A Saga de Maria

sexta-feira, 6 de abril de 2012

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A seguir, um recorte de jornal da publicação de um conto que escrevi exclusivamente para o jornal "Horizonte Vilacovense", jornal do distrito de Vizeu, Portugal.


A incontestável fé de Dona Creuza

quarta-feira, 4 de abril de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida pela religiosidade de seus cidadãos. Dona Creuza, beata, carola, líder da Liga das Senhoras Distintíssimas de Itaxoxota era uma senhora de 70 anos, com muita fé, paz de espírito, amor no coração, e assassinatos em seu passado.

          Creuza era viúva. Creuza não tinha filhos. Creuza era mulher direita. Creuza tinha sido uma criança feliz.

          Lá no sertão do Ceará, lá longe, tinha nascido aquela menina. Bonitinha, meiga, cabeça grande. Era Creuza. Creuza queria ler e escrever. Seus pais não queriam que Creuza fosse uma sertaneja sofrida como eles, que assinavam com o polegar. Queriam que Creuza fosse médica, “adevogada”, professora, alguma dessas profissões que dão dinheiro.

          Aos  nove anos, certa vez, Creuza estava na cidade com maínha mais paínho, quando surgiu por todos os lados um bando de cangaceiros violentos.

          - Miniiiiina! – gritou maínha, quando viu a filha correr ao som dos primeiros tiros. Creuza vira um menino, talvez mais novo que ela, cair no chão com um tiro na testa e se escondeu.

          Ouviu tiros, tiros e mais tiros. Não acabavam mais. Gritos agudos, gritos graves. Gemidos, gargalhadas. Súplicas. Para ela, fora setenta horas ou mais, mas para aquela vila, não foi mais do que três horas até que todos estivessem mortos e todas as casas e comércios fossem saqueados. 

          Creuza depois de tudo saiu de seu esconderijo, semi enterrada sob um assoalho da igreja, entre a terra e a madeira. Andava entre mortos de todas as idades. Tomaram água, e derrubaram na terra seca também. Beberam vinho e água ardente, levaram o que podiam, e boa parte do que não consumiram fora desperdiçada em vandalismo. 

          Creuza ficou três semanas naquela vila fantasma, uma criança louca no meio de corpos que apodreciam, sentindo fome e cede, até que encontrou um jovem, que chegara cavalgando um jegue, e que após inspecionar tudo, a encontrou naquele mesmo esconderijo. Arisca e temerosa.

         Era um menino do Pernambuco. De 14 anos, armado até os dentes. Tião Carcará é como ele viria a ser conhecido anos mais tarde. Naquela época em que ele encontrou Creuza, uma cearensezinha delicada, suja e triste, ele era apenas Bastião.

          Bastião levou a menina consigo, e por anos estiveram juntos. Ele deu o primeiro carinho que o rosto dela recebeu, o primeiro selinho, e o primeiro beijo de língua. Foi o primeiro menino que segurou a mão dela. Foi a única carne que ela sentiu entre suas pernas, fora o filho que tivera dele, nascido meses depois de seu assasinato. Mas isso vem a seguir.

          Bastião tinha perdido seus pais numa pendenga com o cangaceiro Foice Branca, terror da Bahia em sua época, e cresceu treinando tiros e matando bandidos. Era o herói dos fracos e oprimidos. Fora Foice Branca quem matou seus pais, e fora ele também o responsável pela chacina que vitimara os pais de Creuza.

          Creuza e ele, para combater, começaram a aliar forças com outros jovens que desejavam vingança, mas a verdade é que, pouco a pouco, começaram a perder-se de sua verdadeira missão e, após matar Foice Branca, assumiram seu reino de horror no nordeste, e ele fora assassinado por uma jovem rapariga que tivera os pais mortos pelas mãos dele.

