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A morte do Papai Noel

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

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Em algum lugar no interior da Bahia se escondia a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era conhecida por histórias de superação. Natalino Ventura fora um sobrevivente: Tinha dois filhos que passavam o dia sozinhos no sitio em que morava, e certa vez, em época de natal viajou até Itabuna para trabalhar em um comércio.

Com a mesma falta de sorte que lhe trouxera uma mulher que engravidara de gêmeos e desapareceu após seu nascimento, Natalino esbarrou com Cristino Gomes, conhecido por Corisco, cangaceiro famoso e perigoso que estava à paisana pelas bandas de Itabuna. Após uma discussão por motivo fútil, Corisco lhe agrediu com violência.

 Ninguém jamais soube que o homem que o espancara e o deixara desacordado pela rua era o cangaceiro, a não ser este que vos fala. O fato é, Natalino, com vinte e três anos, acordara sem se lembrar de seu nome, seu lar, exceto lembrar-se que tinha alguém à sua espera.

Seus filhos cresceram, com momentos ora de tristeza, ora raiva. Jamais saberiam o que tinha acontecido até que quando completaram sessenta anos, Indaiara, a moça, agora senhora, por quaisquer forças do destino o encontrara pedindo esmolas em uma praça de Itabuna, com uma barba que passava a altura da cintura, cabelos longos, cinzas e embaraçados, e uma marca de espancamento, como um carro amassado, no cocuruto do velho.

Bastaram três dias para que ele estivesse devidamente asseado, e arrumaram-lhe um trabalho. Um shopping de Itaxoxota, que mais parecia uma pequena galeria, precisava de um velho barbudo para representar o Papai Noel.

Lá estava Natalino. Um velho que não calculava informações. Não assimilava o mundo. Uma alma infeliz, por ansiava por reencontrar coisas que já tinha recuperado e não podia reconhecer. Falava, pensava, mas era vazio. Sentia calor com a roupa vermelha, e a poltrona do Papai Noel, embora parecesse bonita, era dura e desconfortável. E então uma menina se sentou em seu colo.

Ele fez como o dono do Shopping orientara, conversava com a menina, e dera-lhe um doce. Houve uma iluminação em sua mente ao olhar tão próximo do rosto da menina.

“Minha filha...” pensou ele, como quem faz a maior descoberta do mundo. Ele tinha duas crianças. As havia deixado para trabalhar. Esta era a causa de sua angústia. O senso de responsabilidade por seus filhos jamais havia desaparecido, e não lembrar que existiam tornara todos os sessenta anos terrivelmente sufocantes.

Seu coração acelerou. Ele precisava procurar, mas onde estariam.

- Qual o seu nome, meu filho? – perguntou ele para outra criança.

- Enoque. – respondeu o menino.

Era o nome de seu filho. Enoque e Indaiara. De repente tudo voltou à tona. Ele sabia quem era, de onde viera, lembrou-se do diabo loiro que o agredira. Mas não se esquecera dos anos que se passaram.

Sentou-se outra criança. Mas sua aflição apenas se atenuava a cada segundo que passava.

“Meu Deus, aquela moça é minha filha. Onde ela está?” ele pensou, lembrando-se do rosto da mulher Indaiara que o havia resgatado das ruas de Itabuna.

Começou a sentir a boca seca.

- Eu passei de ano! – exclamou um menino, orgulhoso. Olhou para o menino, simpático, tentando parecer calmo, embora surgissem pequenas luzes em seus olhos que piscavam incessantes.

Esticou o braço esquerdo para pegar um pirulito, e o doce caiu de sua mão que formigava. Ele abria e fechava, aflito. A boca, mais seca a cada instante, e de repente ele gritou um breve “Ah!”, e derrubou o menino no chão, e caiu em cima dele. Morto.

Um trovão cortou todo o som que havia na cidade. Um raio havia partido a maior árvore da praça principal, que ficava diante do shopping e da igreja. Também o som da árvore fora um estrondo arrepiante.

E as crianças, que eram muitas começaram a gritar. Umas choravam de medo, outras uivavam e apontavam para o velho morto.
“Papai Noel morreu”, gritavam elas.

E a chuva começou. Densa, tornando a manhã ensolarada em uma noite surgida de modo inesperado. Pessoas corriam pelo shopping e gritavam nas ruas que o Papai Noel havia morrido. Uma hora depois, estavam Indaiara e Enoque ao lado de oficiais que retiravam o corpo de Natalino.

Quando o corpo fora levado, todo mundo soube que o nome do homem se chamava Natalino, e que ele era um milagre. Pois não chovia em toda a região fazia quase seis meses. A chuva levou horas, e toda a cidade saiu, sem guarda-chuvas, para senti-la, fria, abundante e abençoada.

Indaiara e Enoque jamais souberam que seu pai se lembrara deles antes da morte, e fora a dor de tê-los deixado esperar tanto tempo, que lhe tomou a vida. 

O maconheiro "da hora"

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

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          Em algum lugar no interior da Bahia se escondia a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era conhecida por seus cidadãos defensores da moral e dos bons costumes, da decência... Gente filantropa e, claro, maconheira.

          Nos arredores de Itaxoxota ficava a fazenda de coronel Eleutério, fazenda de cana-de-açúcar, mas era no centro da cidade que vivia seu filho Caio. Rapaz inteligente, ousadíssimo, de personalidade forte, e demonstrava isso para o mundo fumando maconha.

          Caio não trabalhava. Não precisava, papai era rico. Caio era sempre preso por fumar maconha em lugar público, e seu pai, Coronel Eleutério pagava a fiança, dava-lhe uma bronca, cujas ultimas palavras costumavam ser ouvidas a distância. Caio era ousado, e não precisava de conselhos.

          Seu pai, Coronel Eleutério, fora prefeito de Itaxoxota por sete mandatos consecutivos, e já depois de velho, emprenhou uma de suas amantes, teúda e manteúda, e nasceu Caio, mimado que pensava que não era.

          Caio era um menino de atitude, desprendido, que só vestia roupas de surfista de marcas caras. Era bissexual. Não que sentisse desejo por homens, mas basicamente, o que viesse era lucro. Vivia um dia de cada vez, como se fosse o último, ou não.

          Caio namorou certa vez Vanessa, patricinha, filha de uma família importante da cidade de Serro Azul. Conheceram-se numa festa na rua, ao som de Bob Marley, sob as românticas névoas pálidas de seus baseados. O namoro durou pouco mais de um ano. Caio se irritou por perceber que ela apenas queria fumar maconha da boa, e isso ele sempre arrumava de sobra.

          Vanessa o traiu com Judelino, o dono da boca de sua cidade. Fora expulsa de sua casa, e alguns anos mais tarde, virou prostituta. Mas Caio não ficou sozinho muito tempo. Conheceu dois meses depois Carlinhos. Carlinhos fazia chupeta em troca de maconha. Caio o pediu em namoro e o levou pra família conhecer.

          Carlinhos era “da hora”, segundo Caio. Carlinhos mamava que era uma beleza. E os dois fumavam o dia inteiro. Caio gostava de Carlinhos porque os dois tinham pontos de vista culturais e políticos em comum.

          Caio tinha uma opinião política justa e extremamente coerente, segundo ele mesmo, claro.  Caio adorava dizer que políticos eram corruptos, que pessoas passavam fome, que o mundo era cruel, que os animais eram mais confiáveis que os seres humanos... Dizia que era importante salvar a natureza. Tudo isso ele dizia no conforto de sua casa, relaxado, escutando Three Little Birds e acendendo a “bomba”.

