Mostrando postagens com marcador meus livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador meus livros. Mostrar todas as postagens

O Menino que não podia morrer... Capítulo 3

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

| | | 4 comentários

                    Hortência esperou por alguns instantes após a saída de Dona Lira, e trocou novamente a compressa do menino.
                    - Pobre diabo, você. Não devia morrer... – tocou-lhe o rosto. – Se crescer vai ficar um homem lindo. – Acariciou o peito do menino – Nem tem pêlos ainda. Tomara que tenha pêlos no peito e nas coxas. – suas mãos desceram pela barriga, e pelas pernas. - Eu gosto de pêlos – disse, indiferente.
                    Ficou em silêncio, a espera de ouvir algo, então se aproximou, lambeu o suor da febre no pescoço do menino e subiu com a língua até suas orelhas. Beijou seu rosto, e foi interrompida por seu próprio grito, ao ouvir um trovão. Molhou o pano na água fria, e continuou a limpar o menino, tranquilamente.
                    Era já um menino crescido, de doze ou treze anos. Era um menino bonito, alto. De fato, se tornaria um homem belo se sobrevivesse à febre que o deixava desacordado sempre. Febre que, alias, ninguém lembrava quando havia começado. Ele sempre esteve assim fazia muito tempo. Esqueceram até seu temperamento.
                    Cobriu-o com um lençol limpo e deixou o quarto. As crianças estavam limpando a casa. Havia dezesseis crianças naquela casa. Aquele era chamado Lar Cardeal Peregrino, mas ninguém se lembrava mais deste nome. Era apenas o “abrigo de crianças”. Lá Hortência crescera, e vira crianças de todas as idades irem e virem.  Ela própria crescera no abrigo, junto a Gilmar, criados por Dona Lira e Tia Rute, que era agora uma velha frágil, que não saia da cozinha.

                    Hortência não gostava nem desgostava do abrigo. Não tinha com o que comparar sua vida, logo, vivia em paz. Monotonamente. Gostava das crianças. Na verdade, não houve nada de extraordinário em sua vida que a fizesse perceber a infância passar, nada além da descoberta do sexo.

                    Nicanor era um homem de um metro e setenta e oito, forte, peludo, e fedido. Era responsável pelo trabalho pesado, há muitos anos atrás, quando Hortência era apenas uma menina de onze anos. Uma menina extraordinária, que com problemas hormonais, aos nove já lhe havia começado a crescer os seios, os quadris e os pelos pubianos. E Nicanor percebera isto.

                    Dissera-lhe Nicanor: “Sabia que já é uma mulher?”. Hortência não entendera. Ele a sentou em seu colo e enquanto acariciava os cabelos, e a envolvia com um de seus braços na cintura, continuou “Isso é uma dádiva, você é uma criança, e é inocente, no entanto, já está pronta para desfrutar do que há de melhor em ser adulto”. Ele a domou. Ela gostava do cheiro forte dele.

                    Ele começou com caricias superficiais, fazendo-a descobrir seu próprio prazer sem tocar em nenhuma parte intima, e assim foi por um mês, até que ele provou do seu corpo com sua boca e seu falo. E ela se entregou feliz. Sempre fora uma menina disposta a essas sensações.

                    Dona Lira percebeu certa vez que a menina não parava de apertar os bicos dos seios e roçar seu sexo com os dedos sempre que pensava estar sozinha, e esperou. Um dia, tarde da noite, ela encontrou Hortência, obediente, cavalgando alucinada sobre o falo de Nicanor, com os dedos agarrados nos pelos do seu peito suado, enquanto ele próprio beliscava-lhe os mamilos. Astuta, percebeu que a menina estava à vontade e não lhes surpreendeu. Quem sabe o choque de descobrir que seu prazer era na realidade um ato de violência não poderia lhe causar danos ainda piores.

                    Na mesma madrugada, Dona Lira e Tia Rute foram até casinha separada, aonde vivia Nicanor, e nunca mais ele fora visto. As crianças acreditaram por um tempo que elas o tivessem matado por alguma razão desconhecida.
(PRÓXIMO CAPÍTULO, NO DOMINGO, 22/01)