          Sim, meus caros, falamos de Dona Satanilda. Dona Creuza está em Itaxoxota porque desejara vingar-se, e Satanilda, mulher empreendedora que é, foca-se no trabalho, e não tem idéia do que é armado contra ela. Seu Inácio, dono da barraca de côco da praça principal conhece a história, e o padre, no confessionário disse que ela e seu finado esposo perderam-se pela cobiça, e ele atraiu para si o destino de seu algoz, e ela jamais descansaria se isso fosse consumado. 

          Isso a atormentava. Ela largou o filho nas mãos de outra cangaceira sobrevivente, que refugiara-se no sudeste. Nunca mais teve notícias dele.

          Ela não sabia se Satanilda tinha ou não feito pacto com o diabo, mas sabia que uma coisa não era uma lenda: Marinilda de Souza Cavalcante Mendonça de Silva e Carvalho matara um a um do bando de Tião Carcará. Foram quarenta e oito mortos. Não quis ser cangaceira nem ser assassina. Consumou a vingança que prometera a si mesma e seguiu sua vida. 

          Creuza por sua vez vivia num dilema. Tornara-se uma assassina apenas por ser necessário para estar ao lado do amor de sua vida. O que era apenas um desejo de vingança por uma criança ferida por uma atrocidade, tornara-se uma mera trivialidade.

          Na religião ela encontrou ética e rigor. Na sua fé ela encontrou regras a serem seguidas e obedecidas. Uma opinião sobre certo e errado além do que sua vida, regada de sangue, havia lhe mostrado. Tinha um passado obscuro, tinha desejos tenebrosos, mas sua fé definitivamente, não era falsa. 

O Menino que não podia morrer... Capítulo 14

domingo, 1 de abril de 2012

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          Dona Lira andava devagar pela Estrada de terra, com Tia Rute pendurada em seu braço. Ambas estavam suadas, cansadas, e com cabelos levemente bagunçados. Tia Rute parecia frustrada, irritada por qualquer razão, enquanto Dona Lira apenas parecia indiferente. Uma indiferença nascida da tristeza. Era uma mulher cansada. 

          “Alguma coisa deu errado...”, murmurou Tia Rute para si mesma. Dona Lira apenas seguia seu passo lento. “Alguma coisa deu errado...”.

          Quando chegaram até o orfanato, Hortência descascava batatas para o jantar, e Gilmar estava trocando algumas telhas de sua casinha. Ao que parecia, tudo estava normal. Tia Rute largou o braço de dona Lira e fora ver o pequeno Laio. Ajoelhou-se ao lado do menino, bateu duas palmas na altura da boca e murmurou algo. 

          - Por aqui ficou tudo tranqüilo enquanto estivemos fora? – perguntou Dona Lira à Hortência, na cozinha.

          - Sim, dona Lira. Os meninos dormiram quase que a tarde toda. Deve ser o calor. E como foi o menino, já ficou com o pai, então?

          - Oi? Ah, sim. Claro.

          - Esse povo vem buscar vocês duas, mas nem se dão ao trabalho de trazê-las até a porta. Acho um desrespeito isso.

          - É porque eles já tem o que querem...

          - Quando eles tem o que precisam da gente, a gente já não importa mais... – murmurou a garota.

          Dona Lira a olhou, como alguém que percebe ouvir mais do que fora dito.

          - Tem razão. – tocou no ombro de Hortência. - Querida, vá descansar um pouco, eu termino de preparar o jantar.

          - Muito obrigada.

***

          A noite estava escura, fria, e a luz branca da lua tornava o quarto de Gilmar, claro e com paredes pálidas. Havia passado das dez horas da noite e, como de costume, todos já estavam em suas camas. Gilmar estava deitado, inquieto, incomodado. Algo o perturbava. Algo o deixava confuso. Ouviu passadas macias no jardim. Caminhou silencioso até sua janela e, por uma fresta, vira três pessoas andarem em passos calmos. Eram duas mulheres de vermelho, e o terceiro tinha três metros e andava como se fosse...