          Three Little Birds era “da hora”. Caio as vezes esquecia de tomar banho. Alias, ele as vezes esquecia o próprio sobrenome. Aí alguém o chamava de maconheiro e ele ria. Achava esquecer “da hora”.

          Certa vez Caio e Carlinhos foram visitar o pantanal e Carlinhos foi até o rio fazer cocô, e fora atacado por uma sucuri. Foi comido e levado para dentro do rio. Caio voltou para Itaxoxota do Norte, sabendo que tinha esquecido de alguma coisa. Coronel Eleutério perguntara do genro e Caio emudeceu por um tempo. Carlinhos nunca mais fora visto e ele nunca soube o porque.

          Caio vendia maconha para algumas putas, contra a vontade de dona Satanilda, que não queria oferecer quengas entorpecidas para seus clientes ilustres.

          Caio achava Mahatma Gandhi da hora. Nem sabia muito sobre ele. Bob Marley era da hora também. Nem sabia nada sobre eles. Achava que dava moral ter pôster com a cara deles no quarto.  Eles eram motivadores de seu maior sonho.

          Sim, pois ele era sonhador, e seu sonho era mudar o mundo. transformá-lo num lugar melhor. Certa vez Coronel Eleutério perguntou “Como gostaria de fazer isso?”.

          Ficaram dois minutos, olhando sérios um para a cara do outro sem dizer absolutamente nada.

Paulão: A Lenda

quarta-feira, 4 de julho de 2012

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          Em algum lugar no interior da Bahia se escondia a distinta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por pessoas afamadas pelas razões mais surpreendentes. Paulo Henrique Silva era um exemplo: dormiu com todas as mulheres da cidade e foi conhecido por casar virgem.

          O que as pessoas não sabiam era que Paulo Henrique simplesmente era um rapaz discreto, que gostava muito do cheiro que vinha das entranhas de uma fêmea. Mas Paulo Henrique não se importava com o que as pessoas pensavam então simplesmente não falava. Não contava vantagem. Comia e pronto.

          Aos treze anos, Paulo comeu sua prima Rosita. Fora sua primeira vez. Rosita tinha dezesseis, era rodada, mas nunca tinha visto um cacete daquele tamanheza. Ela gostou, ele também, e ele soube que tinha uma raridade entre as pernas. Não restava qualquer dúvida, Rosita repetia demais que o primo Paulinho era um Senhor Paulão, com “Z” maiúsculo.

          Paulão era, naquele tempo, magrelo. Não era muito bonito, mas não era feio não. Ele ficou intrigado. Nunca vira a bengala de outro homem para comparar. Resolveu procurar secretamente uma quenga da boate Dona Quixota. Nicinha viu aquele menino, e tentou despachá-lo. Ele disse que queria saber se o que tinha era grande, ela não quis dar atenção.

          Luxuriado pelo delicioso decote da puta, colocou a bengala para fora, meio dura, meio mole e ela exclamou.

          - Oh, mi’a noss’! Creindeuspai...

          Nicinha era mineira, mas sua história ficará para outro dia. O fato é: o mesmo tesão que ele sentia olhando para os peitões da mulher de quase trinta, ela sentira olhando para aquele instrumento de guerra do rapaz, e o colocou dentro do estabelecimento, escondido, e o levou pro quarto. Colocou na boca, na frente, colocou atrás, entre os peitos... No final, deu ainda alguns trocos para o menino.

          Paulo sentiu-se notável, e transformou-se, no objeto secreto de luxúria de muitas mulheres, de muitas idades. Aos quinze começou a fazer musculação na única academia da cidade, a “Hot Bahia”. Em um ano tinha ficado muito forte. Era um pouco alto. Virou a paixão secreta de muitas fêmeas que cruzavam seu caminho.

          Paulão não sonhava em achar a mulher ideal. Pra ele o mundo era feito de milhares delas. Ele era um leão de muitas fêmeas.  A verdade é que ele amava cada mulher que comia. Ela era a única fêmea do mundo enquanto rebolava sobre ele. Mas ele era uma força da natureza, não podia ser exclusivo. Embora...

          Embora cada mulher que tenha dado para ele acreditava que era fruto de uma experiência casual única e excepcional na vida daquele rapaz sério, responsável, gostosão, e muitíssimo bem servido. Paulão fora ensinado a meter pelas quengas mais requisitadas da Bahia! Não tinha como errar.

          Cacilda, moça crente e supostamente virgem, deu uma vez e ficou viciada. Não saiu do pé de Paulão, pobre rapaz. Acusava-o de ser cafajeste, sem se dar conta que o que o fazia ser cafajeste era o fato de que ela queria ser comida para sempre por ele. Não era ele que era cafajeste, ela é que era uma potranca no cio.

          Pegou uma camisinha, e estraçalhou-a com uma agulha de costura e colocou remédios para dormir e Viagra escondidos em uma bebida certa vez, no bar. Quem tomou foi ela mesma, e Adamastor, a comeu bêbada no bambuzal próximo ao centro da cidade. Ela engravidou. Ficou até feliz. Adamastor era afamado.

          Paulão não sonhava em conhecer uma mulher especial. Mas ele tinha um sonho. Algo até ingênuo e infantil. Paulão tivera infância, fora criança, e tinha televisão em sua casa, e ele era apaixonado por alguém que jamais viria a ter em seus braços. Paulão sempre tocou seu corpo pensando na Xuxa, e isto que o fazia carinhoso com suas presas: era a rainha dos baixinhos que ele acariciava e beijava quando fazia amor.

          Quando tinha vinte e sete anos, conheceu Raimunda. Uma mulata, loira, por quem acabou se apaixonando, e se casou, sem que restassem vestígios de mulheres com quem havia dormido, pois umas desconheciam as histórias das outras. Embora, em seu casamento, dezenas de mulheres choravam enquanto o viam no altar, esperando sua Raimunda, pensando que provavelmente jamais veriam aquela bengala outra vez.

Isilda Pé-de-cabra: A serial-killer do agreste

quarta-feira, 20 de junho de 2012

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Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por crimes famosos. Anos e mais anos após a era do cangaço surgira Isilda Pé-de-cabra. Paraibana brava, a serial killer mais famosa de todo o norte e nordeste do Brasil.

Isilda Pé-de-cabra era o nome escrito com garranchos em uma série de oito crimes em Itaxoxota e arredores. Severino da Silva foi encontrado com os bagos estraçalhados. Vivo e castrado, nunca mais bateu em sua esposa. Disse que a agressora vestia uma camisa com a bandeira da Paraíba, e uma touca ninja vermelha no rosto.

- Isilda Pé-de-Cabra, a justiceira do agreste dessa vez vai deixar o estrume vivo, mas passa o recado pra frente. Se mais um homem bater numa mulher, ele há de conhecer a justiça de Isilda, que é mulher e é mais brava que a justiça dos homens.

Severino contou para os policiais, que começaram a procurar a mulher baixa, invocada e de sotaque paraibano. Severino ficou traumatizado. Um mês depois, Lilico Pereira deixara a mulher hospitalizada, e, enquanto assistia Vasco e Flamengo na televisão, viu aquela silhueta desengonçada entrar pela sala. Pé-de-cabra na mão.

