava acontecendo. Algo terrível estava por vir, pois Ele era rigoroso, antigo, sábio, bom às vezes, mas terrivelmente mal quando queria. E agora caminhavam uma longa trilha até a casa, aos passos lentos de sua tia, que se apoiava no ombro.

          Algo tinha dado errado, e Ele a havia castigado na hora em que matou o último garoto. Ela estava frágil. A luz da lua, cortada pelas folhas no cume das árvores chegava fraca ao chão. E o caminho ainda era longo...

O Menino Ezequiel

terça-feira, 10 de julho de 2012

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Conto escrito especialmente para o jornal português Horizonte Vilacovense de 23 de abril de 2012

          Quando Ezequiel era um menino, vivia sempre junto de Marcos e Nilson. Seus melhores amigos. Viviam em uma favela muito grande na zona norte do Rio de Janeiro. Marcos era filho de mãe solteira, Ezequiel, por sua vez, tinha pai e mãe. Seu pai fora cobrador de ônibus até os quarenta anos, quando levou um tiro de bala perdida e morreu.

          Nesta época, Ezequiel tinha treze anos, um irmão de oito, Ernesto, e uma irmãzinha, Clarice, de seis anos. Sua mãe, dona Gleice, o pediu que deixasse a escola para ajudar trabalhando.  Foi o que aconteceu.

          Ezequiel ajudava feirantes, trabalhava em mercadinhos, vendia picolés na praia. Até que sua mãe adoeceu. Quando isso aconteceu, ele tinha quinze anos. Conseguiu que seu irmão, Ernesto, trabalhasse em um mercadinho, e ele começou a trabalhar também durante a noite.

          Fazia tempo já que não via seus amigos. Não tinha dias de folga, porque não tinha trabalho certo. Dona Gleice estava com pneumonia. Sua irmãzinha era a responsável pelos cuidados e apesar de conseguirem remédios gratuitamente, tinham despesas altas para transportá-la.

          Certa vez, pelo meio do mês, ou comprava um xarope para sua mãe, ou se alimentariam. Optaram por tratar Dona Gleice. Ela tinha sorte, sabia, que tinha filhos gentis e honestos. No resto do mês comeram arroz e “nuggets”, que Ernesto pedira como adiantamento de seu salário.

          Mas então cortaram a luz e a água.

          Ezequiel, sem noticias de seus amigos, ficou surpreso ao ver que Nilson estava na favela exibindo sua moto nova. E era uma moto de respeito. Verde, caríssima. Ezequiel estava a dias dormindo algo entre três e cinco horas, mas ainda cansado, chegando de um dos trabalhos, foi cumprimentar o amigo.

          Nilson gabara-se que agora era rico, e comentara que Marcos havia tomado um tiro e morrido no trabalho. Depois da triste revelação, convidou Ezequiel para trabalhar com ele. Era fácil. Apenas levar drogas para clientes já conhecidos, e ocasionalmente descerem para render algum turista desprevenido.

          Ezequiel olhou para a moto, e pensou na velha Gleice que gemia na cama. Como foi doloroso negar aquela oferta. Mas o fez. Voltou para sua casa, e antes de dormir, sua irmãzinha contou que sua mãe tinha um câncer dentro do pulmão. Sua irmãzinha não demonstrou emoções em lhe dizer o fato.

          Naquela noite ele não dormiu. Passou pouco mais de uma hora deitado, quando ele foi até sua mãe, naquele mesmo cômodo apertado, e se ajoelhou. Ela dormia sentada, com o peito virado em direção ao espaldar da cadeira. Ezequiel colocou seu relógio vagabundo, e saiu. Caminhou sem pressa até o barraco onde Nilson morava.

          Nunca vira uma televisão tão grande.

          “Presente do chefe”, disse ele, feliz.

          Nilson disse que era um dia de sorte. Teriam um trabalho bom, e seriam só os dois. Teria um lucro legal. Fariam uma entrega para alguns playboys da zona sul.

          Estavam em uma ruazinha na região da Lapa. Nilson disse que ele deveria vigiar um dos acessos da rua, para avisar sobre a chegada de policiais. Apesar de pagar propina à polícia.