***

          Gilmar estava na floresta. Havia ele, a luz da lua que sacrificava-se para alcançar o solo, cortando as silhuetas das milhares de folhas e galhos. Raro era o lugar em que a luz alcançava o chão. Ele caminhava, e seguia o homem grande. Um macaco que andava feito homem, com pouco mais de dois metros. Ele seguia a criatura, que jamais olhava para traz.

          O Macaco então chegou a um campo, aonde a luz branca da lua cheia marcava o solo batido. No centro havia uma pedra e havia um circulo de crânios de crianças. Sombras vibravam no chão branco. Sombras de aves. Não, eram crianças mortas. Voavam em círculos.

***

          Um menino caía do céu. Ele o vira cair. Sim, não fora uma confusão, ele realmente caiu do céu.

***

          - Aaaaarh! – gritou Gilmar, caindo em sua cama, como se estivesse flutuando sobre ela. Sentou-se, assustado.

          Foi até a “Casa das Crianças”, que era aonde dormiam os garotos e as mulheres. Laio dormia, O Menino dormia,as demais crianças dormiam. E um ronco audível vinha do quarto onde dormiam as duas senhoras. Voltou para sua casinha, e tentou dormir.

Tem lógica

quinta-feira, 29 de março de 2012

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- Ei, eu acho que você não precisa mais chorar
- Por que não deveria?
- Porque eu descobri que dá pra você voltar a ser feliz!
- Eu acho que não posso.
- Por que não?
- Porque eu não posso voltar no tempo e mudar o passado...
- Mas se você voltasse no tempo, ainda sabendo como terminaria, você iria passar pela mesma coisa, porque você não pode mandar no seu coração.
- É... Tem lógica. Mas como eu poderia ser feliz?
- Simples. Eu descobri que eu sou a sua alma gêmea!
- Mas se isso existisse, ou, se fosse você, eu também teria notado, não teria?
- Então, mas nós já estamos nos falando até agora. Isso pode ser um sinal.
- Mas eu não consigo me esquecer do passado.
- Ah, mas isto é simples. Você não quis esquecer até agora. Alias, por não querer, as pessoas acabavam desistindo de você. E você voltava a pensar na mesma pessoa...
- Verdade. Mas aí que tá, se eu não quis esquecer, porque acha que seriamos almas gêmeas?
- Você se prende a alguém que não te quer como você quer, logo, esta pessoa não pode ser sua alma gêmea.
- Tem lógica. Mas não estou apaixonado por você.
- Isso porque não quer se apaixonar por mais ninguém. É simples, não é?
- Verdade. Mas porque você acha que eu sou sua alma gêmea?
- Por que você espera do mundo o mesmo que eu...
Silêncio constrangedor.
- E...
- Sem chateações, vai. Você escuta cada coisa esquisita...
- Você sempre disse que gostava!
- Exatamente!
Silêncio surpreendente.
- Agora fiquei sem graça... Mas tem lógica... Mas sabe o que acontece? Eu gosto de você, e detestaria te dar uma chance e você descobrir da pior maneira que não somos um só. Não quero magoar você.
- Pois então, aí vem outro sinal. Eu não tenho medo de chorar por sua causa, não apenas por achar que você vale o risco, mas porque eu tenho certeza que é você.
- Mas porque diz isto?
- Porque quando eu acordo a primeira coisa em que penso são seus olhos negros.
- É sério?
Silêncio encantador.
- Juro.
- Então tem lógica. Mas e agora, como a gente faz?
Silêncio sonhador.
- É bem fácil: me dá a sua mão, que até seus cabelos ficarem brancos a estrada é bem longa.

Dona Beuba e sua extraordinariamente irrelevante vida

quarta-feira, 28 de março de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por seus munícipes excêntricos. Dona Beuba era uma mulher famosa. Não havia em Itaxoxota quem não a vira com os peitos pra fora da roupa. Não por ser uma mulher da vida, mas por ser cachaceira mesmo.