Licença Creative Commons

O Menino que não podia morrer... Capítulo 2

sábado, 14 de janeiro de 2012

| | | 4 comentários

Sentada no banquinho de quatro pernas ao lado da cama, Dona Lira bocejava.
“Ele vai morrer”, pensou, olhando para o menino deitado na cama. Parecia o palpite de alguém sem esperança, mas aquela era uma mera questão de intuição.
 - Teve alucinações durante a noite. “Não há descanso...” foi a única coisa que distingui no meio dos resmungos. Gilmar foi buscar medicamentos. Pobre homem, com este temporal por vir. – dissera à Hortência, uma jovem que, sentada na cama, trocava compressas na testa do menino.
 - Precisa tirar as roupas do varal, Dona Lira. Pegaram bastante vento, devem ter secado.
 Esquecera-se completamente. As roupas. Saiu do casarão sem pressa, com uma das mãos sempre apoiada em uma parede, como se precisasse escorar-se. Era apenas um gesto de uma mulher cansada, não propriamente debilitada. Lá fora estavam os varais cheios de lençóis e algumas roupas de crianças.
 Apanhou uma bacia num gesto automático e começou a tirar lençol após lençol sem nenhuma pressa. O céu era escuro. Olhou-o, e dele para a direção por onde a qualquer momento voltaria Gilmar trazendo comida. Distraiu-se com um lençol. Alguma ave havia se empoleirado e feito suas sujeiras. Suas mãos seguraram o lençol, apertaram-no num gesto de ódio, e ela observou seus dedos. Como estavam magros.  Parecia uma arvore seca, com manchas e galhos cheios de nós.
 Nunca tivera mãos bonitas e quando ela própria era jovem e ainda lhe havia alguma beleza, suas mãos já estavam calejadas pelo ofício nada delicado que lhe havia sido imposto por ser mulher. Admirou-as por um instante. Esfregaria novamente o lençol que estava limpo, não fossem as fezes do animal. Sentia pena de si mesma. Concentrada em suas mãos, assustou-se com um trovão alto.
 Arrancou os demais lençóis passou para dentro do casarão. Olhou novamente para a estrada. A chuva havia começado.
  Jamais ela partiu daquele lugar e agora era tarde. Passaria o resto de seus dias e, ao morrer, seria esquecida pelo mundo, e nunca teria existido.
(PRÓXIMO CAPITULO NA QUARTA FEIRA 18/01)
Licença Creative Commons

O Menino que não podia morrer... Capítulo 1

domingo, 8 de janeiro de 2012

| | | 5 comentários
Setembro, dia treze. 1929

Gilmar apoiava-se para cochilar na carroça velha naquele entardecer frio e nublado quando percebeu uma luz tão forte sobre sua cabeça e sentiu um estouro poderoso a menos de quinze metros dele. O chão tremeu, o cavalo correu, e ele próprio desnorteou-se por alguns segundos. Olhou para trás.
Calou-se, contido pelo choque. Sentiu a terra sob seus pés. Estava quente como a tarde de algum verão rigoroso. O céu, cujas nuvens continham uma chuva forte que despencaria a qualquer momento, estava cinza escuro e um buraco, de uma elipse perfeita, permitia que a luz do sol iluminasse uma parte do mato: aonde havia caído algo.
O mato não havia sido queimado, nem sequer amassado: contorcia-se para aconchegar algo, e havia formado no solo uma cavidade redonda perfeita, e no centro havia uma criança pelada, deitada em posição fetal. Uma criança grande, de seis anos, limpa, de cabelos pretos, longos e brilhantes e uma respiração deliciosamente relaxada. Gilmar andou até o buraco. A chuva começara. Ele escorregou ao entrar e aproximou-se da criança. Ajoelhou-se e viu o sexo, era um garoto. Cobriu-o com seu paletó, mas não havia frio. O sol os abrigava. O sol abrigava unicamente aquelas duas pessoas no meio do vento gelado e a chuva fina que começava.
As nuvens começaram a deformar o orifício por onde a luz passava. Gilmar permaneceu silencioso contemplando o céu, misterioso. Depois segurou a criança em seus braços e a levou até a carroça, e seguiu seu caminho.
Estava cansado. Sua vida não mudava, e seria para sempre isso. Já era incapaz de reconhecer a própria juventude. Pousou seus olhos cansados sobre o menino deitado ao seu lado, inconsciente. Quem seria ele? Teria caído do céu? Não. Era apenas um delírio de uma imaginação que sempre implorava por alguma esperança.
Com o corpo molhado da chuva, e resfriado pelo vento forte, ele seguiu seu caminho.
(CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO – 15/01)
Licença Creative Commons

A História do Amor Mais Antigo

domingo, 25 de dezembro de 2011

| | | 6 comentários

Na época em que tudo era treva, havia um planeta que era escuro e triste. Era jovem. Dentro dele não havia sombra, porque sequer havia luz para que alguma sombra pudesse surgir. Ele não conhecia a beleza, pois não podia vê-la dentro de si, e o caos de sua superfície não lho permitia enxergar as cores do universo.

Em tempo: Ele tinha uma família.

