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O MENINO QUE NÃO PODIA MORRER - O Caso de Luciana Reis

domingo, 11 de janeiro de 2015

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Dia 8 de janeiro fez 3 anos que publiquei o primeiro capítulo de O Menino que não podia morrer. Para celebrar, vou publicar uma das histórias do prólogo do livro, ainda em fase de revisão. Espero que gostem.

O CASO DE LUCIANA REIS


2007, PORTO ALEGRE. 

O lilás do início da manhã refletia-se no rosto pálido de Luciana, anunciando que a madrugada já chegava ao fim. Enquanto ela andava por aquela estrada de terra cercada por uma mata selvagem. Olhou no céu à procura daquela visão suprema: as estrelas da noite, com a lua e a luz do sol que começava a rabiscar no céu os teus raios.

Andando, sem ter alguma razão em especial para isto, Luciana se deteve ao perceber que as folhas das árvores, todas elas, estavam orvalhadas com sangue. Percebeu-se observada por uma criatura de quase três metros de altura, que se aproximava. Corpulenta, fedida e vinda das sombras das árvores. Tropeçou, assustada.

“... a esquecer seu rosto de vez. E acho que é tão normal”. 

Tocava Kid Abelha em seu despertador. Seis horas. “Que sonho estranho”, pensou ela, enquanto se levantava a caminho do banheiro.

Luciana tinha estudado enfermagem em sua cidade natal, Passo Fundo, e ia começar agora um emprego como enfermeira em um asilo em Porto Alegre e agora estava em um ônibus a caminho de seu novo trabalho.

Luciana era uma moça comum, sem grandes ambições. Nunca sonhara fazer parte de qualquer coisa de importância. Apenas vivia, buscava estabilidade, para um dia se aposentar, e esperar a morte chegar. Quando criança, sonhava ser médica, ser Mulher-Maravilha, mas cresceu uma pessoa comum, que sequer era capaz de lembrar da própria infância.

Lá no trabalho, procurou Ricardo, que seria seu superior. Ricardo era um rapaz não tão bonito, embora houvesse algo de impulsivo em seu jeito entusiasmado de falar que deixava Luciana tímida toda vez que lhe dirigia a palavra.

- Venha. Hoje tu vai apenas me acompanhar. Amanhã tu acompanha Marina, e depois já te passo o que fazer, porque ela já terá saído na licença dela. – dizia ele enquanto andavam pelo corredor. Luciana torcia para que ele não reparasse que ela tinha um dente a mais na boca. Ela não gostava de sorrir, embora desejasse que ele a notasse.

- E por onde vamos começar, Ricardo?

- Pode me chamar de Rick. 

- Por onde começaremos, Rick? – perguntou, desconfortável pela intimidade.

- Pelo homem mais velho do mundo! – brincou ele, enquanto passavam por um corredor com muitos quartos. Luciana reparava a tinta fresca nas paredes, os móveis que se pareciam novos, e a decoração, por sinal, tinha certa sofisticação. – Você conhecerá o Sêu Luís.

- Quantos anos tem o Sêu Luís? – perguntou Luciana, a enfermeira novata.

- Todos! – riu Ricardo. – Ele é uma pessoa agradável, mas estranho. Ninguém sabe a idade dele. Alias, não fale nenhuma bobagem. 

Abriu a porta. Um homem bem velho estava sentado na cama, com um caderno, rabiscando algo.

- Bom dia, Sêu Luís. O senhor dormiu bem?

- Sim, dormi como um uma criança, Ricardo. 

- Esta aqui é Luciana. Ela vai ficar no lugar da Marina enquanto ela sai de licença maternidade.

- Seja bem vinda, querida. – disse o velho. Ele tinha uma voz gentil, e um ritmo cansado no jeito de falar.

- Obrigado, Senhor Luís. – disse ela, tímida.

A enfermeira se aproximou, curiosa e reparou. O velho era enrugado, mas tinha a pele lisa, parecia emborrachada, como um corpo embalsamado. Havia algo estranho, e ele olhou nos olhos dela. Seus olhos eram cinza, tomados por catarata, mas mesmo assim, ele os olhava nos olhos. A menina sentiu um calafrio. O velho sorriu.

- Um homem velho como eu se sente acanhado por ser observado por uma moça tão bonita.

- Luciana é novinha, tem 19 anos. – disse o enfermeiro. - Não tem muita cortesia. Mas tem boa vontade.

- Desculpe-me, senhor. – ela disse acanhada.

- Não se desculpe, querida. Algumas pessoas idosas ficam especialmente feias com o passar dos anos. – disse Sêu Luís, dando um sorriso que mais assustava do que descontraía.