       Dona Beuba chamava-se Izildinha de Gonzaga Herculana Conceição Imaculada de Jesus. Chamavam-na de Beuba porque certa vez estava beijando um poste de luz apaixonadamente, “Óli lá! Izildinha ta beuba” gritou alguém. O policial recém chegado em Itaxoxota se aproximou “Dona Beuba, têinha modo sinão vai prêsa”.

          - Eu to beuba, i a sinhora tua mãe ta...

          Bastou. Foi levada presa. Apareceu no noticiário local, ficou famosa na internet. O bordão, repetido pelo povo de São Paulo e do Rio de Janeiro era: “Si to beuba, num sei. Sei qui to feliz! Rá-rá-rá” Olhou pra câmera com olhar obsceno, e é imitada até hoje no sudeste pelo que chamam de “bichas pão-com-ovo”.

          Dona Beuba tinha 33 anos. Era meio barriguda. Tinha dinheiro pra cachaça porque era aposentada por invalidez. A mão esquerda dela fora decepada numa maquina fazer caldo de cana. Foi trágico, mas depois ela até gostou da idéia.

         Com um cotoco, não precisava mais pegar filas, e como era canhota, nunca mais precisou escrever. O que era um alivio pra quem precisasse ler o que Izildinha fosse escrever. Um chimpanzé tinha mais coordenação motora que ela.

          Beuba tinha um sonho. Ver sua filha, Cleonice casada com um bom homem. Se orgulhava muito de sua filha, virgem, e sabia de seus sonhos inocentes com o príncipe encantado. Seu sonho era casar Créu com Helinho, filho de um fazendeiro da região. Créu era bonitinha e meiga. Tinha suas chances.
      
          Beuba não sabia quem era o pai de Créu.

          Beuba, alias, não sabia de muita coisa. Afinal, estava sempre “Beuba”, xingando as latas de lixo da rua, que pareciam segui-la, e chamá-la de pinguça.

         A maior decepção de Beuba era saber que Weliston seu filho, se mudara pra São Paulo, e colocara silicone industrial no corpo, para virar mulher. Beuba não gostava de bichas. Pra ela, as bichas eram obra de Satanás, e ela dizia sempre que podia, para sua filha Cleonice, que “Mulé que chupa grêlo vai pro inferno quâno morre”.

          A verdade é que ela na juventude fugira constantemente para Serro Azul com suas amigas e alugavam quartos em hotéis baratos e interagiam libidinosamente. Beuba não se envergonhava, porque achava que ninguém sabia disso, mas era um engano seu.

          Elinete, filha de dona Creuza, antes de morrer de dengue confessou a sua mãe e ao padre que ela e Izildinha foram namoradas, e que Izildinha era o homem da relação.

          Dona Creuza sempre quis ver Beuba morta, por ter levado sua pobre filha para os caminhos perversos do belzebu-monstro, e feito ela virar um sapatão. Elinete era uma dondoca, e a verdade é que ela havia namorado todas as sapatonas de toda aquela região da Bahia.

          Outrossim, era por isso que Beuba condenava a sapanotagem. Sua antiga namorada a traíra com mulheres muito melhores que ela. Ficou beuba, como qualquer beubo que se vê por aí, pela chifredão da vida...

[QUEM GOSTOU, E PUDER RECOMENDAR O BLOG, E COMENTAR, VAI ME DEIXAR BEM FELIZ. ASSIM EU POSSO INTERAGIR E SABER DAR UM FOCO MELHOR NAS PRÓXIMAS HISTÓRIAS]

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Qual o mistério da felicidade?

terça-feira, 27 de março de 2012

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Qual o mistério da felicidade?
Será que tem algum limite de idade?
Ou está escondida pela cidade?
Dizem que existe, mas não tem veracidade.
Mas a desejo com voracidade.
Fico sempre na vontade.
Ás vezes penso que é vaidade.
Durmo implorando por solidariedade.
Será que ela vem, mesmo, de verdade?
Eu quero ser feliz, e nisso ponho toda a minha vontade.
Mas pro coração só o que sobra é a atrocidade.
Quero alegria, quero prazer. Quero o amor da minha metade.
Basta de solidão. Isso definitivamente é uma barbaridade.
Tudo o que busco, pura e simplesmente, é a minha felicidade.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 13

sábado, 24 de março de 2012

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          Tia Rute não gostara nada da saída intempestiva de Gilmar, particularmente porque aquele dia iriam receber uma visita importante. Senhor Heitor viria para buscar o menino Donizete. Partiria com o menino, que a partir de então, chamaria de seu filho.