          Lá ficou Ezequiel, pensando em sua vida. Queria uma namorada. Mas não tinha tempo para isso. Queria tomar banho, mas não tinha nem luz, nem água. Queria comer no Mc Donald. Comera lá pela ultima vez quando fizera onze anos. Nunca mais.

          Barulho.

          Ele olhou para Nilson, Nilson fora baleado, e algumas pessoas corriam, outras eram presas. Ele correu também.

          Longe, ele parou. Pensou se teria culpa pelo tiro que Nilson levara, mas Nilson estava armado também. Quem sabe não teria feito alguma idiotice. Olhou para o relógio, estava no meio do caminho, e a tempo de ir para seu trabalho. Seguiu seu caminho. Dona Gleice iria morrer de qualquer jeito. 

O Menino que não podia morrer... Capítulo 28

domingo, 8 de julho de 2012

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          Gilmar andou pela mata, silencioso, seguia mais a sua intuição do que a rastros propriamente ditos. Era sorrateiro. Enxergava meramente três metros a seu redor naquele bosque de arvores de cume tão fechados. Com o tempo, já não notava rastro algum. Apenas percebeu um vulto imenso diante dele, algo que não era ruim, tampouco era bom. Mas era poderoso. Era aquele macaco.

          Ele guiava o rapaz mata adentro, por um caminho jamais feito por ele. Andara em seus passos de pernas compridas por mais de uma hora até que a criatura desaparecesse. Quando isso aconteceu, Gilmar não temeu, pois percebera luz adiante, e reforçou a camisa cobrindo a luz emitida por seu braço. E então viu algo surpreendente.

          Havia um circulo com crianças mortas numa área descampada. Estavam degoladas. Entre os corpos estavam as cabeças. No meio, uma fogueira apagada há pouco tempo, havia alguns ossos de criança entre as brasas. Atrás da fogueira, uma pedra que parecia um altar e deitado sobre ela, um bode vivo, acordado e amarrado. Um facão afiadíssimo que costumava ser usado como utensílio de cozinha A luz branca da lua brilhava naquele circulo não muito amplo.

          Gilmar ouviu vozes, e voltou a esconder-se no mato. Eram as velhas, e elas traziam o ultimo garoto adotado. Parecia estar inconsciente. Vestiam um manto vermelho, feio e simples. O macaco estava ao seu lado, imenso. Dona Lira parecia agir de maneira mecânica. Tia Rute, por outro lado, estava resoluta, imponente e inspirada.

          Dona Lira trouxera uma bacia de latão que estava por perto, e tia Rute, segurou a cabeça pelos chifres com a mão direita, e com a esquerda pegou o facão e começou a cortas a cabeça do animal que gritou. Não houve um golpe certeiro, mas um corte, pressionando a lâmina entre os pelos, rompendo a pele, cortando a carne do animal vivo, indo e vindo, até que pudesse puxar a cabeça para afastar do corpo.

          O menino, ajoelhado diante do altar, recebeu a enxurrada de sangue que vinha abundante do animal cujo coração ainda batia e a cabeça ainda perdia a consciência. O menino banhou-se naquele sangue que brilhava, hora vermelho, hora negro, sob a luz da lua.

          Dona Lira atirou a cabeça do animal no chão, com bastante indiferença e aproximou o balde de latão para recolher mais sangue, e derramá-lo sobre o garoto logo em seguida. Tia Rute pegou, com a ajuda de uma pá, cinzas da fogueira, e jogou sobre ele.  As duas empurraram o corpo do bode para fora do altar e deitaram o garoto lambuzado.

          “Quero que não façam mais isso”, Gilmar ouviu em sua própria cabeça, “Eles morrem mas não deixam a floresta...”.

          Tia Rute cantava algo em uma língua estranha, e ergueu a mão esquerda com a faca e, de um golpe, apunhalou o coração da criança. Caiu no chão, e ficou ofegante, desesperada.

          “MEXERAM NO GAROTO!”.