Luciana se aproximou para tirar a pressão dele. Então ela viu uma coisa que a deixou surpresa. No pequeno caderno em que o paciente usava para rabiscar idéias, estavam escritos ideogramas japoneses, com desenhos estranhos. O velho, percebendo que a moça olhava para seu caderno, fechou-o.

- O senhor que escreveu isso? – perguntou ela.

Ricardo olhou-a com censura.

- Sim. Acordei inspirado. – e então abriu o caderno e contemplou os rabiscos incompreensíveis e os acariciou com a ponta dos dedos. - Um poema, escrito em um estilo japonês ao qual não me lembro o nome, sobre um menino que não podia morrer.

Ela parou de olhar para o estetoscópio que usava para ouvir as pulsações do velho.

- Não podia morrer porque era imortal? Ou não podia morrer porque alguém precisava dele vivo? – perguntou Luciana, deixando a timidez de lado.

- Ainda não terminei de escrever. Mas pode ser uma coisa, ou outra. Ou até mesmo as duas. 

O homem tinha pele morena, e entre os cabelos grisalhos, alguns fios negros sobreviventes do tempo. Ele não parecia de maneira alguma ter traços orientais que justificassem saber ler e escrever japonês. Certamente era um homem intelectual. Porque estava ali? Algo a fez imediatamente se desapegar da estranheza da aparência dele e se perguntar porque ele estaria ali. Pessoas inteligentes assim costumam ficar ricas. Luciana anotou a pressão dele, e saíram.

Assim que fecharam a porta, Ricardo se aproximou dela.

- Luciana, ele mesmo paga sua estadia, e ele não tem documentos. Ele fala várias línguas. Uns suspeitam que tenha sido nazista, outros que seja alguém com outros tipos de segredo. O fato é que ele é uma pessoa de quem nada se sabe. Então não faça perguntas. Não é gentil.

Uma semana depois, Luciana já estava feliz trabalhando no asilo, sentindo-se em casa. E aquela timidez que sentia por conversar com Ricardo desapareceu. Na verdade, ela passou a ser indiferente ao rapaz. Ela ficava ansiosa pelas pequenas oportunidades que surgiam para que pudesse conversar com o velho Luís. Não que ele parecera menos estranho, mas aquela estranheza de sua aparência talvez pudesse ser justamente um artifício moral, pensava ela. Pois numa primeira impressão tinha uma visão sinistra, mas com a convivência, descobria um ser humano com assuntos inacabáveis. 

Ricardo sentia ciúmes.

Luís Mondego Valência, era como apresentava-se em seus registros.

- Mondego é espanhol, não é – perguntou Luciana.

- Sim, Luciana. Eu nasci na Espanha, não sei ao certo quando nem onde. Porque meus pais se mudaram pra Lisboa, e ali vivemos até que os dois morressem. – e pareceu surpreso consigo mesmo. - Antes que eu completasse 10 anos. 

- Puxa vida. Eu perdi meu pai quando tinha 12 anos. Minha mãe morreu ano passado. Foi tão difícil. Mal posso imaginar em como deve ter sofrido. Tão novo. Morreram de quê?

- Foi no terremoto. Nunca encontrei o corpo deles. Todo mundo perdeu alguém aquele dia. – e calou-se. Seu olhar passou pelo piso, e subiu pelas paredes até parar na janela aberta. – Cresci criado em um mosteiro, até que vim para o Brasil, já adulto.

- Por isso o senhor gosta tanto de falar sobre religião? – ela perguntou, curiosa.

- É possível, minha querida. Na solidão da orfandade, encontrei paz na religião. Entre monges e padres. Foi bom. Cresci rodeado por pessoas afetuosas e sábias. Estimulado a entender a minha existência.

- E hoje o senhor é uma pessoa que vive bem, tem uma velhice tranquila e honesta. – disse ela, como uma neta orgulhosa de seu avô.

Ele a encarou com aqueles olhos que pareciam cegos.

- Nem tudo é o que parece, minha filha. Toda busca é justa, e algumas perguntas tem respostas que nos custam muito caro.

- Do que o senhor está falando?

- Ah, minha querida, da incessante busca do homem por entender a si mesmo. Eu gostaria de ter sido mais moderado, sabe? – e sorriu, aquele sorriso que antes parecia medonho e agora trazia a pureza daquele homem. – Descobrir, e me dar tempo de digerir cada novidade, com menos ansiedade. Hoje sou isto que sou, e estou exausto.

E segurou na mão dela. As mãos dele eram sempre frias.

- Não quero mais conversar. Pensei em coisas que havia esquecido, e não me lembrava de como me sentia grato por tê-las esquecido.

- Desculpe, Senhor Luís. Não quis magoá-lo.

Novamente um sorriso.

“Eu sei”.