Esse morreu. Quebrou costelas, a cabeça. E os bagos, evidentemente. Encontraram um bilhete.

“Essa mulher não vai mais bater na outra. Isilda”.

Qual seria o passado dessa mulher vingadora?

Josualdo dos Santos tinha deixado sua namorada com hematomas por ter falado bom dia para outro homem. Em uma madrugada ele voltava para casa, numa estrada de terra isolada, quando surgiu aquela figura exótica em seu caminho.

- Êtcha, qui porra é essa? – disse ele, surpreso.

Ela mostrou o pé-de-cabra. O rapaz não se assustou. Segurou o pé-de-cabra e os dois ficaram rosnando um para o outro. A mulher deu uma cabeçada nele e levantou o pé de cabra. Ele segurou os braços dela e ela soltou seu instrumento. Ele começou a agredi-la, e tentou violentá-la.

Isilda travou buceta pra nada entrar. Ele batia nela e ela ria. Isilda era prevenida. Ela tinha um estilete colado na barriga. Enfiou várias vezes nas costas de Josualdo. Ofegante, o homem tentou fugir, mas Isilda tinha que deixar sua marca. Pegou seu pé-de-cabra e estraçalhou as jóias do homem. Morreu ali na estrada. Ali havia o bilhete.

“Já que vossa senhoria pede cesta básica, eu cobro com sangue e funciona. Esse não bate mais em mulher. Isilda”.

A polícia de toda a Bahia estava em polvorosa. Programas de TV noticiavam que a assassina do pé-de-cabra matava homens com modos rudimentares, sempre esmagando os testículos, com eles vivos, a pancadas.

Uma menina de doze anos vendia a própria dignidade numa estrada próxima a Serro-Azul. Lá estava Isilda, embrenhada no mato, esperando a hora em que a criança voltaria para casa. Lá pelas três da manhã ela viu a menina voltar mata adentro. Acompanhou-a. Chegando em casa, seu pai a esperava, para também possuí-la.

A menina, obediente, já chegava em casa pronta para acariciar o cacete de seu pai, que depois de tudo a fazia preparar-lhe comida para então lavar-se da sujeira de todos os homens que a haviam molestado. Era natural para a menina. Mas logo cedo a menina saíra para voltar à estrada, e Isilda fora visitar seu pai.

O homem assustara-se ao encontrar aquela mulher naqueles trajes estranhos.

“Já ouviu falar de mim?”

Ela mostrou o pé-de-cabra. O homem se assustou.

- Vô matá ocê, toco de amarrá jegue. – ele gritou. Correu agarrar sua espingarda mas ela bateu no braço dele, que gritou.

- Não me matar! Nem vai mais deixar sua filha na estrada.

Ela largou o pé-de-cabra no chão e o atacou com chutes, tantos quanto pode, por todo o corpo. O homem não conseguia fazer nada.

- Larga a mão de ser preguiçoso e usar a filha como mulé, como escrava e como mantedora. Toma vergonha nessa cara seu cabra vagabundo preguiçoso. Isilda Pé-de-cabra ta te vigiando num é de hoje. Se isso não acabá, Isilda arranca seus bago foca cum cê vivinho e te faz ingulí tudo.

Partiu.

Matou outros três. Caçada, investigada, e sempre misteriosa. A última vítima fora um homem velho, que possuía uma menina de oito anos, filha da mulher com quem havia casado a pouco. Era o homem que vinte anos antes a havia violentado pela primeira vez, e que seguiu por anos terríveis ferindo-a, e deixando a pobre garota com um ódio irreprimível e incontrolável.

Isilda era o nome de sua mãe, que morrera enfartando, logo que casou, e a menina, sem família, ficou a mercê do padrasto. Sentia ódio, nojo, mas sempre tivera medo dele. Em seu último encontro, entrou sem preocupar-se em ser discreta. A criança chorava silenciosa, com medo que ele lhe espancasse. A justiceira bateu com o pé-de-cabra nas pernas do velho, que quebraram na hora. A criança saíra correndo.

Ela tirou a máscara e olhou para o velho, que a reconheceu e pela primeira vez temeu.

- Raimundinha, minha frô... faz isso não. – ele suplicou.

Raimunda, ou Isilda Pé-de-cabra pegou seu instrumento, e destruiu o cerne de toda a sua tristeza. Largou o velho sozinho. Ele morreu. Ela virou delegada.

São Francisco Morango: Padroeiro de Itaxoxota

segunda-feira, 4 de junho de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por crendices, folclore, e seus ícones religiosos. Um deles era o vanguardista, o santo, amado unanimemente pela população: São Francisco Morango.

          Francisco era um menino pobre, que vivia para as pessoas. Dedicou a vida aos animais, às crianças, e as mulheres solteiras. Era um amuleto. Tudo começou quando Elenilce Falcão, mulher de meia idade, o chamara para cuidar do jardim de sua fazenda. Certa tarde ensolarada, ela fizera sexo com o menino, na época com 14 anos, e no dia seguinte conheceu um homem rico, com quem se casou.

          O homem morreu alguns meses depois, e Elenilce Falcão novamente resolveu se divertir com o garoto, e novamente conheceu um partidão. Foi quando pensou se não seria o pequeno Chico. Ela falou para uma amiga, Clemilda. Clemilda era feia, precisou oferecer dinheiro. A mulher deu. Nada aconteceu.

          Dona Elenilce ficou intrigada, e tentou argumentar com a amiga frustrada, e debatiam o que haviam feito até que a patroa de Francisco sugeriu que tomasse do leite do rapaz.

          Clemilda dessa vez não quis perder tempo com sexo, e apenas abocanhou o menino. Naquela noite ela não conseguiu dormir. Ansiosa, ao amanhecer, não conseguiu comer, nem nada. Eis que passou mal e fora levada para o hospital, aonde um médico, homem de meia idade, se encantou pela mulher. Casaram-se.

          Clemilda disse que Francisco, um rapaz negro, carregava consigo o morango da sorte. Secretamente, indicou a uma amiga, que indicou para outra. Francisco ficara rico já aos dezoito anos, e comprou uma grande chácara aonde cuidava de crianças carentes e animais abandonados.

          O legado de Francisco Morango é extenso. Certa vez, uma mulher precisava de dinheiro para internar seu filho doente. Fora o leite de Francisco Morango... Ao tomá-lo da fonte, no mesmo dia um homem rico esbarrou em sua pessoa, quase atropelando-a com seu automóvel, e sensibilizou-se com a história da mulher. Pagou o tratamento do filho, e a seguir, deu-a um emprego na casa de sua família.

          Há boatos de que uma atriz famosa, hoje veterana da televisão, em sua mocidade, visitara a chácara de Francisco Morango para mamar o jovem santo. Em Salvador, conhecera um diretor da extinta TV Tupi, com quem dormiu e ganhou um papel relevante em uma novela hoje esquecida pelo público.

          Francisco Morango morreu de desnutrição. Mais amamentava o mundo que alimentava a si mesmo. Era um rapaz simples, e quando chegou aos tinta e dois anos, morreu durante o sono. Fora o povo que o beatificara, e havia uma capela ao lado da igreja principal da cidade, aonde em todo o dia 22 de outubro, aniversário de Francisco, oram em romaria.

