O Menino que não podia morrer... Capítulo 5
O Menino que não podia morrer... Capítulo 4
A carroça atolou na lama. Gilmar pensou em gritar, mas a frustração era mais forte, ele respirou fundo, segurou o ar, e o soltou devagar. Olhou para o menino desconhecido. Será que deveria deixá-lo pelo caminho? Quem sabe alguém não o encontra e lhe oferece uma família... Não. Levariam-no para o abrigo. Faz quase sete anos que não aparecia alguma família para adotar algum deles. Este iria morrer ali, como ele próprio.
Na verdade houve uma ocasião, no passado, em que um homem de trinta e poucos anos aparecera ali no abrigo para conhecer as crianças, e Gilmar descobriu gostar dele. Ele tinha olhos brilhantes, e um sorriso calmo. Era bondoso, e isso sua voz dizia. Falou histórias de marujos, piratas, gênios, tapetes voadores... Ele ia sempre lá, e passava muito tempo com as crianças, particularmente com Gilmar.
Um dia ele disse “vou te contar um segredo: quero que você seja o meu filho”.
Gilmar o abraçou e chorou. O jovem não deveria ter lhe dito isto. Ele tentou adotar, mas tudo parou. Ele começou a ir com menos freqüência, cada vez ficando menos tempo. Gilmar sabia que estava se despedindo. Anos mais tarde, Dona Lira trivialmente dissera “Você quase foi adotado, mas descobri que o homem que o queria vivia com outro homem. Pouca vergonha! Imagine, destruir a sua infância e sua formação como homem.”
Inicialmente, Gilmar pensou que Dona Lira pudesse ter razão, mas a verdade é que Gilmar gostava de comer Hortência, gostava de ouvir a bunda dela batendo em seu corpo, e acima de tudo, ouvi-la gemer. Não iria gostar menos de uma mulher por viver com dois homens que se gostavam. Essa reflexão lhe acendera uma pequena chama de ódio, mas nada capaz de causar-lhe incêndio.
Gilmar sabia escrever o próprio nome, e era tudo o que sabia. Sabia fazer contas nos dedos, tinha lógica para calcular, mas não sabia fazer nada em papel, nem escrever números. Quem sabe como filho de dois veados ele não saberia ler livros inteiros. Era seu sonho, ler um livro, e ele odiava livros com figuras, porque isso o lembrava do quão ignorante ele era.
Quando ficou mais velho e começou a assumir algumas responsabilidades no Lar Cardeal Peregrino, e ir mais à cidade, via como os jovens se vestiam, e cortavam os cabelos, e como falavam. Gilmar sentia vergonha de si mesmo. Sentia raiva do mundo. E sentia pena, porque era pouco provável que aquela criança pudesse ter um destino diferente.
A chuva passara. Ele pegou a bolsa com os medicamentos, segurou o menino no colo, e o colocou sobre o cavalo. Deixou a carroça para trás. Mais tarde ele voltaria para buscar. Partiram.
O que se faz?
O que se faz quando um amigo, em seu humor diverte-se com o que lhe frustra e machuca?
O que se faz quando voce não sabe o que responder?
Quando responder inevitavelmente o fará vítima, ou o fará igualmente cruel?
Me calo.
Melhor que prolongar o inevitavel, que é sempre interminável e ainda mais doloroso, é deixar que as coisas esfriem, deixando à minha própria mente um recado: "Não se esqueça que isto aconteceu".
O Menino que não podia morrer... Capítulo 3
O Menino que não podia morrer... Capítulo 2
“Ele vai morrer”, pensou, olhando para o menino deitado na cama. Parecia o palpite de alguém sem esperança, mas aquela era uma mera questão de intuição.
- Teve alucinações durante a noite. “Não há descanso...” foi a única coisa que distingui no meio dos resmungos. Gilmar foi buscar medicamentos. Pobre homem, com este temporal por vir. – dissera à Hortência, uma jovem que, sentada na cama, trocava compressas na testa do menino.
- Precisa tirar as roupas do varal, Dona Lira. Pegaram bastante vento, devem ter secado.
Esquecera-se completamente. As roupas. Saiu do casarão sem pressa, com uma das mãos sempre apoiada em uma parede, como se precisasse escorar-se. Era apenas um gesto de uma mulher cansada, não propriamente debilitada. Lá fora estavam os varais cheios de lençóis e algumas roupas de crianças.