Ela saiu, e fechou a porta do quarto dele. Ricardo a esperava lá fora. Parecia ansioso em dar-lhe uma notícia. Marina, a enfermeira contratada, retornaria no dia seguinte, e ela estava dispensada do trabalho. 

Foi só quando chegou em casa que, por curiosidade, decidiu procurar na internet o que havia de histórias sobre terremotos em Portugal, e soube que o mais recente havia acontecido em 1969. Isso significaria que o senhor Luís deveria ter menos de cinquenta anos. Ela riu.

“Ninguém pode ser tão acabado assim.”

Ainda no assunto, descobriu outros “sismos” em solo português onde teriam morrido, nove, quarenta pessoas. Nenhum número que justificasse o “todo mundo perdeu alguém aquele dia”. Até que viu números nos terremotos de ocorridos em 1755 e 1531...

Abriu a calculadora do Windows, e fez suas contas. Permaneceu inexpressiva, calada, confusa. Ergueu sua sobrancelha esquerda.

“Não, ninguém pode ser tão velho.”

O Menino que não podia morrer... Capítulo 33

terça-feira, 21 de agosto de 2012

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recomendo a leitura dos capítulos anteriores
POR FAVOR, DEIXE UM COMENTÁRIO COM SUA REAÇÃO, EXPECTATIVA, ET CETERA APÓS A LEITURA DESTE CAPÍTULO FINAL. É IMPORTANTE PARA MIM.
BOA LEITURA

          Dona Lira olhara para o padre que caíra no chão numa morte rápida, com pouca agonia. O menino que Gilmar trouxera brilhava quando viram num instante, todavia, a luz se desprendia dele como partículas de poeira e apagava-se lentamente. Gilmar vira tudo da janela. Viera numa corrida intensa e de um salto estava dentro do quarto.

          - Tu não brincavas quando disse que o garoto viera do céu, ao que parece. – murmurou a velha. - Mas agora isto faz pouca diferença.

          - Faz sim! – retrucou dona Lira. – O casulo não deu certo. O Antigo não vai virar um só espírito com Laio para renascer homem após a morte. Fracassamos.

          Tia Rute olhara para a sobrinha de forma indecifrável. Não conseguiu entender se aquilo era um lamento, um deboche, ou uma afirmação indiferente.

          - Não vão mais fazer isto. – Gilmar disse, olhando para o menino, que estava aparentemente morto. – Acabou. Eu já sei de tudo, e as crianças foram embora.

          A velha olhou para ele pacientemente, caminhou até o padre, abaixou-se em gemidos de cansaço, e arrancou a faca das costas do homem.

          - Quem é você? Você é uma raspa insignificante de algo grande que planejamos. Só está vivo porque fora violado pela garota. Está vivo pela compaixão desta idiota – e direcionou-se a Dona Lira – e porque de fato, precisávamos da força de um homem. Mas não precisamos mais.

          Laio, que estava sentado, olhou para Gilmar, com as pupilas dilatadas, dois olhos negros intensos que miravam-lhe sinistramente. Ergueu os braços, e os telhados voaram pelo céu negro, e a luz da lua encheu o ambiente. Gilmar fora erguido do chão, e lançado contra a parede que estava a menos de meio metro dele. Afastava-se vinte centímetros e batia-se novamente, e outra vez. E outra.

          Gilmar tivera o vislumbre de algo terrível. O menino que ele havia encontrado, vindo dos céus, queimava num fogo vermelho sangue, e gritava. Era um grito agudo e desesperado, um grito de tortura. Essa mesma dor ele próprio sentia. Aquela coisa que interagia com a criança queimava-lhe de dentro para fora, e as pancadas a curta distancia eram com uma força insuportável. Sentia que comprometia seus ossos, órgãos. Era insuportável.

          Tia Rute tinha um sorriso tranqüilo, não havia soberba ou maldade, mas um contentamento, como se tudo tivesse voltado ao curso correto. Dona Lira olhava nos olhos de Gilmar. O que ela poderia fazer para protegê-lo? Ela era uma mulher frágil, adoecida. Gilmar era espancado contra a parede e reconhecia a compaixão nos olhos dela. Ela sentiu isso, e quis chorar. Agarrou tia Rute, tomou à força sua faca, e golpeou Laio pelas costas.

          Gilmar caiu no chão, e dona Lira fora lançada contra outra parede, com muito mais força que os golpes dados contra Gilmar. Ambos cuspiram bastante sangue.

          O rapaz ergueu a cabeça, e olhou para Mikail, morto, e sentira-o queimar, e olhou para os olhos de tia Rute, furiosa, que aproximava-se de dona Lira com ódio na respiração ofegante. Laio, por sua vez, tinha no corpo as conseqüências do golpe, mas mantinha-se em pé. Aproximou-se de Gilmar com um olhar superior. Olhava para o homem derrotado, esparramado no chão, semi ajoelhado, sua respiração era ofegante, asmática. Seu corpo todo estava dolorido.