A Saga de Maria

sábado, 7 de julho de 2012

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Texto escrito para o jornal português Horizonte Vilacovense de 27 de fevereiro de 2012

          Todas as manhãs eram assim na vida de Maria. Estava ela satisfeita, olhando para a mesa do café da manhã. Havia ali uma boa variedade de frutas, queijos diferentes, pães, café preto, leite quente, além de algum suco fresco. Todos sempre conversavam enquanto tomavam o café, e Maria se sentia feliz.

          Durante a manhã, ela caminhava pelo jardim da casa, tão grande, e tão bem cuidado pelo competente jardineiro que mantinha as flores variadas e coloridas numa primavera que parecia durar o ano inteiro.

          Sempre recebiam alguma visita para o almoço. Ainda bem que aquela era uma casa onde havia fartura, pois eram sempre pessoas bem esbeltas e adornadas pelos mágicos efeitos dos cosméticos eram capazes de criar. Maria gostava disso.

          Quando fazia sol forte, e a piscina ficava ocupada, ela também gostava. Nunca mergulhou. Era desajeitada. Mas gostava de ver as pessoas se divertindo. Era a melhor parte do dia. Mas era difícil quando caía a tarde, e o relógio lhe dizia que era hora de voltar para sua casa. Maria tirava seu uniforme tão bonito, e vestia-se com suas sóbrias roupas remendadas.

          O motorista a deixava no terminal de ônibus, aonde ela entrava em uma fila sempre já com mais de quarenta pessoas na sua frente, e aguardava até que pudesse entrar no transporte, e permanecer em pé, numa viagem que costumava durar uma hora e vinte minutos em dias de pouco trânsito. Com sorte, ela estaria em pé no corredor, diante de uma pessoa  que desceria no meio do caminho, e ela teria que fazer meia viagem sentada.

          Mas sem sorte, choveria. As pessoas que se conseguem sentar pareciam-lhe feitas de algum material efervescente, pois a mais singela gota de chuva as motivava a fechar as janelas. Maria, sem poder mover-se no ônibus cheio, contentava-se em respirar apenas o gás carbônico emitido segundos antes por seus próprios pulmões.

          Abafados pelo transporte lotado, todos começam a transpirar. E toda a exaustão de uma jornada de trabalho concentra-se em uma incontrolável dor de cabeça. Maria chega no destino do ônibus: a estação de trem.

          Suas pernas doem. Ela entra no trem, e ali permanece segurando no ferro, em pé, por mais uma hora e quarenta minutos. Balançando. Agora é a coluna que dói. Os braços erguidos para que ela se mantivesse segura, começam a doer muito. Quando ela desce do trem, ela ainda pega outro ônibus, que a leva até a vila em que mora.

          No alto do morro, ela caminha. Respira devagar. O dia está acabando. Já é noite, faz três horas que ela deixou o trabalho. E está chegando em casa.

          Quando finalmente entra em seu barraco, olha pela ribanceira diante de sua janela, e o céu anuncia uma chuva forte. Ela pega sua medalha de Nossa Senhora de Aparecida e a beija. Sabia que vivia em uma área de risco, mas era o que tinha por hoje para dormir sob um teto. Limpou sua casa, tirou das bolsas o resto de carne que sobrara do almoço de seus patrões e serviu a seus filhos. Deitou para dormir.

          Mas logo se levantaria, e levaria uma hora para preparar os filhos para a escola, e outras três horas para chegar no trabalho. Será assim para sempre, e assim será com seus filhos.

Paulão: A Lenda

quarta-feira, 4 de julho de 2012

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          Em algum lugar no interior da Bahia se escondia a distinta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por pessoas afamadas pelas razões mais surpreendentes. Paulo Henrique Silva era um exemplo: dormiu com todas as mulheres da cidade e foi conhecido por casar virgem.

          O que as pessoas não sabiam era que Paulo Henrique simplesmente era um rapaz discreto, que gostava muito do cheiro que vinha das entranhas de uma fêmea. Mas Paulo Henrique não se importava com o que as pessoas pensavam então simplesmente não falava. Não contava vantagem. Comia e pronto.