Apanhou uma bacia num gesto automático e começou a tirar lençol após lençol sem nenhuma pressa. O céu era escuro. Olhou-o, e dele para a direção por onde a qualquer momento voltaria Gilmar trazendo comida. Distraiu-se com um lençol. Alguma ave havia se empoleirado e feito suas sujeiras. Suas mãos seguraram o lençol, apertaram-no num gesto de ódio, e ela observou seus dedos. Como estavam magros. Parecia uma arvore seca, com manchas e galhos cheios de nós.
Nunca tivera mãos bonitas e quando ela própria era jovem e ainda lhe havia alguma beleza, suas mãos já estavam calejadas pelo ofício nada delicado que lhe havia sido imposto por ser mulher. Admirou-as por um instante. Esfregaria novamente o lençol que estava limpo, não fossem as fezes do animal. Sentia pena de si mesma. Concentrada em suas mãos, assustou-se com um trovão alto.
Arrancou os demais lençóis passou para dentro do casarão. Olhou novamente para a estrada. A chuva havia começado.
Jamais ela partiu daquele lugar e agora era tarde. Passaria o resto de seus dias e, ao morrer, seria esquecida pelo mundo, e nunca teria existido.
O Menino que não podia morrer... Capítulo 1
Gilmar apoiava-se para cochilar na carroça velha naquele entardecer frio e nublado quando percebeu uma luz tão forte sobre sua cabeça e sentiu um estouro poderoso a menos de quinze metros dele. O chão tremeu, o cavalo correu, e ele próprio desnorteou-se por alguns segundos. Olhou para trás.
A História do Amor Mais Antigo

Na época em que tudo era treva, havia um planeta que era escuro e triste. Era jovem. Dentro dele não havia sombra, porque sequer havia luz para que alguma sombra pudesse surgir. Ele não conhecia a beleza, pois não podia vê-la dentro de si, e o caos de sua superfície não lho permitia enxergar as cores do universo.
Em tempo: Ele tinha uma família.
Seu pai era imenso, e quente. Mas não o acalentava, meramente o mantinha vivo, e ativo. Seus irmãos eram muitos, de diversas idades e tamanhos magníficos. Mas ele não os conhecia. Giravam todos ao redor do pai. O planeta escuro sabia que havia outros, mas sentia-se sempre só.
Como sofriam os outros, sem saber o que fazer.
Pobre planeta. Dentro dele havia um interminável caos. Apenas calor e violência. Havia vida, mas a vida era diferente. Havia energias, e espíritos, de formas e tamanhos incalculáveis.
Seus irmãos eram grandes, pequenos, todos tinham muitas riquezas em si, sem tanta variedade de formas e cores, mas viviam bem deste modo. E apesar de viverem bem, lamentavam que não havia nada que pudessem fazer para mudar o sofrimento do planeta escuro. E ele não podia entender como poderiam os outros se sentir, pois ele próprio não era capaz de entender a si mesmo.
O pai, tão radiante que era, teve uma idéia: dar-lhe companhia. Quem sabe uma companhia não lhe faria mudar. Eis o que fez: com toda a sua grandeza, atraiu um cometa imenso, com muito gelo, para si mesmo e, no momento exato, o planeta Escuro acabaria por acidentalmente interceptá-lo.
Eis o ocorrido: o cometa se chocou com o planeta escuro, e separou dele uma parte, viva, e alva. O gelo do cometa tornara-se um vapor cruel e triste dentro dentro do planeta, mas a outra metade, pequena, esfriou. Toda a violência e caos do planeta escuro que havia dentro dela cessara, e ela o admirou. Como era grandioso!
Ela parou numa distancia que pudesse não causar mal, mas ainda, que sua gravidade lhe pudesse fazer carícias. E foi o que aconteceu. Ela ergueu todo o vapor que havia dentro dele, e fez chuva forte. Chuva intensa e incessante. Muito fogo se apagou, e a poeira e fumaça que lhe cobriam toda a superfície se haviam tornado areia e pó no solo.
Pela primeira vez o calor de seu pai que lhe acalentava a pele escura. E as águas evaporaram-se lentamente para formar nuvens. Quando veio a noite, ele descobriu que uma parte de seu próprio corpo e de seu próprio espírito estava ali, olhando calmamente para ele. Serena e branca. Ela lhe ajudou a ganhar novas cores, essas cores preenchiam formas, e a vida que havia ali ganhou beleza.