          O rapaz olhou para a lua cheia no céu limpo acima deles, da lua, para seu braço. Desenrolou o pano e o braço subitamente iluminou a todos com aquela luz pálida. Laio dera um passo para traz e tropeçou. Gilmar agarrara-o pelo pescoço e apertou com toda a força que lhe restava.

          Tia Rute voara em sua direção com a faca e o golpeara, mas atingira o braço de Gilmar e não lhe causara nenhum grande efeito. Ele a empurrou. Ela gritou furiosa e ferida.

          Gilmar, ainda agarrado ao pescoço de Laio, percebera uma lágrima escorrer do olho direito do menino. Ouviu em sua cabeça sua voz, que lhe implorava. “Mate-me”. Uma força estrondosa lhe tomara e ele estourou o pescoço da criança. Soltou, e o corpo caiu mole, como se a cabeça e o tronco fossem meramente ligados por pele e um pouco de carne.

          O rapaz agora se sentara para contemplar a imagem da desgraça. As mãos com sangue, doloridas. Mas a velha ria. Tia Rute olhava para ele com olhar de indiferença.

          “Você não sabe com quem se meteu, rapaz.” E olhou para dona Lira.

          - Chega... – gemeu Lira baixo.

          - Quase pôs tudo a perder... – disse a tia à Lira. – Quase. Teremos que recomeçar. Ele vai te perdoar, mas terá que provar que é fiel e devota.

          - Porque fazem isso? – Gilmar perguntou, frustrado – e em troca de quê isto tudo? Vocês são velhas, pobres...

          A velha ficou muda, olhando para ele, pela primeira vez ela não soube o que dizer.

          - Ele enriqueceu meu pai, meu irmão, salvou minha cunhada...

          - São velhas e pobres...

          - Cale-se. – disse tia Rute. Mas havia uma força estranha em sua voz.

          Dona Lira tossia, e olhava para ela.

          - Não entende, minha tia? Apenas virou uma rotina. Nem a senhora acredita no que diz.

          - Cale-se. Traidora... – e seguiu resmungando, inconsciente, numa língua estranha.

          Dona Lira olhara de forma estranha. De repente fora tomada por terror.

          - Você fala a língua d’Ele?

          O sorriso da velha se contorceu numa expressão medonha e dona Lira começara a tremer o corpo inteiro e a se sentir sufocada. Era a velha que fazia aquilo. A velha deu passos lentos e debilitados. Gilmar estava cansado, já parecia ter desistido. Dona Lira tossia, engasgava, e estava com a cabeça vermelha, sufocada, desesperada. Mas algo aconteceu.

          Mikail estava em pé. Olhava para a velha.

          “Homem não lhe pertence!” ele disse numa língua estranha. A velha bufou feito um gato furioso ou ameaçado e deu um passo para trás.

          “O homem não lhe pertence”.

          A velha encolheu os ombros. Do corpo da criança desprendia uma luz branca sinistra, e esta luz a perturbava. Seus olhos começaram a lacrimejar, arder. Ficaram vermelhos, quase como se estivessem prestes a sangrar, e o brilho do ódio e medo. Ela continuava a lhe mostrar os dentes como uma criatura selvagem acuada, rosnando, bufando.

         “Deixe-a, parta”.

           Ouviu-se um grito que não era da velha, mas do que quer que a havia dominado. Seus ombros encolheram-se, quebraram para dentro, assim como os braços, e os ossos, e todo o corpo que se quebrava e encolhia-se para um núcleo magnético que não se via. Seus olhos de agonia sumiram, esmagados entre os pedaços do crânio que parecia implodir-se num último instante.

         Uma sombra imensa ergueu-se sobre aquele amontoado de tecido e sangue, e emitiu um último rosnado. Mikail batera o pé direito no chão uma vez, e a sombra desapareceu, como uma fumaça de incenso.

          Um silêncio consolador os abateu. Mikail partira. A lua e as estrelas os iluminava. Gilmar estava bem. Sujo com seu próprio sangue, mas sem ferimentos. Olhou para o céu. Olhou para a cruz de estrelas e para uma estrela à leste, de onde viera o menino. Gilmar levantou-se e foi até dona Lira. Segurou-a nos braços. Ela ficou em silêncio olhando nos olhos dele.

          - Eu nunca soube como mudar isto, meu filho. Me perdoe por não ter tentado.

          - Hortência e eu cuidaremos dos outros.

          - Me perdoe.