          O homem chegou em um carro, e nele as duas senhoras subiram com o garoto, e partiram para a cidade. Hortência nunca antes vira um automóvel.  

          Poucos minutos depois da partida, ela percebera um forte alvoroço entre os meninos. Na enfermaria e no quarto, os dois meninos deitados e desacordados suavam, e os membros agitavam-se como se uma corrente elétrica os percorresse de tempo em tempo. Fora assim por um tempo. Desorientada, Hortência corria de um quarto para o outro.

          Laio parara primeiro. E ficou imóvel. Como um espirro de gripe, cuspiu-lhe sangue no rosto. E os músculos do rosto começaram a se contorcer. Lágrimas escorriam pelos olhos fechados daquela criança imutável. Muitas. E o corpo vibrava, como se houvesse uma tentativa de choro contida de algum modo extraordinário.

          “Tia! Tia!” gritou um dos meninos que estavam no quarto com o menino trazido por Gilmar. Angustiada, correu até o outro quarto, e o menino estava de olhos abertos e a olhou com uma força que a arrepiou por inteira. Suas pupilas eram de um negro profundo, e ali ela mergulhara por um deslumbre aterrorizante aonde um Ser imenso a erguia do chão e com os braços, a partia viva, dividindo-a em duas partes. 

          “HORTÊNCIA!”, gritou Gilmar, fazendo-a sair de um estado de choque. Ele olhou e o menino estava olhando para ela. Ela correu até o outro quarto. Laio estava adormecido, calmo. Suado. Ela enxugou sua testa.

          “Os dois começaram a se sacudir juntos...” dissera um menino, apavorado. O orfanato pareceu estar em estado de pânico.

          - Esse sangue? – perguntou o rapaz. Ela tocou no próprio rosto e percebeu o cuspe do garoto. Ela não respondeu. Ficou enxugando Laio, transtornada.

          Gilmar fora até o outro quarto. O menino estava sentado, olhando para os outros, sorrindo, feito qualquer outra criança. Gilmar se agachou, e o encarou. O menino sorriu.

          “Calma, elas não saberão. Todos eles vão dormir daqui a pouco e não se lembrarão de nada.”

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Pessoas estranhas.

quinta-feira, 22 de março de 2012

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Pessoas estranhas usam avatares.
Não importa que sejam especiais, nem importa que sejam notáveis,
Elas temem a si mesmas, se apresentam com mitos, surpreendem o mundo, e se escondem na concha.

Você pode se encantar. Cuidado.
Pessoas estranhas são assim! Elas são como você sempre quis.
Pessoas estranhas nos confundem. Podem ser estranhas para o mundo e perfeitas pra você. Mas elas entendem isso?

Pessoas estranhas são confusas.
Elas são destemidas, determinadas, e buscam seus sonhos.
Algumas realizam, outras fazem de conta que vivem neles, e são de realezas variadas, com coroas reluzentes que mais ninguém vê.

Pessoas estranhas usam avatares.
Isso dói, mas o que se pode fazer?

Os retalhos da controversa história de Jennifer Christinny

quarta-feira, 21 de março de 2012

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Neste episódio da série sobre Itaxoxota do Norte eu não quis usar xilogravura porque o personagem em questão tem poder! riqueza! e glamour!




         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por sua diversidade. Um de seus filhos mais importantes era o menino Joelson, que na vida adulta seria mundialmente conhecido como Jennifer Christinny.