          Aos treze anos, Paulo comeu sua prima Rosita. Fora sua primeira vez. Rosita tinha dezesseis, era rodada, mas nunca tinha visto um cacete daquele tamanheza. Ela gostou, ele também, e ele soube que tinha uma raridade entre as pernas. Não restava qualquer dúvida, Rosita repetia demais que o primo Paulinho era um Senhor Paulão, com “Z” maiúsculo.

          Paulão era, naquele tempo, magrelo. Não era muito bonito, mas não era feio não. Ele ficou intrigado. Nunca vira a bengala de outro homem para comparar. Resolveu procurar secretamente uma quenga da boate Dona Quixota. Nicinha viu aquele menino, e tentou despachá-lo. Ele disse que queria saber se o que tinha era grande, ela não quis dar atenção.

          Luxuriado pelo delicioso decote da puta, colocou a bengala para fora, meio dura, meio mole e ela exclamou.

          - Oh, mi’a noss’! Creindeuspai...

          Nicinha era mineira, mas sua história ficará para outro dia. O fato é: o mesmo tesão que ele sentia olhando para os peitões da mulher de quase trinta, ela sentira olhando para aquele instrumento de guerra do rapaz, e o colocou dentro do estabelecimento, escondido, e o levou pro quarto. Colocou na boca, na frente, colocou atrás, entre os peitos... No final, deu ainda alguns trocos para o menino.

          Paulo sentiu-se notável, e transformou-se, no objeto secreto de luxúria de muitas mulheres, de muitas idades. Aos quinze começou a fazer musculação na única academia da cidade, a “Hot Bahia”. Em um ano tinha ficado muito forte. Era um pouco alto. Virou a paixão secreta de muitas fêmeas que cruzavam seu caminho.

          Paulão não sonhava em achar a mulher ideal. Pra ele o mundo era feito de milhares delas. Ele era um leão de muitas fêmeas.  A verdade é que ele amava cada mulher que comia. Ela era a única fêmea do mundo enquanto rebolava sobre ele. Mas ele era uma força da natureza, não podia ser exclusivo. Embora...

          Embora cada mulher que tenha dado para ele acreditava que era fruto de uma experiência casual única e excepcional na vida daquele rapaz sério, responsável, gostosão, e muitíssimo bem servido. Paulão fora ensinado a meter pelas quengas mais requisitadas da Bahia! Não tinha como errar.

          Cacilda, moça crente e supostamente virgem, deu uma vez e ficou viciada. Não saiu do pé de Paulão, pobre rapaz. Acusava-o de ser cafajeste, sem se dar conta que o que o fazia ser cafajeste era o fato de que ela queria ser comida para sempre por ele. Não era ele que era cafajeste, ela é que era uma potranca no cio.

          Pegou uma camisinha, e estraçalhou-a com uma agulha de costura e colocou remédios para dormir e Viagra escondidos em uma bebida certa vez, no bar. Quem tomou foi ela mesma, e Adamastor, a comeu bêbada no bambuzal próximo ao centro da cidade. Ela engravidou. Ficou até feliz. Adamastor era afamado.

          Paulão não sonhava em conhecer uma mulher especial. Mas ele tinha um sonho. Algo até ingênuo e infantil. Paulão tivera infância, fora criança, e tinha televisão em sua casa, e ele era apaixonado por alguém que jamais viria a ter em seus braços. Paulão sempre tocou seu corpo pensando na Xuxa, e isto que o fazia carinhoso com suas presas: era a rainha dos baixinhos que ele acariciava e beijava quando fazia amor.