          Ele sorriu. Aquele sorriso com duas covinhas. O coração dela bateu mais forte, e ela própria não pode conter o sorriso.

          - Perdoar de que? Vamos? Eu a levarei nos braços.

          - Não. Fique aqui mais um pouco.  – disse ela, mirando aqueles olhos claros que brilhavam. Os dentes daquele sorriso. Sentia o cheiro dele. Sentia-se em casa. – Não vai demorar para que eu parta, e quero estar bem aqui, - e respirou profundamente - olhando para você.

          - Nunca me contou como vim parar aqui.

          A senhora sorriu.

          - Acreditaria se eu dissesse que veio do céu?

          Derramou uma lágrima por seu rosto. Gilmar a enxugou, e então sua cabeça pesou completamente, e seus olhos eram fixos em uma direção qualquer. Ele os fechou. Beijou-a no rosto e a manteve por alguns instantes com o rosto em seu peito.

          Ergueu-a nos braços e a levou até o quarto em que as crianças dormiam. Deitou-a numa cama e a cobriu com um lençol branco. Voltou para a enfermaria e aproximou-se do padre. Pobre do padre, que os quis proteger, e não teve sucesso, pensou Gilmar. Mas apesar de tudo, o padre partira, e não haveria mais pergunta sem resposta. Não fora em vão. Mas isto somente o próprio padre haveria de saber. Gilmar o levou para o outro quarto, limpo, e fez com ele como fizera com dona Lira.

          Laio era um inocente, como ele próprio. Gilmar dera um beijo na testa da criança. Colocou-o na cama, no outro quarto, próximo à dona Lira e o Padre. Fez uma oração simples.

          Não tinha idéia do que pensariam as pessoas que vissem aquele lugar, mas sabia que deveria desaparecer, levando consigo Hortência e as outras crianças. Pegou alguns objetos de valor que havia na casa, jóias antigas, simples, mas com ouro e uma ou outra pedra das velhas, economias, e pôs numa bolsa. Por último, pegou um cobertor para cobrir os restos mortais de tia Rute.

          Sob a luz da lua, Gilmar saiu do orfanato, pela primeira vez, para sempre.   

                                                                                                                        Fim.


O Menino que não podia morrer... Capítulo 32

sábado, 11 de agosto de 2012

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          Havia no chão o corpo de Mikail, desacordado, embora estivesse o espírito absolutamente consciente do que acontecia. Perto dele, em passos lentos e temerosos, aproximava-se Gilmar. Soube ele, Mikail, que aquele era o pobre homem que havia tornado-se aquela criatura irrecuperável. Naquele momento soube que tivera êxito. Voltara no tempo para descobrir o que havia acontecido.

          Gilmar o levara para a casa. Ali ele percebeu que tirando a mais velha, todos eram crianças confusas. Mesmo a senhora mais jovem. As crianças eram crianças, e não mais do que isso. Mas quando fora levado para a enfermaria, ali encontrou algo curioso.

          Por mais que parecesse um mortal desacordado, Mikail era um antigo, e já a muito não dependia de matéria sólida, e não contava com os sentidos como visão, audição, tato, para enxergar. Na realidade, imaterial que era, suas faculdades eram outras. Percebia a todo o ambiente ao seu redor, tanto o que olhos de carne viam, como aquilo que estava além de seu processamento. E havia uma criança que flutuava numa nuvem em tom lilás escuro.

          Inicialmente, aquilo parecia algo meramente trivial. Como uma capa posta pelo que chamam de anjo da guarda para proteger um enfermo. Mas aquilo era um véu que o separava de algo terrível.
          A moça jovem inocentemente arrastara a cama onde jazia a criança adormecida, e então Mikail, invisível, percebeu uma criatura grande que surgira atrás dela. Aquela criatura era fruto das primeiras explosões do universo. Antiga. Presente neste mundo, sabia ele, há centenas de milhares de anos interferindo, inclusive, nas evoluções físicas e etéreas de muitas formas de vida. Não era o único a fazer isto.

          Soube Mikail naquele instante, que a criatura queria usar a criança para tornar-se material. Neste momento ele entendeu o que havia acontecido. Séculos antes, no sacrifício final, Gilmar descobrira o que iria acontecer. Sem entender direito, impediu, e a ira do Antigo decaiu-se sobre seu espírito, que jamais conseguiu recuperar-se. Confundido pela criatura, tirou a vida de todos os outros e matou-se.

          Quando a criatura imensa tocou o ombro da moça, Mikail fez-se perceber, e a criatura lhe confrontou.

          “O homem não lhe pertence” ele disse olhando para a criatura.

          Sabia que não lhe responderia. Mas o antigo ficou furioso, e lançou-lhe sua intenção de rancor, mas Mikail a conteve, e aquela nuvem do desejo de ambos, invisível a todos, flutuava naquele ambiente.