          Joelson era uma bichinha que crescera na Calça do Saci, bairro da zona oeste de Itaxoxota do Norte. Lá Joelson apanhara de muitos moleques desajeitados. Joelson assistia na televisão aos shows de Sarajane, e sabia que um dia iria brilhar.

          Joelson vestia o sutiã de sua mãe, colocava uma cueca embolada em cada lado, segurava o pote de xampu, passava o batom de maínha na boca, nas bochechas e nos olhos, ligava o k7 e “Abre a rodinha por favor, abre a rodinha meu amor”.  Certa vez quatro garotos da escola quebraram a janela, e o flagraram. Atiraram ovos e depois tiraram fotos.

          Joelson, pobre menino, não quis mais ir para a escola. Acabou não indo mesmo. Fugiu pra Salvador, aonde se juntou com uma gangue de crianças malandras. Os meninos foram dar uma surra nele, sem saber que Joelson era um capoeirista desde os 4 anos, e aos doze, com raiva dos meninos que lhe atiraram ovos e chamavam de baitola, ficou macho. Não macho de macho, macho de bravo.

          Joelson sentia tanta raiva, que batia em todo mundo. Certa fez foi assaltar, e havia uma negra importada de algum país da Europa, e estava com uma amiga brasileira. Ele ouviu o nome da negra. Jennifer. Ela era tão bonita que ele não quis roubar. Roubou o nome. Joelson agora era Jennifer. Deixou crescer os cabelos, começou a roubar hormônio na farmácia.

          Nasceram peitinhos. Jennifer roubava agora apenas roupas, maquiagem, comida e hormônios. Ainda ouvia Sarajane, Daniela Mercury e Madonna. Aos 16 ela ficou loira e começou a cantar Axé.

          Macumbeira como era, Jennifer apelou aos orixás pra dar certo, e fez um hit de sucesso, segundo contam, escrito por sua cigana, que ganhou o país, depois fez duetos com Daniela Mercury, cantou com a Xuxa, participou de um especial do Roberto Carlos, gravou ao lado de Fábio Junior(com quem dizem ter tido um romance secreto) e ajudou a alavancar a carreira de Ivete Sangalo com o hit “Tiri-dam-tam-tam”(tiri-dam tam-tam, tiri-dam, tam-tam, córáção acéléra por vócê), composição sua. Jennifer Christinny gravou recentemente o single “Breathless love/Esse amorzinho gostoso da gente“ ao lado da cantora estadunidense Beyoncé.

          Uma grande polemica envolveu seu nome quando certa vez, foi parar em uma delegacia. Segundo contam os rumores, o cantor Léo Santana, seu suposto ex-namorado, numa brincadeira supostamente inocente a chamou de Joelson e teve seu braço esquerdo quebrado pela cantora.  

          Jennifer havia conversado com o presidente Lula, certa vez, num churrasco na Granja do Torto, onde teria perguntado como poderia fazer para comprar a cidade de Itaxoxota do Norte. Seu maior sonho era poder chamar a cidade de sua, e incendiá-la com todo mundo dentro.

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A imagem é meramente ilustrativa. Trata-se de uma fotografia do cantor inglês Robbie Williams para seu videoclipe "She is Madonna".