          Eis a oração dedicada à ele, escrita pelo padre Inácio Coitinho:

Prece à São Francisco Morango

Patriarca Francisco, atendei ao apelo desde que roga.
Derramai pela minha face o leite da salvação,
Livrando-nos do mal-agouro e trazendo-nos o néctar de vossas virtudes.
Deixai-nos beber nas fontes que nos salvam e vos fazem gozar em alegria.
Alimenta-nos com o leite do advento, e recobre-nos com vossos respingos vigorosos.
Glorificado aquele que dá mais que recebe, pois seu gozo será dobrado.
Amém.

Paím Zémaria e seu cambono Djalma

sexta-feira, 4 de maio de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida pela diversidade religiosa. Entre padres e pastores, havia Paím Zémaria. Um senhor de pouco mais de cinqüenta anos, bastante afeminado, gentil, doce, e extremamente vingativo.

          Vivia com Djalma, seu cambono. Djalma era um negrão de um metro e noventa e oito, musculoso, massudo, beiçudo e faludo. Era cobiçado por muitas mulheres e, cônscio disto, Paím Zémaria estava sempre alerta.

          Certa vez no açougue Luzinete, uma das quengas de dona Satanilda viera conversar com Djalma.

          - Óli, hômi, tu sabe que sô bem da carinha, num sabe?

          O negão era simpático,e olhou para ela com um sorriso gentil. Ela continuou.

         - Sabe, um nêgo desses precisa nem cartão de credito. Paga com o...

         - Dé-jalma... – disse alto e manso o pai de santo. – Vem cá mais eu ségurá a sacola.

         O rapaz voltou até o pai de santo, e o auxiliou. Luzinete pegou sífilis naquela mesma semana.

         Dona Cambira, era beata, esposa de um fazendeiro. Certa vez, desconfiada que seu esposo a traía, resolveu apelar para o pai de Santo.

          - Paím Zémaria, meu marido ta me traínu.

          - Oxi, minha frô, tu sabe como?

          - Jader num voltcha mais antes que dá dez da noite.

          - Minha nêga, as veiz o homi tá trabalhano. As veiz o homi ta ocupadjo.

          A mulher ficou muda.

          - Jogue os búzios, Paím, joga que eu quero sabê é já.

          Paím jogou os búzios.

          - Óli, nêga, dicóráção. As veiz o homi ta ocupadjo e tu, ociosa em tua casa, comendo biscoitcho, fica pensando bobagem. Se ele estivesse te traindo. O que tu ia fazer, separar dele? Pra ficar na merdja?

           - Hum... Mas eu bem que pudia mandar dar uma coça na vagabunda.

           - Oxi, e o que tem haver o cú cas calça, fia? O safado é o hômi que tem a mulé em casa esperandjo com cumida quente e vontade de dá... Se ele te trai, o que tu vai fazer?

           - Nada. O que o búzios diz, paím?

           - Que teu marido é um santo.

          Sem dizer mais nada, a mulher pagou, e foi embora.

          - Do pau oco. – e riu preguiçosamente. – Dé-jalma... Venhe cá, nêgo. To aprecisado de um cadinho de amô...

          Seu Eriberto, marido de Dona Cambira, era um cliente antigo de Paím Zémaria. Recorria justamente para quebrar feitiços de inveja, e manter sua aura aberta para atrair coisas boas(mulheres). Era um cliente de Dona Satanilda.

          Dona Satanilda, alias, vinha, de tempo em tempo, fazer contribuições com o terreiro de Paím Zémaria. Não se aconselhava com ele, apesar de tê-lo como amigo. Certa vez lhe pedira para defumar Dona Quixota, seu bordel.

          Ele foi e Djalma o acompanhara. Que euforia houve naquele recinto. Entrou o homem negro, imenso, espadaúdo, como que em câmera lenta. As quengas pararam de conversar. Os olhos de paím Zémaria brilharam de raiva. Dona Satanilda percebeu e se assustou. Djalma não recriminava ninguém. Nem as mulheres nem os homens. Ele sabia que era gostoso, e que não tinha culpa de causar esse efeito, e era compreensivo com quem se abatia por sua aparência.

         - Dé-jalma, feche essa camisa, sim, meu nêgo?

         O negão fechou os botões. As quengas se aquietaram um pouco, embora não pudessem conter-se a olhar para os braços musculosos, ou para o volume de sua calça folgada. Nem pudessem deixar de perceber o gingado folgado ali na calça, que deixava claro que o rapaz não usava cuecas.

          - Dona Satanilda, Dé-jalma é um moço de respeitcho e eu não quero vadia niúma ofendendo meu menino. Manda essas pombajira sair daqui, sim?

          - Maínha tá enciumada... – uma delas murmurou a outra, debochando. Tropeçou e quebrou o a perna. Dona Satanilda se assustou e quis ajudar

          - Segure o defumador, deixe que as outras cuidam dela.

          Foi o que Satanilda fez.

          Paím Zémaria recebia o preto velho Pai Mané de Aruanda.

          Pai Mané era um escravo que a duzentos anos fora libertado, e viveu até os cento e vinte anos de idade, e teve cento e vinte netos. E teve cinqüenta e dois filhos.

          Paím Zémaria sofria, porque Pai Mané as vezes incorporava seu cavalo e saia, cabra macho que era, a procura de uma moça jeitosa pra fornicar. E pai Mané sabia fazer o serviço. Zurema, moça nova, bonita, vivia no terreiro, a espera que Pai Mané pegasse Paím Zémaria desprevenido e traçasse a moça. Pai Mané, em suas aventuras no corpo de Paím Zémaria, fizera sei filhos. 

          - Que nojo de minha boca... – dizia Paím – Dé-jalma, traz pra mim a cândida pra gargaréjá.

          Paím odiava Zurema, mas sabia que Pai Mané gostava dela. Olhava pra ela e se imaginava lambendo... “Deus quime-livre, gostcho nem de imaginá. Dé-jalma, venhe cá e tire a roupa que eu to carécendo de meu nêgo”.

          Paím Zémaria sofria com essa jornada sexual dupla, mas já estava acostumado. Não gostava das crianças que Pai Mané fizera. Achava que eram feias e só podiam ser filhos de preto velho. Djalma não gostava do preto velho, mas não se metia.

O retrato familiar de Dona Lindura e sua filha Coisinha

quarta-feira, 18 de abril de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por seus moradores ricos. Dona Lindura era muito conhecida por sua beneficência, e por abominar aquela “rente” feia da cidade.

          Dona Lindura era alta, bronzeada, com pernas torneadas, cabelos louros platinados e dois lindíssimos seios importados da França. Lindura era a esposa do prefeito da cidade, mãe de duas meninas: Bunitinha e Coisinha.

          Bunitinha nascera com dois lindos olhos azuis quase fosforescentes e cabelos claros. Herança do bisavô holandês, do lado pernambucano da família. Era meiga, carinhosa, gentil e tímida. O xodó da família.

          Mas quando nasceu a segunda filha, a parteira diminuiu a luz do quarto, e entregou o bebê enrolado numa manta, cobrindo o rosto.

          - Dê cá minha minina, cabra velha! – e descobriu o rosto do bebê – Valei-me nosso senhor Jesus Cristo!

          A menininha só não tinha cabelos nos lábios e nas pálpebras. Era zoiúda, com olhos abertos e vesga. Como sua irmã mais velha, puxara o lado pernambucano da família. Mas o que herdou não foram os olhos claros, somente a cabeça grande.