O Planeta escuro ficou azul. Verde. Marrom, branco, rosa, preto, vermelho, amarelo, e outras cores que olhos não são capazes de perceber.
Amam-se até os dias de hoje. Há quem diga que giram todos em torno do sol, mas se começar a observar o universo pela amante branca, assim como a Terra, gira toda a galáxia em torno da Lua.
Tarde
Cheguei tarde, sempre chego.
A refeição que eu queria já estava comida.
Chego tarde. Aquela roupa que eu vi já não está mais na loja. Outro veste.
Tarde novamente. Alguém chegou primeiro, e o beijo que eu sonhei adoçava a vida de outro.
To na área!
Eu sei que tudo o que eu sei basicamente descobri que já conhecia antes,
porque nada passou a existir comigo neste mundo que já fluía.
O mundo já girava, e eu caí aqui em meio a essa inércia.
Já cheguei movendo as pernas. Para frente,
hora essa, pra onde mais?
To na área!
No fim da estrada há um penhasco!
No fim da estrada há um penhasco!
Sei do penhasco, não o temo.
Mas até este penhasco, Ah, meu Deus,
Quantas maravilhas.
Ontem passei por esta mesma estrada,
Que lindeza de se ver,
Dois filhos que derrubavam o pai no chão.
Os três que riam.
Que riso! Ah, era lindo.
Ficou lá atrás.
E chovera na estrada.
Caí, me machuquei.
Chorei de dor, tamanha que era.
Gritei!, minha mãe correu até mim.
Me beijou.
Ela está la atrás. Na estrada.
Hoje, meu amor deixou a estrada.
Ai, que esta estrada não lhe mostrara as belezas que me exibe.
Ou não. Quem sabe seus olhos foram cegados pela vida.
Esta flor que vem. Ela vem.
Que linda, ficou para trás.
Não vou esquecê-la.
No fim da estrada há um penhasco, vejo-o!
Posso desviar. Mas o que me faria de mal?
Fora este o meu caminho. Ah, eu sempre soube.
Posso ver, há uma cachoeira de águas brilhantes.
No fundo está minha mãe. E meu amor.
Olhe só, os tantos que me haviam fugido a memória.
No fim da estrada há um penhasco.
Bendito penhasco. Prêmio de minha vida.
Meus pés marcaram o caminho por onde andei:
Saberão me encontrar!
Pois que no fim de tudo há o penhasco:
Sigo aqui.
O ENCONTRO - CENA PARA MEU CURSO DE DRAMATURGIA

LUGAR ALGUM – Pouca luz.
Um homem, em seus quarenta anos, extremamente sujo, está sentado sobre uma pedra que parece um banco. Parece silencioso e contemplativo. Feito estatua a espera de um ultimo golpe da natureza para rompe-la.
Chega-se uma Mulher, quarenta e tantos anos, igualmente suja, o vê.
MULHER: Este banco: Quero-o. Saia agora.
HOMEM: É meu espaço para ver o tempo. Suma, maldita alma penada!
MULHER: Ora, já vago a tempo demais para tolerar tamanha insolência. Você é uma criatura infeliz que não merece nada além de sofrimento e solidão.
HOMEM: E você merece o que? Afeto? Banquetes? O que faz num lugar feito este se tal destino não lhe é merecido?
Olham-se em silencio.
MULHER: Eugéne?
HOMEM: O diabo e seus sortilégios. Quantos anos, eu nem me lembrava que me chamavam dessa forma...
MULHER: Não posso crer que este fora seu destino.
HOMEM: Não fale comigo com intimidade. Sei que quer meu lugar pra se acomodar, demônio sacripanta.
Ela se aproxima dele.
MULHER: Não consegue me reconhecer?
Silêncio.
HOMEM: Hora, nem me lembrava que você tinha existido algum dia. Que surpresa. Estou a anos esbarrando em novos e imortais desafetos. Não esperava encontrá-la. Você eu deixo sentar-se a meu lado.
MULHER: Eu devo estar aqui há uns cinco anos. Nunca tinha encontrado alguém que conhecesse. Pensei que fosse proibido.
HOMEM: Eu já sempre achei que fosse falta de sorte. No mundo sempre existiu mais patifes que outra coisa. Mas me diga Matilda, como anda a vida?