          Quando tinha vinte e sete anos, conheceu Raimunda. Uma mulata, loira, por quem acabou se apaixonando, e se casou, sem que restassem vestígios de mulheres com quem havia dormido, pois umas desconheciam as histórias das outras. Embora, em seu casamento, dezenas de mulheres choravam enquanto o viam no altar, esperando sua Raimunda, pensando que provavelmente jamais veriam aquela bengala outra vez.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 27

segunda-feira, 2 de julho de 2012

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          As duas velhas haviam saído. Hortência tinha se recolhido. Gilmar tomava chá de gengibre e olhava de um menino para o outro. Ao lado de Laio havia um banco de três pés, e uma vela branca acesa. Silencioso, encarou aquela chama laranja e as sombras que ela, a única fonte de luz naquele ambiente, gerava. Abriu as janelas e tomou um susto. A luz da lua brilhou em seu braço. Seu punho parecia brilhar numa espécie de fogo branco. Intrigado, mas sem qualquer receio, caminhou até a vela e a apagou num sopro.
          O braço, que parecia nu, brilhava ao menor contato com a luz da lua. Gilmar resolveu puxar o menino que havia encontrado para o contato com a lua. Algo curioso aconteceu. Aquela poeira não se desprendera de sua mão, mas particular de pó que pareciam sair do corpo do menino brilhavam soltas no vento leve que vinha da janela, acima de seu corpo. Gilmar resolvera arrastar a cama, e tira-la de cima da gravação misteriosa.
          Do momento em que soprara a vela, ao momento em que tirara a cama do lugar, percebeu uma inquietação discreta em Laio.
       “Mikail?” Gilmar murmurou. Ele abriu os olhos. Gilmar ficou assustado. Mas não perdeu a calma. Aproximou-se, respeitoso.
          “O que está acontecendo?” ele perguntou, mas não recebeu resposta. O menino apenas o olhava concentrado, estudando cada poro do rosto do rapaz.
        -Cuidado pra não morrer! – ele disse olhando nos olhos de Gilmar, com seus olhos claros. Gilmar sentiu seu coração pulsar na testa, nas pontas dos dedos e na boca. O que deveria fazer?
          Ele se levantou, sem dizer palavra, e correu, em busca do rastro por onde as velhas podiam ter ido, guiado pela luz em seu punho, semi-oculta por uma camisa enrolada.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 26

terça-feira, 26 de junho de 2012

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          O padre levantou-se, tossindo incontrolavelmente. Aproximou-se do buraco causado pela queda do lustre. Havia um alçapão aonde o garoto estava segundos antes, que era a entrada para o ambiente escondido revelado pelo buraco. O padre ergueu o alçapão, recolheu o lampião, e desceu as escadas para o lugar escuro.

          Do meio da escada para o fim, havia em cada degrau um crânio de criança. Em cima deles, uma vela grossa. O cheiro de podridão era forte. No fundo, havia uma sala ampla. Muito maior que as dimensões do resto da casa, e o chão era terra escura e úmida. O lustre caíra próximo ao centro do grande ambiente quadrado. O padre resolveu acender tantas velas quanto pode. Não se atemorizava com crânios. Crânios, ossos, caveiras, nada mais representavam do que a morte. E morte mais lhe causava introspecção e reflexão, do que temor propriamente dito.

          Havia pelo ambiente quadrado muitos castiçais de ossos, e o padre, com a ajuda de um graveto, e o fogo de sua lanterna, acendeu-os um a um. Aquela luz laranja tremeluzente deixava aquele salão com chão de terra, teto de madeira grossa, e fazia sombras de um negro absoluto e uma profundidade sem medidas.

          Tinha uma estátua de um anjo no fundo oposto à escada. Tinha asas imensas abertas. Segurava uma espada e a apontava para baixo, com o braço erguido alto. Seu rosto era misterioso. Poderia ser Gabriel, Miguel. Não era uma estátua bonita. Era uma escultura tosca de madeira, úmida, condenada. Próximo a ela havia uma gravação em madeira que reproduzia um demônio de muitas cabeças similar a gravuras de William Blake. Uma parede moderadamente grande com o que parecia ser uma biblioteca. O padre começou a folhear um livro. Era escrito a mão. Grego. Outro em latim. Outro tinha escritos em aramaico, hebraico, árabe. Uma coisa o padre percebeu. Tudo havia sido escrito pela mesma mão.