          - Esse negocinho deve sê filhote de Pituca, saiu de mim não! Traz minha filha e devolve esse trocinho pra cachorra.

          Depois de uma semana, os pelos caíram do rosto da criança, mas isso não deixou a mãe mais feliz. Era um bebezinho feio, todo judiadinho. Ah, como sofria dona Lindura olhando aquele bebê cabeçudo, bochechudo e com nariz esborrachado.

          - Não é normal sê feia assim... – ela dizia a si mesma enquanto amamentava a criatura.

          Certa vez a abandonou na porta de um convento. Com a criança, um bilhete: “Senhor, receba com a mesma alegria que me deste”.

          Jurandir, o pai, na época era um rapaz de vinte e poucos anos, a fez buscar o negocinho de volta, pois começava uma carreira política e isso não podia pegar bem. E Lindura buscou a criança.

          Só foi registrada com quase três meses de idade. Sem saber que nome dar, o tabelião sugeriu Coisinha, e foi o que aconteceu.

          Quando completou dois anos, Dona Lindura decidiu que a menina era feia demais para sair na rua. Além de feia era fanha. Mas nos anos seguintes ficou com dó da solidão de Coisinha e, quando esta fez três anos, teve uma grande idéia.

          Inspirando-se em reportagens sobre o oriente médio, Lindura encomendou burcas customizadas, com estampas coloridas e infantis, para sua filha. Eram no geral, aberrações ainda piores que a feiúra da criança.

          Aos vizinhos, dizia que a antiga doença que a impedia de sair na rua(mentira!) havia sido curada graças à promessa que ela fizera à Santo Expedito de cobrir sua beleza(mentira!).

          Na mesma época ela contratara uma fonoaudióloga particular que, com o tempo, passou a ser a única pessoa a ver o rosto de Coisinha. Luzinete era seu nome. Luzinete virou madrinha da menina.

          - Ô, dona Lindura. A senhora não me deixa levar a coisinha no oculista?

          - Oxênte, nem pensar. Não quero ninguém me prócéssando por se assustar com meu trocinho.

          - Oxi, Dona Lindura, mas é malvadeza. E seu eu levar Coisinha num médico em Serro Azul?

          - Dona Luzinete, aprécio sua générósidade, visse, mas desvesgar essa menina não vai dexá menos feia...

          - Mas não ser vesga já é alguma coisa...

          Luzinete foi fazendo o que podia por Coisinha. A menina crescera sem olhar em espelhos.

          “Já teve o azar de nascer feia, “deusquími-livre” se parte um espelho com essa carranca e o azar piora...”, preocupava-se a mãe.

          Quando fez quinze anos, Coisinha pediu aos pais uma festa. Com baile, valsa, um cadete bonito e tudo mais. Recebeu um sonoro “Se endoideceu-se foi?”. Mas aos dezoito, dona Luzinete convencera Jurandir e Lindura a mandar a filha para férias no Rio de Janeiro. E fora a menina e sua madrinha. Três semanas e depois voltaram.

          Dona Lindura ficou três dias sem conseguir dizer palavra. Estava horrorizada: Coisinha não usava mais burca.

          A menina andava pela cidade com o rosto rígido de uma fêmea revoltada e a cidade estava chocada a olhar para seu rosto: Dona Lindura não mentira sobre a promessa. Aquela criança, outrora uma menina feia, era a morena mais jeitosa de toda a cidade.

          E quando voltou do Rio de Janeiro, passou em casa para pegar suas coisas e se mudar para o bordel Dona Quixota, o comercio mais importante de toda a cidade.

          Mulher da vida ela queria ser, mas dona Satanilda disse que ela era “apétitosa dimais”, e que devia ser a mais cara. Ninguém tinha dinheiro para pagar, e Coisinha Mais Linda, como passou a ser chamada, passou a ser a recepcionista desejada e inacessível do bordel mais famoso de toda a Bahia.


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A Lenda do temível Saci de duas pernas

quarta-feira, 11 de abril de 2012

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          Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida pelas lendas folclóricas regionais. O terror da cidade era o violador das donzelas, o temível Sací de duas pernas.

          Sua primeira aparição catalogada foi no meio da década de trinta. A vítima fora Joãozinho. Era um rapaz baixinho, protestante, óculos fundo de garrafa, voz fina, recém formado em advocacia. Ele andava pela cidade, certa vez, meia noite naquela sexta-feira treze, noite de luar, quando olhou para a lua.

          Estava próximo de uma árvore. O paralelepípedo, branco pela luz da lua, mostrava sua silhueta, recortava a sombra retorcida dos galhos da árvore e, de um segundo para o outro, um homem baixo, com duas pernas: uma comprida, com a qual ele se equilibrava, e outra menor e menos grossa, quase colada com a outra, chegava até o meio da coxa, ele olhou para trás.

          “Meu Deus, é um pênis”. O malandro balançou a cobra, pesada que era, e deu uma gargalhada quase infantil.

          Que dilema. Deveria Joãozinho correr do bandido? Joãozinho pensou em correr, mas decidiu por sua vida nas mãos de Jesus, e tapou os olhos. Sentiu um vento forte, e começou a girar, e então... “Ai como dói, meu Deus, pára, pelo amor de Deus, pára, ai que delícia”. O malandro botou a cobra entre as pernas de Joãozinho e depois mandou ver.

          João acordou na manhã seguinte do outro lado da cidade. Disse que correu, mas que o bandido era selvagem, e o perseguira, e o sodomizara contra sua vontade. A descrição era a seguinte: rapaz negro, um metro e oitenta e dois, magro, nu, com apenas a perna esquerda, um pênis imenso e um gorro vermelho.

          Na mesma época, dois anos depois, aconteceu um novo incidente. Dona Juciara, uma senhora de cinqüenta e poucos anos, viúva, tinha saído certa noite de sexta-feira treze para fazer uma simpatia para que seu filho engravidasse sua esposa, depois de quinze anos de casamento. Vivia no bairro, na época chamado de Jardim do Éden. Juciara estava na encruzilhada, deixando a cachaça e fazendo a mandinga quando o rapaz negro apareceu.

          Foi para o seu pênis que ela olhou: “Eita nóis...”.

          - suncê é o capeta?

          Ele riu, segurou a bengala com uma mão e bateu com ela na outra mão. A senhora ouviu o tapa pesado daquilo.

          “Creindeuspai”... E saiu correndo. Ele ficava aparecendo, por todo lado, perseguindo ela, rindo, balançando a caceta. E ela com medo, ele às gargalhadas.

          Então ele apareceu bem na frente dela, em um redemoinho, e ela começou a girar, e a saia voava, e ele puxou sua calcinha de ladinho e, girando, voando, mandou ver.

          Dona Juciara acordou no banco de uma praça, no Jardim do Éden, exausta e cheia de assaduras. Pobre da mulher. Voltou para sua casa mancando. Foi na polícia, e depois de virar piada, mudou de cidade, onde nasceu seu outro filho, um menino pretinho, com uma perna só e, mesmo bebê, uma bengalona imensa.

          Ela o levou para o mato, e imediatamente um redemoinho de areia e folhas secas o levou embora. A mulher se benzeu e nunca falou sobre isso pra ninguém.

          Com o tempo, a freqüência dos ataques foi cada vez maior, e, ao passo que pessoas em noites de sexta feira treze andavam pelas ruas temerosas, havia também os curiosos, turistas e carentes que andavam por aí a espera do ser mítico.