Seu pai era imenso, e quente. Mas não o acalentava, meramente o mantinha vivo, e ativo. Seus irmãos eram muitos, de diversas idades e tamanhos magníficos. Mas ele não os conhecia. Giravam todos ao redor do pai. O planeta escuro sabia que havia outros, mas sentia-se sempre só.

Como sofriam os outros, sem saber o que fazer.

Pobre planeta. Dentro dele havia um interminável caos. Apenas calor e violência. Havia vida, mas a vida era diferente. Havia energias, e espíritos, de formas e tamanhos incalculáveis.

Seus irmãos eram grandes, pequenos, todos tinham muitas riquezas em si, sem tanta variedade de formas e cores, mas viviam bem deste modo. E apesar de viverem bem, lamentavam que não havia nada que pudessem fazer para mudar o sofrimento do planeta escuro. E ele não podia entender como poderiam os outros se sentir, pois ele próprio não era capaz de entender a si mesmo.

O pai, tão radiante que era, teve uma idéia: dar-lhe companhia. Quem sabe uma companhia não lhe faria mudar. Eis o que fez: com toda a sua grandeza, atraiu um cometa imenso, com muito gelo, para si mesmo e, no momento exato, o planeta Escuro acabaria por acidentalmente interceptá-lo.

Eis o ocorrido: o cometa se chocou com o planeta escuro, e separou dele uma parte, viva, e alva. O gelo do cometa tornara-se um vapor cruel e triste dentro dentro do planeta, mas a outra metade, pequena, esfriou. Toda a violência e caos do planeta escuro que havia dentro dela cessara, e ela o admirou. Como era grandioso!

Ela parou numa distancia que pudesse não causar mal, mas ainda, que sua gravidade lhe pudesse fazer carícias. E foi o que aconteceu. Ela ergueu todo o vapor que havia dentro dele, e fez chuva forte. Chuva intensa e incessante. Muito fogo se apagou, e a poeira e fumaça que lhe cobriam toda a superfície se haviam tornado areia e pó no solo.

Pela primeira vez o calor de seu pai que lhe acalentava a pele escura. E as águas evaporaram-se lentamente para formar nuvens. Quando veio a noite, ele descobriu que uma parte de seu próprio corpo e de seu próprio espírito estava ali, olhando calmamente para ele. Serena e branca. Ela lhe ajudou a ganhar novas cores, essas cores preenchiam formas, e a vida que havia ali ganhou beleza.

O Planeta escuro ficou azul. Verde. Marrom, branco, rosa, preto, vermelho, amarelo, e outras cores que olhos não são capazes de perceber.

Amam-se até os dias de hoje. Há quem diga que giram todos em torno do sol, mas se começar a observar o universo pela amante branca, assim como a Terra, gira toda a galáxia em torno da Lua.


Licença Creative Commons

O ENCONTRO - CENA PARA MEU CURSO DE DRAMATURGIA

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

| | | 4 comentários

LUGAR ALGUM – Pouca luz.
Um homem, em seus quarenta anos, extremamente sujo, está sentado sobre uma pedra que parece um banco. Parece silencioso e contemplativo. Feito estatua a espera de um ultimo golpe da natureza para rompe-la.
Chega-se uma Mulher, quarenta e tantos anos, igualmente suja, o vê.

MULHER: Este banco: Quero-o. Saia agora.

HOMEM: É meu espaço para ver o tempo. Suma, maldita alma penada!

MULHER: Ora, já vago a tempo demais para tolerar tamanha insolência. Você é uma criatura infeliz que não merece nada além de sofrimento e solidão.

HOMEM: E você merece o que? Afeto? Banquetes? O que faz num lugar feito este se tal destino não lhe é merecido?

Olham-se em silencio.

MULHER: Eugéne?

HOMEM: O diabo e seus sortilégios. Quantos anos, eu nem me lembrava que me chamavam dessa forma...

MULHER: Não posso crer que este fora seu destino.

HOMEM: Não fale comigo com intimidade. Sei que quer meu lugar pra se acomodar, demônio sacripanta.

Ela se aproxima dele.

MULHER: Não consegue me reconhecer?

Silêncio.

HOMEM: Hora, nem me lembrava que você tinha existido algum dia. Que surpresa. Estou a anos esbarrando em novos e imortais desafetos. Não esperava encontrá-la. Você eu deixo sentar-se a meu lado.

MULHER: Eu devo estar aqui há uns cinco anos. Nunca tinha encontrado alguém que conhecesse. Pensei que fosse proibido.

HOMEM: Eu já sempre achei que fosse falta de sorte. No mundo sempre existiu mais patifes que outra coisa. Mas me diga Matilda, como anda a vida?