          Tinha coisas que ele entendia, outras não. Havia anotações, e estas eram sempre feitas em espanhol. O que ele percebeu, a cada hora que se passou, nas três em que investigou aquele conteúdo, é que eram conhecimentos codificados, raros, com conceitos raramente conhecidos sobre alquimia, magia, feitiçaria e bruxaria. Eram possivelmente mensagens sugeridas inconscientemente ao homem que as anotava. Pois ao que parecia, ele próprio as estudava e fazia anotações posteriores.

          Havia data nas prateleiras. 1885 era a primeira prateleira. E a ultima, inferior, 1922. Havia um rato imenso que dormia ao lado do ultimo livro. Ele puxou e a criatura correu aos guinchos. Estava em latim. Os olhos do padre, infelizmente não tinham tempo para apreciar todo seu conteúdo, mas um passeio rápido o permitiu entender.

          Luís Mondego Valência havia feito um acordo com um grupo de entidades. Em troca de sacrifícios de animais e algumas oferendas humanas, segundo o espanhol, que podiam ser adultos, e malfeitores, lhe presenteariam com os conhecimentos primordiais que, segundo eles, um dia pertenceu a todos os humanos, quando os humanos eram poucos e sábios.

          Segundo o ultimo livro, que era um diário, ele revela que pode materializar o que quisesse, e pôde dominar os dons da cura, clarividência, e o dom da praga. E o deus Belial diante dele lhe revelara que precisavam de um homem entre os homens. Que ele estava incumbido de encontrar o casulo para que ele acordasse entre os homens.

          Luís sentiu medo. Mas os deuses começaram a perturbá-lo, e lhe disseram que esta era sua missão, que ele não podia abandoná-la. Outrossim, poderia passar a missão para outra pessoa de boa vontade. Encontrou a família Giardini e apresentou à Giuseppe algumas vantagens, e a família aderiu a sua nova religião.

          Quando Giuseppe Giardini morreu, e a esposa adoeceu, os deuses começaram a interagir com elas, e deram sabedoria e abriram seus olhos para as fronteiras, e isto as seduziu. Ajudariam a trazer o deus para o mundo dos homens, matariam quantas crianças fossem necessárias para que ele fosse poderoso. Luís partiria.

          A missão das mulheres era matar em ciclos astrológicos específicos uma criança. E preparar, por um longo período, o corpo de outra, com inalações de ervas específicas, raízes, banhos, e algumas cerimônias para abrir o corpo e assimilar o espírito da criança com o deus. Não haveria possessão ou encarnação, mas um tipo de simbiose.

          Não existia um orfanato. Havia um abatedouro. E as influências de forças ocultas tornando legalidades possíveis. Se Gilmar e Hortência estavam vivos, ou eram úteis, ou alguém intercedeu por eles.

          Luís completou as ultimas páginas dizendo que não sabia se esse Beliel-Homem seria bom ou mal. Que premeditadamente pode ser visto como anti-cristo, mas que por outro lado pode sim salvar o mundo, caso as suspeitas da fraude de Javé forem verdadeiras. Mas que pode ser terrível como nada no mundo. Deve ser morto antes de acordar.

          O padre pegou o lampião e correu. Deixou o lampião aceso na porta da casa, partiu em seu cavalo, noite adentro. Tinha que encontrar Gilmar. 

Isilda Pé-de-cabra: A serial-killer do agreste

quarta-feira, 20 de junho de 2012

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Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por crimes famosos. Anos e mais anos após a era do cangaço surgira Isilda Pé-de-cabra. Paraibana brava, a serial killer mais famosa de todo o norte e nordeste do Brasil.

Isilda Pé-de-cabra era o nome escrito com garranchos em uma série de oito crimes em Itaxoxota e arredores. Severino da Silva foi encontrado com os bagos estraçalhados. Vivo e castrado, nunca mais bateu em sua esposa. Disse que a agressora vestia uma camisa com a bandeira da Paraíba, e uma touca ninja vermelha no rosto.

- Isilda Pé-de-Cabra, a justiceira do agreste dessa vez vai deixar o estrume vivo, mas passa o recado pra frente. Se mais um homem bater numa mulher, ele há de conhecer a justiça de Isilda, que é mulher e é mais brava que a justiça dos homens.