          Após muitos casos, Jardim do Éden mudou para Calça do Saci. Região muito popular da cidade, com suvenires artesanais dos mais curiosos.

          Na década de setenta, o Saci apareceu apenas uma vez. Foi em setenta e dois, numa sexta-feira treze qualquer. Faria dois anos que não se ouvia falar em incidentes(se bem que a verdade é que muita gente transava com o Saci e não contava nada pra ninguém), e Malva fora vitimada.

          Malva era jovem, adolescente. Tinha saído para namorar com o jovem Claudionor, que negou fogo sob o argumento de que casaria virgem. A menina voltava para casa, quando ouviu som de palmadas. Olhou para o lado e viu ele ali, batendo com a estrovenga numa das mãos.

          Ah, ela não perdeu tempo, agarrou o negrinho, e ele começou a girar, e brincaram. E o Saci comeu a menina, na frente e no verso, e tentou deixa-la, mas ela não cansava. Ela não o largava. Ele ficou desesperado. Ela não parava, queria sempre mais. Ele começou a gritar, girava, tentava jogar a garota longe, mas ela ficava agarrada no pinto dele.
          O Saci deu um soco na garota e saiu correndo. Foi para bem longe de Itaxoxota. E por quase dez anos permaneceu desaparecido. Ninguém nunca soube porque.

A incontestável fé de Dona Creuza

quarta-feira, 4 de abril de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida pela religiosidade de seus cidadãos. Dona Creuza, beata, carola, líder da Liga das Senhoras Distintíssimas de Itaxoxota era uma senhora de 70 anos, com muita fé, paz de espírito, amor no coração, e assassinatos em seu passado.

          Creuza era viúva. Creuza não tinha filhos. Creuza era mulher direita. Creuza tinha sido uma criança feliz.

          Lá no sertão do Ceará, lá longe, tinha nascido aquela menina. Bonitinha, meiga, cabeça grande. Era Creuza. Creuza queria ler e escrever. Seus pais não queriam que Creuza fosse uma sertaneja sofrida como eles, que assinavam com o polegar. Queriam que Creuza fosse médica, “adevogada”, professora, alguma dessas profissões que dão dinheiro.

          Aos  nove anos, certa vez, Creuza estava na cidade com maínha mais paínho, quando surgiu por todos os lados um bando de cangaceiros violentos.

          - Miniiiiina! – gritou maínha, quando viu a filha correr ao som dos primeiros tiros. Creuza vira um menino, talvez mais novo que ela, cair no chão com um tiro na testa e se escondeu.

          Ouviu tiros, tiros e mais tiros. Não acabavam mais. Gritos agudos, gritos graves. Gemidos, gargalhadas. Súplicas. Para ela, fora setenta horas ou mais, mas para aquela vila, não foi mais do que três horas até que todos estivessem mortos e todas as casas e comércios fossem saqueados. 

          Creuza depois de tudo saiu de seu esconderijo, semi enterrada sob um assoalho da igreja, entre a terra e a madeira. Andava entre mortos de todas as idades. Tomaram água, e derrubaram na terra seca também. Beberam vinho e água ardente, levaram o que podiam, e boa parte do que não consumiram fora desperdiçada em vandalismo. 

          Creuza ficou três semanas naquela vila fantasma, uma criança louca no meio de corpos que apodreciam, sentindo fome e cede, até que encontrou um jovem, que chegara cavalgando um jegue, e que após inspecionar tudo, a encontrou naquele mesmo esconderijo. Arisca e temerosa.

         Era um menino do Pernambuco. De 14 anos, armado até os dentes. Tião Carcará é como ele viria a ser conhecido anos mais tarde. Naquela época em que ele encontrou Creuza, uma cearensezinha delicada, suja e triste, ele era apenas Bastião.

          Bastião levou a menina consigo, e por anos estiveram juntos. Ele deu o primeiro carinho que o rosto dela recebeu, o primeiro selinho, e o primeiro beijo de língua. Foi o primeiro menino que segurou a mão dela. Foi a única carne que ela sentiu entre suas pernas, fora o filho que tivera dele, nascido meses depois de seu assasinato. Mas isso vem a seguir.

          Bastião tinha perdido seus pais numa pendenga com o cangaceiro Foice Branca, terror da Bahia em sua época, e cresceu treinando tiros e matando bandidos. Era o herói dos fracos e oprimidos. Fora Foice Branca quem matou seus pais, e fora ele também o responsável pela chacina que vitimara os pais de Creuza.

          Creuza e ele, para combater, começaram a aliar forças com outros jovens que desejavam vingança, mas a verdade é que, pouco a pouco, começaram a perder-se de sua verdadeira missão e, após matar Foice Branca, assumiram seu reino de horror no nordeste, e ele fora assassinado por uma jovem rapariga que tivera os pais mortos pelas mãos dele.

          Sim, meus caros, falamos de Dona Satanilda. Dona Creuza está em Itaxoxota porque desejara vingar-se, e Satanilda, mulher empreendedora que é, foca-se no trabalho, e não tem idéia do que é armado contra ela. Seu Inácio, dono da barraca de côco da praça principal conhece a história, e o padre, no confessionário disse que ela e seu finado esposo perderam-se pela cobiça, e ele atraiu para si o destino de seu algoz, e ela jamais descansaria se isso fosse consumado. 

          Isso a atormentava. Ela largou o filho nas mãos de outra cangaceira sobrevivente, que refugiara-se no sudeste. Nunca mais teve notícias dele.

          Ela não sabia se Satanilda tinha ou não feito pacto com o diabo, mas sabia que uma coisa não era uma lenda: Marinilda de Souza Cavalcante Mendonça de Silva e Carvalho matara um a um do bando de Tião Carcará. Foram quarenta e oito mortos. Não quis ser cangaceira nem ser assassina. Consumou a vingança que prometera a si mesma e seguiu sua vida. 

          Creuza por sua vez vivia num dilema. Tornara-se uma assassina apenas por ser necessário para estar ao lado do amor de sua vida. O que era apenas um desejo de vingança por uma criança ferida por uma atrocidade, tornara-se uma mera trivialidade.

          Na religião ela encontrou ética e rigor. Na sua fé ela encontrou regras a serem seguidas e obedecidas. Uma opinião sobre certo e errado além do que sua vida, regada de sangue, havia lhe mostrado. Tinha um passado obscuro, tinha desejos tenebrosos, mas sua fé definitivamente, não era falsa. 

Dona Beuba e sua extraordinariamente irrelevante vida

quarta-feira, 28 de março de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por seus munícipes excêntricos. Dona Beuba era uma mulher famosa. Não havia em Itaxoxota quem não a vira com os peitos pra fora da roupa. Não por ser uma mulher da vida, mas por ser cachaceira mesmo.





       Dona Beuba chamava-se Izildinha de Gonzaga Herculana Conceição Imaculada de Jesus. Chamavam-na de Beuba porque certa vez estava beijando um poste de luz apaixonadamente, “Óli lá! Izildinha ta beuba” gritou alguém. O policial recém chegado em Itaxoxota se aproximou “Dona Beuba, têinha modo sinão vai prêsa”.

          - Eu to beuba, i a sinhora tua mãe ta...