          “O homem não lhe pertence”.

          A criatura, poderosa, tornou o quarto coração de um incêndio terrível, mas Mikail mantinha-se poderoso desafiando a criatura. Aquele que parecia uma criança ergueu-se do solo e lançou um raio na criatura, que o conteve, e retribuiu com mais fogo. Mikail atirou fogo azul no Antigo, que apesar de incomodado, manteve-se forte contendo-o longe.

          Seu confronto nunca cessou até o momento a mulher mais velha apunhalou a última criança, que deveria tornar a simbiose do espírito antigo ao da criança mais poderosa. Neste momento ele vacilou. A cama mudara de posição, e os encantamentos foram mal-sucedidos.

          O fogo azul de Mikail, contido por dias, tomou o espírito da criatura, que pela primeira vez cobrira-se de horror, medo, e estrondosa dor. Sensações limitadas a seres errantes, não a poderosos feito eles.

***

          Cavalgando noite adentro vinha o padre, cansado, faminto, com diversas e confusas sensações que reviravam suas entranhas e seus pensamentos. Mal enxergava o caminho diante de si, mas era guiado, provavelmente por sua intuição, e mesmo o cavalo, valente, corria.

          Longa fora a sua viagem até que pudesse ver diante dele a casa, com uma das janelas reluzindo uma luz branca sobrenatural. Desceu do cavalo, e fez os últimos passos a pé. Suas costas doíam, suas pernas também. Suas coxas estavam assadas, e sua cabeça parecia solta do pescoço. Não tinha a juventude de outrora e, outrora jovem, nunca cavalgara jornada tão longa sem descanso. Mas ali seria uma jornada a muito esperada. Aproximando-se da casa nos passos mais ágeis que sua exaustão lhe permitia, ele foi surpreendido pela imagem de uma moça aterrorizada e silenciosa.

          - Padre... Tem luz no corpo do menino... Sai dele, e está em volta dele.

          - Vamos tirar as crianças daqui, pegue a carroça e leve meu cavalo para ajudar.

          Ajudou a moça a acordar as crianças sonolentas. Um barulho de tropeço o assustou, mas tranqüilizou-se ao ver que era Gilmar. Gilmar ofegava, continha choro, horror, raiva, choque.

          - Elas... elas matam as... crianças... pra um demônio... coisa assim... eu vi o espírito da flo... floresta... As crianças morrem... mas não descansam. Temos que matar o menino.

          O padre perdeu a cor. Gilmar correu ajudar Hortência a fugir com as crianças. O padre foi até a cozinha e encontrou uma faca curta sem cabo. Andou em direção ao quarto iluminado. Entrou na enfermaria e encontrou a gravação do assoalho, e a criança que refletia de maneira assustadora a luz da lua. O menino que estava na cama gemia, virando-se de um lado para o outro. O menino da cama levantou-se de um soluço e grito de terror.

          “Faça alguma coisa!” ele gritou.

          O padre segurou a faca firmemente e atingiu com brutalidade o coração da criança iluminada, que abriu os olhos e olhou para ele com terror, agarrando suas mãos.

          “NÃO!” gritou Gilmar demoradamente, olhando pela janela.

            Mas ouve um outro som, outro ruído abafado de carne rompida, seguido pelo grito que não saiu da boca do padre. Uma dor terrível, e um fôlego que nunca foi encontrado.

          Alguém dera-lhe uma facada nas costas.

          - Parabéns, Padre, - disse tia Rute, contendo um riso debochado – você matou a criança errada.

          Dera outras duas facadas nas costas do homem velho, que caiu no chão, morto.

***

          Da criatura enfraquecida surgiu um último vigor que desfez as chamas do fogo azul de Mikail e lançou uma onda de fogo escuro que ardeu sobre seu espírito, e o derrubou.

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O MENINO QUE NÃO PODIA MORRER

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

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          DEVO COMEÇAR COM UM PEDIDO DE DESCULPAS A QUEM ACESSA O BLOG CONSTANTEMENTE, MAS O ATRASO NADA MAIS É QUE UM SINAL DE QUE APESAR DE FALTAR COM A PONTUALIDADE, TENHO COMPROMETIMENTO.

          O MENINO QUE NÃO PODIA MORRER ERA PARA SER UM CONTO. SEMPRE FOI ESTA A IDÉIA, MAS ELE CRESCEU COMO UMA ÁRVORE, E TOMOU AS DIREÇÕES QUE QUIS, E OS PERSONAGENS SE TORNARAM QUEM DEVERIAM SER, E ISSO, CLARO, SIGNIFICA QUE ALGUNS FORAM ALÉM DE MEUS PLANOS, OUTROS SIMPLESMENTE NASCERAM NO MEIO DO PROCESSO E HOJE SÃO GRANDES DENTRO DO UNIVERSO DENTRO DA MINHA IMAGINAÇÃO.