Severino contou para os policiais, que começaram a procurar a mulher baixa, invocada e de sotaque paraibano. Severino ficou traumatizado. Um mês depois, Lilico Pereira deixara a mulher hospitalizada, e, enquanto assistia Vasco e Flamengo na televisão, viu aquela silhueta desengonçada entrar pela sala. Pé-de-cabra na mão.

Esse morreu. Quebrou costelas, a cabeça. E os bagos, evidentemente. Encontraram um bilhete.

“Essa mulher não vai mais bater na outra. Isilda”.

Qual seria o passado dessa mulher vingadora?

Josualdo dos Santos tinha deixado sua namorada com hematomas por ter falado bom dia para outro homem. Em uma madrugada ele voltava para casa, numa estrada de terra isolada, quando surgiu aquela figura exótica em seu caminho.

- Êtcha, qui porra é essa? – disse ele, surpreso.

Ela mostrou o pé-de-cabra. O rapaz não se assustou. Segurou o pé-de-cabra e os dois ficaram rosnando um para o outro. A mulher deu uma cabeçada nele e levantou o pé de cabra. Ele segurou os braços dela e ela soltou seu instrumento. Ele começou a agredi-la, e tentou violentá-la.

Isilda travou buceta pra nada entrar. Ele batia nela e ela ria. Isilda era prevenida. Ela tinha um estilete colado na barriga. Enfiou várias vezes nas costas de Josualdo. Ofegante, o homem tentou fugir, mas Isilda tinha que deixar sua marca. Pegou seu pé-de-cabra e estraçalhou as jóias do homem. Morreu ali na estrada. Ali havia o bilhete.

“Já que vossa senhoria pede cesta básica, eu cobro com sangue e funciona. Esse não bate mais em mulher. Isilda”.

A polícia de toda a Bahia estava em polvorosa. Programas de TV noticiavam que a assassina do pé-de-cabra matava homens com modos rudimentares, sempre esmagando os testículos, com eles vivos, a pancadas.

Uma menina de doze anos vendia a própria dignidade numa estrada próxima a Serro-Azul. Lá estava Isilda, embrenhada no mato, esperando a hora em que a criança voltaria para casa. Lá pelas três da manhã ela viu a menina voltar mata adentro. Acompanhou-a. Chegando em casa, seu pai a esperava, para também possuí-la.

A menina, obediente, já chegava em casa pronta para acariciar o cacete de seu pai, que depois de tudo a fazia preparar-lhe comida para então lavar-se da sujeira de todos os homens que a haviam molestado. Era natural para a menina. Mas logo cedo a menina saíra para voltar à estrada, e Isilda fora visitar seu pai.

O homem assustara-se ao encontrar aquela mulher naqueles trajes estranhos.

“Já ouviu falar de mim?”

Ela mostrou o pé-de-cabra. O homem se assustou.

- Vô matá ocê, toco de amarrá jegue. – ele gritou. Correu agarrar sua espingarda mas ela bateu no braço dele, que gritou.

- Não me matar! Nem vai mais deixar sua filha na estrada.

Ela largou o pé-de-cabra no chão e o atacou com chutes, tantos quanto pode, por todo o corpo. O homem não conseguia fazer nada.

- Larga a mão de ser preguiçoso e usar a filha como mulé, como escrava e como mantedora. Toma vergonha nessa cara seu cabra vagabundo preguiçoso. Isilda Pé-de-cabra ta te vigiando num é de hoje. Se isso não acabá, Isilda arranca seus bago foca cum cê vivinho e te faz ingulí tudo.

Partiu.

Matou outros três. Caçada, investigada, e sempre misteriosa. A última vítima fora um homem velho, que possuía uma menina de oito anos, filha da mulher com quem havia casado a pouco. Era o homem que vinte anos antes a havia violentado pela primeira vez, e que seguiu por anos terríveis ferindo-a, e deixando a pobre garota com um ódio irreprimível e incontrolável.