          Bastou. Foi levada presa. Apareceu no noticiário local, ficou famosa na internet. O bordão, repetido pelo povo de São Paulo e do Rio de Janeiro era: “Si to beuba, num sei. Sei qui to feliz! Rá-rá-rá” Olhou pra câmera com olhar obsceno, e é imitada até hoje no sudeste pelo que chamam de “bichas pão-com-ovo”.

          Dona Beuba tinha 33 anos. Era meio barriguda. Tinha dinheiro pra cachaça porque era aposentada por invalidez. A mão esquerda dela fora decepada numa maquina fazer caldo de cana. Foi trágico, mas depois ela até gostou da idéia.

         Com um cotoco, não precisava mais pegar filas, e como era canhota, nunca mais precisou escrever. O que era um alivio pra quem precisasse ler o que Izildinha fosse escrever. Um chimpanzé tinha mais coordenação motora que ela.

          Beuba tinha um sonho. Ver sua filha, Cleonice casada com um bom homem. Se orgulhava muito de sua filha, virgem, e sabia de seus sonhos inocentes com o príncipe encantado. Seu sonho era casar Créu com Helinho, filho de um fazendeiro da região. Créu era bonitinha e meiga. Tinha suas chances.
      
          Beuba não sabia quem era o pai de Créu.

          Beuba, alias, não sabia de muita coisa. Afinal, estava sempre “Beuba”, xingando as latas de lixo da rua, que pareciam segui-la, e chamá-la de pinguça.

         A maior decepção de Beuba era saber que Weliston seu filho, se mudara pra São Paulo, e colocara silicone industrial no corpo, para virar mulher. Beuba não gostava de bichas. Pra ela, as bichas eram obra de Satanás, e ela dizia sempre que podia, para sua filha Cleonice, que “Mulé que chupa grêlo vai pro inferno quâno morre”.

          A verdade é que ela na juventude fugira constantemente para Serro Azul com suas amigas e alugavam quartos em hotéis baratos e interagiam libidinosamente. Beuba não se envergonhava, porque achava que ninguém sabia disso, mas era um engano seu.

          Elinete, filha de dona Creuza, antes de morrer de dengue confessou a sua mãe e ao padre que ela e Izildinha foram namoradas, e que Izildinha era o homem da relação.

          Dona Creuza sempre quis ver Beuba morta, por ter levado sua pobre filha para os caminhos perversos do belzebu-monstro, e feito ela virar um sapatão. Elinete era uma dondoca, e a verdade é que ela havia namorado todas as sapatonas de toda aquela região da Bahia.

          Outrossim, era por isso que Beuba condenava a sapanotagem. Sua antiga namorada a traíra com mulheres muito melhores que ela. Ficou beuba, como qualquer beubo que se vê por aí, pela chifredão da vida...

[QUEM GOSTOU, E PUDER RECOMENDAR O BLOG, E COMENTAR, VAI ME DEIXAR BEM FELIZ. ASSIM EU POSSO INTERAGIR E SABER DAR UM FOCO MELHOR NAS PRÓXIMAS HISTÓRIAS]

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Os retalhos da controversa história de Jennifer Christinny

quarta-feira, 21 de março de 2012

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Neste episódio da série sobre Itaxoxota do Norte eu não quis usar xilogravura porque o personagem em questão tem poder! riqueza! e glamour!




         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por sua diversidade. Um de seus filhos mais importantes era o menino Joelson, que na vida adulta seria mundialmente conhecido como Jennifer Christinny.

          Joelson era uma bichinha que crescera na Calça do Saci, bairro da zona oeste de Itaxoxota do Norte. Lá Joelson apanhara de muitos moleques desajeitados. Joelson assistia na televisão aos shows de Sarajane, e sabia que um dia iria brilhar.

          Joelson vestia o sutiã de sua mãe, colocava uma cueca embolada em cada lado, segurava o pote de xampu, passava o batom de maínha na boca, nas bochechas e nos olhos, ligava o k7 e “Abre a rodinha por favor, abre a rodinha meu amor”.  Certa vez quatro garotos da escola quebraram a janela, e o flagraram. Atiraram ovos e depois tiraram fotos.

          Joelson, pobre menino, não quis mais ir para a escola. Acabou não indo mesmo. Fugiu pra Salvador, aonde se juntou com uma gangue de crianças malandras. Os meninos foram dar uma surra nele, sem saber que Joelson era um capoeirista desde os 4 anos, e aos doze, com raiva dos meninos que lhe atiraram ovos e chamavam de baitola, ficou macho. Não macho de macho, macho de bravo.

          Joelson sentia tanta raiva, que batia em todo mundo. Certa fez foi assaltar, e havia uma negra importada de algum país da Europa, e estava com uma amiga brasileira. Ele ouviu o nome da negra. Jennifer. Ela era tão bonita que ele não quis roubar. Roubou o nome. Joelson agora era Jennifer. Deixou crescer os cabelos, começou a roubar hormônio na farmácia.

          Nasceram peitinhos. Jennifer roubava agora apenas roupas, maquiagem, comida e hormônios. Ainda ouvia Sarajane, Daniela Mercury e Madonna. Aos 16 ela ficou loira e começou a cantar Axé.

          Macumbeira como era, Jennifer apelou aos orixás pra dar certo, e fez um hit de sucesso, segundo contam, escrito por sua cigana, que ganhou o país, depois fez duetos com Daniela Mercury, cantou com a Xuxa, participou de um especial do Roberto Carlos, gravou ao lado de Fábio Junior(com quem dizem ter tido um romance secreto) e ajudou a alavancar a carreira de Ivete Sangalo com o hit “Tiri-dam-tam-tam”(tiri-dam tam-tam, tiri-dam, tam-tam, córáção acéléra por vócê), composição sua. Jennifer Christinny gravou recentemente o single “Breathless love/Esse amorzinho gostoso da gente“ ao lado da cantora estadunidense Beyoncé.

          Uma grande polemica envolveu seu nome quando certa vez, foi parar em uma delegacia. Segundo contam os rumores, o cantor Léo Santana, seu suposto ex-namorado, numa brincadeira supostamente inocente a chamou de Joelson e teve seu braço esquerdo quebrado pela cantora.  

          Jennifer havia conversado com o presidente Lula, certa vez, num churrasco na Granja do Torto, onde teria perguntado como poderia fazer para comprar a cidade de Itaxoxota do Norte. Seu maior sonho era poder chamar a cidade de sua, e incendiá-la com todo mundo dentro.

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A imagem é meramente ilustrativa. Trata-se de uma fotografia do cantor inglês Robbie Williams para seu videoclipe "She is Madonna".

As desventuras de Seu Lili e seus filhos na conflictuosa cidade de Itaxoxota no Norte

quinta-feira, 15 de março de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por suas diferenças sociais. Tinha gente rica, tinha gente bonita e bem sucedida, mas tinha quem não conseguisse sair da merda. Seu Lili era um deles, quase um cogumelo, nascido e crescido na bosta. Seus filhos eram todos boçaizinhos também. Desde crianças adoravam tomar Danone na casa dos vizinhos.

          Seu Lili tinha conta pendurada em quase todos os estabelecimentos da cidade. Alias, adorava quando um novo abria, porque em geral, os outros já não o aceitavam mais. Seu Lili não era vagabundo, ele na verdade era preguiçoso. Seu maior sonho era descobrir o marketing de rede perfeito. 