          O MENINO QUE NÃO PODIA MORRER ACABA NO CAPÍTULO 33, E ISSO EU DESCOBRI NO DIA EM QUE CHEGUEI NO CAPÍTULO 13 E VI QUE AQUILO ERA APENAS O FIM DO PRIMEIRO ATO.

          NÃO É FÁCIL SE DESPEDIR DE PERSONAGENS NOS QUAIS PENSEI COM TANTA OBSESSÃO, NO ENTANTO, NÃO É UMA CARÊNCIA CRIATIVA QUE ME IMPEDIU DE ATUALIZAR O BLOG, MAS A IDÉIA DE QUE O CONTO SEM QUERER VIROU UM ROMANCE. ROMANCES SÃO REVISADOS ANTES DE SER PUBLICADOS, MAS TUDO O QUE FOI LIDO AQUI NESTE BLOG SEMPRE FOI ESCRITO INSTANTES ANTES DE SER PUBLICADO.

          SEMPRE GOSTEI DE OBEDECER MEUS INSTINTOS E NÃO ME APEGAR A REGRAS E FÓRMULAS. MAS NÃO DEVE SER ASSIM COM O FINAL. NÃO QUE PRETENDA DESOBEDECER MINHA INTUIÇÃO, MAS PRECISO DE DAR MAIS CARINHO A ESTA PARTE.

          FALTAM APENAS DOIS CAPÍTULOS, E BASICAMENTE, NÃO RESTAM TANTAS EXPLICAÇÕES, É APENAS O CLÍMAX E A CONCLUSÃO, QUE PODEM OU NÃO SER EMOCIONAIS, TENSOS, OU PREVISÍVEIS. SER PREVISÍVEL É UMA COISA QUE NÃO ME AGRADA. :D

          NESTE FINAL DE SEMANA EU PUBLICAREI O CAPÍTULO 32 E, CLARO COMO CRISTAL, O FINAL SERÁ EMINENTE.

SEM MAIS,

ALEX PEDRO

O Menino que não podia Morrer... Capítulo 31

domingo, 29 de julho de 2012

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          Poucas pessoas já pararam algum dia para refletir sobre a complexidade da raiz da palavra universo. Sugere que há um plano físico em que vivemos que poderia ser,  quem sabe, o contrário do que realmente existe. Sugere que estamos do lado de fora do que realmente é real. E no universo cabem absurdos inimagináveis que requerem milhares de anos de física para explicar.

          Supõe-se que o universo, repleto de ilimitações possa ter vida inteligente em diversos pontos. Mas dentro de sua magnitude, isso se descobre uma inverdade. Há vida inteligente, há espécies diferentes, mas são poucas. Algumas delas, ligadas através de milhares de anos de história. Outras são meras consciências disformes, espalhadas pelo espaço, o que com a formação de planetas e vida recebeu o nome de Espíritos.

          Espíritos assimilam-se a coisas, como simbiontes. Assim nascem os planetas e a vida se forma, porque eles animam os elementos. Uns possuem inteligência, outros não, e outros a adquirem com o tempo. Alguns espíritos têm habilidade para interferir em elementos, e são inteligentes. Estes são vaidosos. Interferem na imaginação de criaturas materiais, e tornam-se o que chamam de deuses, demônios, anjos...

          Há milhares de anos surgiram os primeiros, e uns eram bons, outros não. Mas todos eram vaidosos. O que faria um ser interferir na evolução de outro e se fazer reconhecido senão a ardência egoísta de algo que se reconhece sobre outros seres? Há um ser supremo, que é um véu espalhado por toda parte, e ele assiste, e sua inteligência nada mais é do que a soma de todas. Não é um deus, pois ele é também os elementos. Mas os deuses...

          Os deuses não poderiam criar o universo, tendo visto que eles próprios são parte dele. Mas os deuses interferiram no mundo. E como pensam e o que desejam está além da compreensão de qualquer outro ser. Isto não se discute.

          No entanto, a evolução é a mais primitiva das leis que regem o Inverso, o Universo, e o Uno. Os seres se desenvolvem e alguns amam verdadeiramente. Estes vigiam a humanidade, e são livres. Não servem a nenhum deus, nenhum espírito, e também raramente interferem nas ações deles, pois um ser pensante não pode intervir por outro sem que seja chamado.

          Existe um lugar distante aonde vivem alguns que foram homens a milhares de anos, e dominam elementos tanto quanto os espíritos antigos. Mas não tão distante, existem homens, próximos de seu mundo, que o visitam regularmente e resgatam espíritos de semelhantes que se corrompem. Levam, às vezes anos de trabalho, mas há casos irrecuperáveis.