MULHER: Meu nome é Magnólia. Não é Matilda. E minha vida foi uma catástrofe, como sempre. Eu encontrei um noivo, que pouco depois me colocou pra fora de casa. Eu estava grávida. Roubaram-me a criança, e tive que aceitar as condições da vida informal. E você?

HOMEM: Eu vivi bem, como sempre. Marido e pai muito amado. Um chefe respeitado e admirado. Fui enganado, roubaram-me tudo, e eu me matei.

Silêncio.

MULHER: Não pensei que seria diferente disso. Mas devo confessar que não acredito que tenha sido amado por sua esposa e filhos, ou admirado por seus subalternos. Ao contrario. Penso que amava a seu ego, e seu ego lhe retribuía com os prévios elogios cínicos dos que lhe roubaram. Eis o preço, perder a única coisa que realmente prezava. Seu poder.

HOMEM: Você se tornou cruel, Magnólia. Que mal eu lhe fiz?

Silêncio.

MULHER: Meu pai mexia as sobrancelhas desse jeito. Que saudade dele. Eu o odiava. - Me pergunto como você conseguiu morrer e chegar aqui mantendo um anel de ouro no dedo.

Silêncio.

HOMEM: Devo estar aqui, pela minha noção de tempo, há uns 40 anos. Nunca tinha reparado isso. Mas é verdade. Que importância esta aliança tem para fazer parte de mim a ponto de eu trazê-la para este lugar? Não posso pensar em nada.

MULHER: Você amava sua mulher?

HOMEM: No começo. Quando ela era frágil, doce, cheia de curvas. Desejosa. Quando ela não era mãe, mas uma jovem com vergonha de me deixar perceber o quanto se envolvia pelo calor e volume do meu corpo dentro dela. Mas depois ficou gorda. Nunca gostei de mulher gorda. Minha mãe era gorda. Minha mãe dizia que eu era um canalha ordinário. Morreu atropelada por cavalos. Deve ter merecido. E minha esposa, outrora bela, transformou-se num dragão. Uma coisa de aparência rude e modos ofensivos. Feito minha mãe. Via em mim um Deus, sem saber que eu a traia com as jovens mais belas de Paris.

MULHER: Será que não sabia mesmo? Eu sempre soube que você me traia.

Silêncio.

HOMEM: Céus, eu não estava certo. Tivemos um caso!

MULHER: Tivemos um caso?

HOMEM: Sim, tivemos um caso.

Silêncio.

MULHER: Este anel me intriga. Será que ele não está ligado ao motivo que o faz permanecer preso neste lugar sem poder descansar? Porque você está aqui?

HOMEM: Não sei. (tira o anel). Talvez você realmente tenha razão em dizer que eu sou egoísta, pois eu não consigo me lembrar de nada que tenha deixado por acertar.

Ele a entrega o anel.

MULHER: Meu nome está escrito aqui.

HOMEM: (desesperado. Milhões de lembranças lhe vêem a tona) Porque eu iria te pedir em casamento. Porque eu lhe gostava muito, mas Lily me traria mais oportunidades. Então eu apenas lhe entreguei a aliança que seria sua. Com apenas meu nome gravado. Terminei com você. Acabei com tudo. Ela me idolatrava. Você me ofendia. (PAUSA) Eu gostava disso. Sabia que você jamais teria engordado. Sempre soube disso. Isso me mantém aqui, neste lugar, inibido de paz e descanso. Eu fui um monstro com vocês, que ofereceram seus futuros inteiros pra mim. E você, minha querida, o que a mantém neste lugar?

MULHER: Quando terminou comigo, eu estava grávida de você. Meu pai... Arrumou-me um noivo, que descobriu que tudo era uma farsa. Casou-se comigo só para me humilhar e acabar com minha família. Tive de amadurecer na rua, aonde não me restou escolha a não ser vender minha dignidade a quem a quisesse. Numa noite, enquanto quatro homens me possuíam, eu comecei a chorar. Porque naquele momento eu queria estar com meu marido e nosso filho. Mas estes eu jamais saberia onde estavam. Me mataram. - - Você me pergunta o que me mantém presa aqui, eu lhe digo, meu amor. O que me mantém aqui é o fato de que te odiei em cada dia da minha vida, e porque me odiava mais ainda, por saber que eu ainda sonhava estar com você.

A luz sobre eles torna-se forte. Eles viram-se pra se abraçar, mas antes disso, a cena acaba.

About me

About Me


Aenean sollicitudin, lorem quis bibendum auctor, nisi elit consequat ipsum, nec sagittis sem nibh id elit. Duis sed odio sit amet nibh vulputate.

Popular Posts

Contact Us

Nome

E-mail *

Mensagem *

Navigation-Menus (Do Not Edit Here!)

My Instagram