O Menino que não podia morrer... Capítulo 12

sábado, 17 de março de 2012

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          Sem muita satisfação, Gilmar montou no cavalo e partiu. Pela estrada, ele percebeu que terra vibrava com as passadas do cavalo, e percebeu as árvores chacoalhando. Ouvira som de urubus. A seu redor, sombras gigantes das aves sob um sol quente.
          Quando olhou para cima, vira onze crianças, aparentemente mortas, voarem como a ave, poucos metros a sua distância, boquiaberto com o choque, uma gota de sangue quente pingou em sua testa e, no susto, sacudira a cabeça. Era apenas uma ilusão.
          Minutos depois ele estava na praça da cidade, a caminho da igreja.
          Estava aberta. Poucos fiéis. O padre estava diante do altar. Ele se aproximou do altar e pela primeira vez abriu seu desenho. Uma corrente de ar forte escancarou as portas da igreja, apagando velas pelo corredor, e o círio pascal, que fez com que o padre imediatamente olhasse para o rapaz e se detivesse no desenho no papel.
          “Isso é hebraico...”, murmurou o Padre, idoso. Olhou para Gilmar, intrigado. “Onde encontrou?”
          - Estava gravado no taco, embaixo da cama do Laio.
          - O menino que não acorda?
          Um coroinha passou pelo altar, cabisbaixo, dobrando a toalha bordada, e recolhendo os castiçais. É o menino que Gilmar recolhera na floresta. Encara-lhe com severidade e vira-se. Gilmar se assusta, e ele olha de volta. Não se tratava da mesma criança. Devia estar ficando louco.
          - O desenho das letras é bonito, não é? – disse o rapaz.
          - Sim, mas eu achava que Tia Rute era apenas uma benzedeira. Gravar oração em hebraico no chão é muito estranho.
          - Mas hebraico não é uma língua boa?
          - Não existe língua boa ou ruim, meu filho. Existem palavras, elas sim têm poder, carregam intenções, e podem ser classificadas de alguma maneira. Não sei o que está escrito aqui, meu filho, mas sei quem pode me ajudar a ler isso aqui. – Olha para o círio pascal, com um suave fio de fumaça. Toca na testa de Gilmar e nela desenha uma pequena cruz. Volta a atenção para o círio pascal, e olha depois nos olhos do rapaz. – Evite a raiva. Evitá-la é uma forma de equilibrar a mente, e neutralizá-la do medo que o mal planta no coração. A ameaça quando vem, vem com a gente tendo medo ou não. Não tê-lo é um passo para que a inteligência fique livre durante a ameaça. Vá com Deus meu filho.
          O padre toma o papel das mãos de Gilmar e se retira. O rapaz olha para a imagem de Nossa Senhora, se curva, e põe-se a rezar, para minutos depois, partir de volta para o Lar.

[SABADO QUE VEM TEM MAIS - 24/03]
PESSOAL, NÃO ESQUEÇAM DE DEIXAR COMENTÁRIOS, PRA EU SABER SE ESTÃO ACHANDO BOM, LEGAL, UMA PORCARIA. PRA EU TER UMA IDÉIA DE ONDE EU ACERTO, ONDE EU ERRO, ENFIM.

As desventuras de Seu Lili e seus filhos na conflictuosa cidade de Itaxoxota no Norte

quinta-feira, 15 de março de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por suas diferenças sociais. Tinha gente rica, tinha gente bonita e bem sucedida, mas tinha quem não conseguisse sair da merda. Seu Lili era um deles, quase um cogumelo, nascido e crescido na bosta. Seus filhos eram todos boçaizinhos também. Desde crianças adoravam tomar Danone na casa dos vizinhos.

          Seu Lili tinha conta pendurada em quase todos os estabelecimentos da cidade. Alias, adorava quando um novo abria, porque em geral, os outros já não o aceitavam mais. Seu Lili não era vagabundo, ele na verdade era preguiçoso. Seu maior sonho era descobrir o marketing de rede perfeito. 

          Seus filhos eram três. Tinha Lisauvandra uma menina feia na infância, mas que viria a mais tarde se casar com um coronel e se mudaria para Salvador, Eliomar, que era um menino feio na infância, e feio nas demais fases também, e Marlene, que era bonita e futuramente largaria Itaxoxota para trabalhar em São Paulo(honestamente, que seja dito!).

          Eliomar adorava contar vantagem. Ele era um menino que na adolescência era o pegador de seu bairro. Jogava bem futebol, e adorava dar tapa na cabeça dos veadinhos da escola. Ninguém sabia, mas a verdade é que ele sempre achara Miguel, o mais gayzinho da turma, uma coisinha linda. Mas batia sempre.