Isilda era o nome de sua mãe, que morrera enfartando, logo que casou, e a menina, sem família, ficou a mercê do padrasto. Sentia ódio, nojo, mas sempre tivera medo dele. Em seu último encontro, entrou sem preocupar-se em ser discreta. A criança chorava silenciosa, com medo que ele lhe espancasse. A justiceira bateu com o pé-de-cabra nas pernas do velho, que quebraram na hora. A criança saíra correndo.

Ela tirou a máscara e olhou para o velho, que a reconheceu e pela primeira vez temeu.

- Raimundinha, minha frô... faz isso não. – ele suplicou.

Raimunda, ou Isilda Pé-de-cabra pegou seu instrumento, e destruiu o cerne de toda a sua tristeza. Largou o velho sozinho. Ele morreu. Ela virou delegada.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 25

sexta-feira, 15 de junho de 2012

| | | 3 comentários

          O padre levou a mão para o rosto, que cheiro terrível. Entrou na casa. O rapaz atrás dele. Era um saguão amplo, e sobrenaturalmente escuro. Nada se via. Percebeu o padre que havia um castiçal alto próximo à porta. Acendeu a vela, e com um pouco mais de luz percebeu que havia muitos outros castiçais em todo o contorno daquele salão e havia algo muito grande no fundo. Parecia uma estátua.

          - O senhor está bem? - Perguntou o rapaz ao padre, quase gaguejando.

          - Psssss. Me ajude a acender as velas.

          - Não. O senhor fica com meu lampião. Sabe onde eu moro. – e partiu.

          O padre acendeu, com a ajuda do fogo do lampião, cada vela, dando a volta lentamente pelo ambiente inteiro. Havia uma estátua no meio. Ela tinha dois metros e meio, e era como um humano deformado. O rosto trazia uma boca grande aberta, com dentes pontiagudos, e dos ombros, um lado havia uma cabeça de sapo, no outro uma cabeça de gato. Todas malignas. Diante dele havia uma criança sentada com as pernas cruzadas.

          - Quem é você?

          - Eu sou quem você acha que sabe quem sou, mas não sabe. – respondeu em latim.

          - E o que eu não sei? – o padre seguiu em latim.

          - Quem eu sou. Sabe quem não sou. Mas não sabe quem eu sou.

          - Você é o diabo?

          - Isto é um ponto de vista. O mal é um ponto de vista. Um homem bom tem uma vida ruim que o torna mal, este homem mal ergue a espada para um bom, e você o surpreende, e o mata. Você o impediu do mal, mas não matou um homem mal, porque o homem nunca é mal. Você matou um homem bom que a vida tornou mal. Vê?

          - E o que você faz com uma criança?

          Era como se aquela estátua atrás do garoto fosse viva. Havia algo terrível vindo dela. E o garoto olhava para o padre sem piscar.

          - A criança fora libertada, porque assim quisemos, mas o homem é um animal fácil de domar. Quereis liberdade?

          - O que fazem com as crianças do abrigo?

          - Alicerces.

           - Elas são sacrificadas? – o padre teve medo.

           - Elas são o rebanho da nova era. Não te ponhas no caminho. Surpreender-vos-ei quando atravessares as fronteiras entre os mundos dos vivos e dos espíritos. Há verdades para as quais o homem não está pronto.

          - Não vou deixá-los matar as crianças. Mas só quem pede morte é teu pai. Quanto se mata por suas regras?

          O padre tirou do bolso aquela velha cruz exorcista. Os olhos do menino brilharam.

          - O Deus de meu Senhor Jesus Cristo é misericordioso!

          - Podre judeu, quis mudar o mundo e não foi mais que um fantoche daquele que quis desmascarar.

          O padre ergueu a cruz e foi se aproximando do garoto. Começou a rezar.

          - Ritual Romano, padre, é para aqueles que não sabem reconhecer-se no escuro.

          Um lustre surgira no ar, despencando diante do padre, que se jogou para traz. O chão da casa abriu-se num imenso buraco. Um vapor abafado dominou aquele salão escuro. O pó brilhava como uma névoa. O cheiro de podre estava mais forte. O garoto havia desaparecido.

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