MULHER: Meu nome é Magnólia. Não é Matilda. E minha vida foi uma catástrofe, como sempre. Eu encontrei um noivo, que pouco depois me colocou pra fora de casa. Eu estava grávida. Roubaram-me a criança, e tive que aceitar as condições da vida informal. E você?
HOMEM: Eu vivi bem, como sempre. Marido e pai muito amado. Um chefe respeitado e admirado. Fui enganado, roubaram-me tudo, e eu me matei.
Silêncio.
MULHER: Não pensei que seria diferente disso. Mas devo confessar que não acredito que tenha sido amado por sua esposa e filhos, ou admirado por seus subalternos. Ao contrario. Penso que amava a seu ego, e seu ego lhe retribuía com os prévios elogios cínicos dos que lhe roubaram. Eis o preço, perder a única coisa que realmente prezava. Seu poder.
HOMEM: Você se tornou cruel, Magnólia. Que mal eu lhe fiz?
Silêncio.
MULHER: Meu pai mexia as sobrancelhas desse jeito. Que saudade dele. Eu o odiava. - Me pergunto como você conseguiu morrer e chegar aqui mantendo um anel de ouro no dedo.
Silêncio.
HOMEM: Devo estar aqui, pela minha noção de tempo, há uns 40 anos. Nunca tinha reparado isso. Mas é verdade. Que importância esta aliança tem para fazer parte de mim a ponto de eu trazê-la para este lugar? Não posso pensar em nada.
MULHER: Você amava sua mulher?
HOMEM: No começo. Quando ela era frágil, doce, cheia de curvas. Desejosa. Quando ela não era mãe, mas uma jovem com vergonha de me deixar perceber o quanto se envolvia pelo calor e volume do meu corpo dentro dela. Mas depois ficou gorda. Nunca gostei de mulher gorda. Minha mãe era gorda. Minha mãe dizia que eu era um canalha ordinário. Morreu atropelada por cavalos. Deve ter merecido. E minha esposa, outrora bela, transformou-se num dragão. Uma coisa de aparência rude e modos ofensivos. Feito minha mãe. Via em mim um Deus, sem saber que eu a traia com as jovens mais belas de Paris.
MULHER: Será que não sabia mesmo? Eu sempre soube que você me traia.
Silêncio.
HOMEM: Céus, eu não estava certo. Tivemos um caso!
MULHER: Tivemos um caso?
HOMEM: Sim, tivemos um caso.
Silêncio.
MULHER: Este anel me intriga. Será que ele não está ligado ao motivo que o faz permanecer preso neste lugar sem poder descansar? Porque você está aqui?
HOMEM: Não sei. (tira o anel). Talvez você realmente tenha razão em dizer que eu sou egoísta, pois eu não consigo me lembrar de nada que tenha deixado por acertar.
Ele a entrega o anel.
MULHER: Meu nome está escrito aqui.
HOMEM: (desesperado. Milhões de lembranças lhe vêem a tona) Porque eu iria te pedir em casamento. Porque eu lhe gostava muito, mas Lily me traria mais oportunidades. Então eu apenas lhe entreguei a aliança que seria sua. Com apenas meu nome gravado. Terminei com você. Acabei com tudo. Ela me idolatrava. Você me ofendia. (PAUSA) Eu gostava disso. Sabia que você jamais teria engordado. Sempre soube disso. Isso me mantém aqui, neste lugar, inibido de paz e descanso. Eu fui um monstro com vocês, que ofereceram seus futuros inteiros pra mim. E você, minha querida, o que a mantém neste lugar?
MULHER: Quando terminou comigo, eu estava grávida de você. Meu pai... Arrumou-me um noivo, que descobriu que tudo era uma farsa. Casou-se comigo só para me humilhar e acabar com minha família. Tive de amadurecer na rua, aonde não me restou escolha a não ser vender minha dignidade a quem a quisesse. Numa noite, enquanto quatro homens me possuíam, eu comecei a chorar. Porque naquele momento eu queria estar com meu marido e nosso filho. Mas estes eu jamais saberia onde estavam. Me mataram. - - Você me pergunta o que me mantém presa aqui, eu lhe digo, meu amor. O que me mantém aqui é o fato de que te odiei em cada dia da minha vida, e porque me odiava mais ainda, por saber que eu ainda sonhava estar com você.
A luz sobre eles torna-se forte. Eles viram-se pra se abraçar, mas antes disso, a cena acaba.
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