          Pra felicidade de Miguel, Eliomar cresceu e, se na adolescência já não era bonito, aos vinte e poucos, ele ficara mais feio ainda, espinhento, com alguns quilos a mais, e, aos vinte e cinco anos, sem os dentes da frente(macho como era, não abria mão de uma boa briga).

          Certa noite, alcoolizado, lá pelos dezessete, dezoito anos, Eliomar procurou Miguel, que partiria para morar com a mãe no sul do Brasil, lá no Rio de Janeiro, e declarou sua paixão. Miguel o chamou de bicha, mandou tomar no cú, e nunca mais se falaram.

          Eliomar, chorando, foi consolado por Cleonice. Na época ela tinha doze ou treze anos. Aos vinte e oito engravidou Leôa, filha de Ariovaldo. Na época a moça tinha 14 anos, já tinha o corpo todo ajeitadinho e abusava bem disso. Seu pai obrigou Eliomar a casar com sua filha. Mas isso é outra história.

          Lisauvandra era gorda e feia. Isso é tudo o que se precisa saber sobre ela. Metida que só. Adorava passar o dia na casa das amigas, e criava intimidade fácil. A primeira visita já bastava para deixá-la à vontade o bastante para a abrir a geladeira da casa das pessoas ou fuçar armários a procura de bolachas recheadas. 

          Aos treze anos, Lisauvandra ficou loira. Era agora gorda, feia e loira. Todo mundo achava ela feia de doer. Meio porca. Não penteava bem os cabelos e nem sempre escovava os dentes. Mas se achava tão melhor que as outras meninas, que acabou, pela auto-confiança, ficando popular na escola. 

          Lisauvandra sonhava com Helinho, que era o menino mais bonito da escola. Mas ele, apesar de bonito, tinha bom coração. Ela, despeitada, começou a acusá-lo de ser bicha, e ficou com muita inveja quando soube que ele estava apaixonado por Bonitinha, a filha do prefeito.

          Lisauvandra até entrou pra academia pra tentar conquistá-lo, mas sem sucesso. Em contrapartida, na academia ela conheceu Adamastor, e depois que se exercitou nele, nunca mais quis outro. E esnobe como era, adorava enxotá-lo, e ele com o tempo foi ficando apaixonado. O tempo passou e ela continuou gorda, feia, e soberba. Até que arrumou emprego de faxineira na casa de Coronel Ordônio e engravidou do velho. Mudou-se pra Salvador.

          Marlene era uma grande vítima. Perceba que eu próprio me referi aos filhos de Seu Lili como boçaizinhos, pelo injusto hábito da generalização. Era sempre vítima, pobrezinha. Era a chata da família, a rabugenta, a ranzinza e rancorosa, pelo simples fato de que queria ser alguém na vida. Na infância ela estudou, na adolescência ela estudou, e quando moça, mandou seu pai à merda e partiu para São Paulo.  

          Fora guardete em uma agência de banco por dois anos, até que conseguiu virar professora. Mas seu grande objetivo era descobrir o paradeiro de sua mãe. Apesar de seu pai e seus irmãos nutrirem uma forte raiva por sua mãe desaparecida, ela a via como uma mulher determinada e perseverante: ela própria teria abandonado a família. Com tal pai, seria difícil imaginar que os filhos pudessem crescer e virar qualquer coisa além de medíocres.

          Mas voltando a Seu Lili, as pessoas se comoviam com sua dificuldade, até descobrir que as dividas nas mercearias eram por conta de arroz, feijão, carne, farinha, ovo, cerveja, cachaça, rapadura, bolacha recheada, leite condensado, refrigerante, sorvete, têta-de-nêga, pé-de-moleque, e outras coisas que dá pra viver sem.

          E nunca mudaria? Depois de se decepcionar com tantos marketings de rede, decidiu abrir uma igreja na cidade, pra concorrer com a paróquia de São Jesus Cristinho. Prosperou, mas isso, ah, isso é outra história.

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