          Certa vez alguém impediu que um antigo espírito, anterior a formação do mundo, se assimilasse ao espírito de uma criança, e toda sua ira despencou-se sobre a pessoa, que em pouco tempo após abandonar o mundo material, ele já havia perdido qualquer resquício de humanidade e tornara-se um vapor etéreo composto por meros sentimentos de tristeza e rancor, e nenhuma personalidade.

          Os homens do chamado “Paraíso” levaram este caso aos “Elevados”. Quatro tentaram despertar a criatura, mas nada poderia ser feito. Mikail, velho, poderoso, decidiu lançar-se pelo espaço, cruzando distâncias incalculáveis, retrocedendo no tempo, para resgatar aquela criatura quando ela ainda era humana.

          E outra linha do tempo se formara no instante em que tomara a decisão.

          Voltou décadas do tempo daquele mundo. Cruzando a escuridão profunda em que o tempo não existe, com o corpo esticado como uma flecha, cuja cabeça estava erguida, olhando na direção em que se atirava, pois não havia erros. Ele era antigo. Ele era poderoso.

          Ao cruzar a atmosfera, desacordou-se, e fora lançado no solo, sem que sentisse qualquer impacto. Ele fora resgatado, visto como uma criança. E então chegara ao lugar em que deveria completar sua missão. Nenhuma maldade era irreversível.

          Algo terrível estava prestes a acontecer, e ele sabia disto. Viera preparado. Tudo podia acontecer. Inclusive seu próprio fim.

O Menino que não podia Morrer... Capítulo 30

terça-feira, 24 de julho de 2012

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          Já faz muitas décadas que o principal jornal de uma cidade no interior no estado do Paraná ilustrou sua primeira pagina com uma foto sinistra de uma casa no meio do mato, e a manchete “CHACINA NO CARDEAL PEREGRINO”. A nota era surpreendente:

          "A quase três meses sem quaisquer sinais dos moradores do único orfanato do município e arredores, o Padre Onório resolvera visitar o Lar Cardeal Peregrino, e uma visão chocante o surpreendera: Todos estavam mortos de maneiras surpreendentemente violentas.

          "Segundo o padre, o rapaz Gilmar Castro(que crescera no orfanato) era praticamente a única pessoa que se costumava ver saindo do orfanato. Era responsável por serviços pesados e, ora auxiliado por Hortência Gambrelli(que como ele, era uma órfã interna) ou pelas responsáveis Lira Maria Giardini ou Rute Giardini, periodicamente visitavam a cidade para comprar mantimentos e receber donativos feitos à paróquia.

          "O padre resolvera visitar o orfanato em busca de notícias e encontrou as 12 crianças mortas, umas com facadas no coração, outras degoladas, e os adultos igualmente mortos. “Eu nunca pensei que visitaria uma imagem como esta”, disse o padre, “Só Deus poderia presumir quem seriam aquelas crianças quando crescessem, mas isto já não vai mais acontecer.

         "Padre Onório optou pela discrição, e sem reparar em detalhes, procurou diretamente a polícia para investigar a cena. “Houve um claro confronto com as mulheres,” disse o inspetor Carlos Gianini, “Gilmar possuía a faca e, ao matar a todos no orfanato, tirou a própria vida num ato de extrema covardia”.

          "Segundo o padre, Gilmar sempre apresentou sinais de lucidez e uma fidelidade a suas tutoras que estava fora de discussão. A versão da polícia deveria estar errada. Segundo o padre, poderia haver mais alguém ou, indo além, haver influências demoníacas. O fato é, as crianças haviam sido assassinadas, uma a uma e, aparentemente, Gilmar havia cometido tais mortes, com exceção de Rute Giardini, que parecia ter sido vitima de um confronto com Hortência.

          "Aparentemente, as mortes já aconteceram a pouco mais de dois meses, e os corpos já estavam em estado avançado de decomposição. Investigadores de Curitiba foram enviados para auxiliar nas investigações. A região está isolada, e a anos é dita como assombrada."

          Isto aconteceu há muitos anos e os moradores daquele lugar remoto, por décadas, não conseguiram deixar aquela casa. Tornaram-se coisas. Coisas tristes, coisas isoladas, rancorosas, confusas e temerosas.

          Criança por criança, foram resgatadas num trabalho árduo de resgate. Forças mais antigas e fortes vinham para pacientemente estudá-las, lembrar-lhes de sua própria humanidade, e despertá-las. Mas houve uma que ninguém jamais conseguiu resgatar. Era esta sua missão. Mikail deveria salvar o menino que não podia morrer.

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