          Seus filhos eram três. Tinha Lisauvandra uma menina feia na infância, mas que viria a mais tarde se casar com um coronel e se mudaria para Salvador, Eliomar, que era um menino feio na infância, e feio nas demais fases também, e Marlene, que era bonita e futuramente largaria Itaxoxota para trabalhar em São Paulo(honestamente, que seja dito!).

          Eliomar adorava contar vantagem. Ele era um menino que na adolescência era o pegador de seu bairro. Jogava bem futebol, e adorava dar tapa na cabeça dos veadinhos da escola. Ninguém sabia, mas a verdade é que ele sempre achara Miguel, o mais gayzinho da turma, uma coisinha linda. Mas batia sempre.

          Pra felicidade de Miguel, Eliomar cresceu e, se na adolescência já não era bonito, aos vinte e poucos, ele ficara mais feio ainda, espinhento, com alguns quilos a mais, e, aos vinte e cinco anos, sem os dentes da frente(macho como era, não abria mão de uma boa briga).

          Certa noite, alcoolizado, lá pelos dezessete, dezoito anos, Eliomar procurou Miguel, que partiria para morar com a mãe no sul do Brasil, lá no Rio de Janeiro, e declarou sua paixão. Miguel o chamou de bicha, mandou tomar no cú, e nunca mais se falaram.

          Eliomar, chorando, foi consolado por Cleonice. Na época ela tinha doze ou treze anos. Aos vinte e oito engravidou Leôa, filha de Ariovaldo. Na época a moça tinha 14 anos, já tinha o corpo todo ajeitadinho e abusava bem disso. Seu pai obrigou Eliomar a casar com sua filha. Mas isso é outra história.

          Lisauvandra era gorda e feia. Isso é tudo o que se precisa saber sobre ela. Metida que só. Adorava passar o dia na casa das amigas, e criava intimidade fácil. A primeira visita já bastava para deixá-la à vontade o bastante para a abrir a geladeira da casa das pessoas ou fuçar armários a procura de bolachas recheadas. 

          Aos treze anos, Lisauvandra ficou loira. Era agora gorda, feia e loira. Todo mundo achava ela feia de doer. Meio porca. Não penteava bem os cabelos e nem sempre escovava os dentes. Mas se achava tão melhor que as outras meninas, que acabou, pela auto-confiança, ficando popular na escola. 

          Lisauvandra sonhava com Helinho, que era o menino mais bonito da escola. Mas ele, apesar de bonito, tinha bom coração. Ela, despeitada, começou a acusá-lo de ser bicha, e ficou com muita inveja quando soube que ele estava apaixonado por Bonitinha, a filha do prefeito.

          Lisauvandra até entrou pra academia pra tentar conquistá-lo, mas sem sucesso. Em contrapartida, na academia ela conheceu Adamastor, e depois que se exercitou nele, nunca mais quis outro. E esnobe como era, adorava enxotá-lo, e ele com o tempo foi ficando apaixonado. O tempo passou e ela continuou gorda, feia, e soberba. Até que arrumou emprego de faxineira na casa de Coronel Ordônio e engravidou do velho. Mudou-se pra Salvador.

          Marlene era uma grande vítima. Perceba que eu próprio me referi aos filhos de Seu Lili como boçaizinhos, pelo injusto hábito da generalização. Era sempre vítima, pobrezinha. Era a chata da família, a rabugenta, a ranzinza e rancorosa, pelo simples fato de que queria ser alguém na vida. Na infância ela estudou, na adolescência ela estudou, e quando moça, mandou seu pai à merda e partiu para São Paulo.  

          Fora guardete em uma agência de banco por dois anos, até que conseguiu virar professora. Mas seu grande objetivo era descobrir o paradeiro de sua mãe. Apesar de seu pai e seus irmãos nutrirem uma forte raiva por sua mãe desaparecida, ela a via como uma mulher determinada e perseverante: ela própria teria abandonado a família. Com tal pai, seria difícil imaginar que os filhos pudessem crescer e virar qualquer coisa além de medíocres.

          Mas voltando a Seu Lili, as pessoas se comoviam com sua dificuldade, até descobrir que as dividas nas mercearias eram por conta de arroz, feijão, carne, farinha, ovo, cerveja, cachaça, rapadura, bolacha recheada, leite condensado, refrigerante, sorvete, têta-de-nêga, pé-de-moleque, e outras coisas que dá pra viver sem.

          E nunca mudaria? Depois de se decepcionar com tantos marketings de rede, decidiu abrir uma igreja na cidade, pra concorrer com a paróquia de São Jesus Cristinho. Prosperou, mas isso, ah, isso é outra história.

A Fascinante Jornada de Dona Satanilda

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

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ATENÇÃO: ESTE CONTO TEM LINGUAGEM E HUMOR APELATIVOS E PODE OFENDER UM LEITOR DESAVISADO. DADO O RECADO, BOA LEITURA!

         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por suas opções de lazer. A mais famosa era, evidentemente, a casa noturna Dona Quixota.

         Administrada por Dona Satanilda, Dona Quixota propunha-se a oferecer as baianas mais quentes de todo o Brasil. O que evidentemente era um choque para o povo da cidadezinha. De fato, as únicas baianas bonitas da cidade eram as meretrizes de Dona Satanilda. Negras de traseiros imensos e coxas roliças, outras mais claras, peitudas e estonteantes.

         Dona Satanilda não era puta... Mas podia ser. Tinha cor de café com leite, e desfilava seus peitos grandes, já um pouco moles, mas não menos cobiçados por isso, e suas coxas... Que coxas... Que mulher de quase cinqüenta tem pernas como as de Dona Satanilda?

          “Muié boua..., delícia... Descascava e chupava todinha...” diziam os cabras itaxoxotenses.

          “Vagabunda, ordiária, desavergonhada, despudorada, vendida, demoníaca”, diziam as distintas senhoras de Itaxoxota.

         Ela não era bem aceita, e as mulheres, grandes religiosas, sofreram muito ao dotar-se do conhecimento de que a casa noturna Dona Quixota dizimava a maior contribuição mensal para a paróquia de São Jesus Cristinho.

          “Como o senhor aceita dinheiro da filha do diabo?”, era o que o Padre ouvia, das paroquianas.

         O Padre tinha suas crenças, mas a igreja tinha suas necessidades, então ele fazia vista grossa para os rumores...

         Quando jovem, a família de Satanilda fora vitima de cangaceiros. Ela fez pacto com o diabo, e matou todos os cangaceiros. Desapareceu, voltou, e trouxe consigo algumas vadias estradeiras.

         Organizada como era, ela administrava o que as vadias recebiam, e em menos de três meses elas deixaram de transar embaixo de arvores ou bancos de praça para alugar uma casa pequena.

         Empreendedora, essa é Marinilda de Souza Cavalcante Mendonça de Silva e Carvalho, posteriormente chamada de Satanilda.

         E as putas eram oito. Seis morreram, porque eram encrenqueiras e tomaram tiro de mulher casada, outra virou crente e desapareceu. A outra, era Marivalda Ivonete de Santos, que virou sócia de Satanilda, e adotou o nome de Dona Consugrelo, cuida do Recanto do Marido Feliz, centro de lazer que possui em sociedade com Satanilda na cidade de Serro Azul.

         Aos poucos conseguiram putas que não fossem feias, e progrediram.

          “Nem as praia de Salvadô é mais paraíso que as minhas menina!”


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