Nossos caminhos foram diferentes.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

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A gente se surpreende em como descobrimos seres humanos em circunstancias mais improváveis. Nos surpreendemos ainda mais quando descobrimos seres humanos frágeis escondidos dentro de uma montanha, e mais ainda, quando descobrimos que, após alguns anos em que o contato se havia perdido, a pessoa havia partido deste mundo. Mas o importante, já sabemos, é o que fica. Lembranças de conversas breves, risos, e tentativas de se desenvolver uma amizade com uma empatia irresistível, mas um conflito de assuntos difícil de se superar.
O tempo voa, é verdade, mas suas penas, graciosamente caem no caminho para que possamos carinhosamente preservá-las.
Fique com Deus, P.C.F.

O destino de Henrique

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

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Henrique estava preso fazia nove meses e estava ansioso com a chegada do natal. Não estava feliz por ver sua família. Mas havia sido incumbido de realizar uma missão: assassinar um policial. Esta era a regra que teria que obedecer para integrar a facção criminosa de São Paulo, o PCC, e com isto, não ser assassinado dentro da cadeia.

                Henrique fora preso por matar um rapaz de dezenove anos por vingança. Cresceu na Brasilândia, bairro da periferia de São Paulo. Aos dezesseis anos conheceu Helena, com quem teve um filho, Marcos. Quando Henrique completou vinte e dois anos, seu filho tinha cinco.

                Ao contrário do que pensaria qualquer pessoa que ouvisse sua história, Henrique era um rapaz de boa família, classe média baixa. Vivia em casa própria, num bairro humilde, mas um bom bairro. Tinha uma motocicleta, e era com ela que ele estava na noite em que uma tragédia se abateu sobre sua família:

                Ele voltava do trabalho, por volta das dezenove horas, quando foi detido pela polícia, pois sua rua estava interditada. Um bandido estava em um bar, usando uma criança como escudo para fazer ameaças aos moradores. Jamais entendeu a história.

                Havia apenas uma viatura policial naquele momento, e o bandido cortou o pescoço do menino, largou-o no chão, e correu. E ele corria feito um animal que foge de um predador. Alguns tentaram segui-lo, como policiais correndo na viatura. Mas ninguém como Henrique.

                 Quando chegou perto de seu filho, o menino já estava inconsciente. Ele pegou a mesma faca, e correu até sua moto e começou a perseguir.

                Onde acabava o bairro, a favela começava. Lá estava ele, no encalço do bandido, como nem a polícia poderia alcançar. Passou com a moto por cima dele, e então desceu dela. Inconsciente pelo próprio ódio, ele deu uma única facada no coração do rapaz. E a policia surgiu neste momento, e o levou para a delegacia.

                Ao contrário do que pensava, os policiais e o delegado não o trataram mal, e no decorrer do processo, foram categóricos em justificar a insanidade do momento, e isto diminuiu sua pena para poucos anos de reclusão. Mas na cadeia a história fora bem diferente.

                O menino que ele matara era um membro da facção. Um membro irrelevante, percebeu Henrique, mas era um peão na obra do “partido”, e ele teria que substituí-lo. Com o mérito de seu bom comportamento, fora tranquilamente confiado a sair para passar o natal com sua família. Mas seu primeiro compromisso seria ligar à cobrar para um determinado telefone e receber as coordenadas.

                Recebeu um endereço onde um policial vivia, dinheiro e uma motocicleta, para matar e ir embora. Ali ele esperou, com medo, pela chegada do policial. Quando isto aconteceu, ele descobriu se tratar de um dos policiais que o defenderam na morte do assassino de teu filho. Ele deveria matá-lo, ou ele próprio morreria.

                Ele tinha as mãos nos bolsos, e num dos bolsos de seu moletom, um revólver carregado. O policial desceu do carro com um menino pequeno. Henrique puxou o martelo de sua arma, e começou a suar. Matar o assassino de seu filho no calor do momento poderia torná-lo capaz de ser indiferente aos outros, como haviam sido com ele próprio?

                O policial o viu e Henrique sorriu. Largou o revolver e desceu da moto. Cumprimentou-o, e agradeceu por tudo. O policial achou aquilo estranho, mas o abraçou. Henrique partiu para a casa de sua família.

                Fora uma noite feliz. Sua última.

O Conto da Vingança

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

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Havia duas crianças que viviam no meio de um bosque. O bosque estava próximo de uma cidade pequena, e todos sabiam que as crianças ali viviam, e nada faziam por elas.

Em tempo: as crianças estavam mortas. Mortas eram as duas crianças que viviam naquele bosque escuro em que as pessoas não ousavam entrar, porque tinham medo.

Viviam, diziam uns, permaneciam, diziam outros, e outros iam além, dizendo que “assombravam”. Pois que aquelas duas crianças, um menino e uma menina, eram transparentes e, embora não envelhecessem, pareciam interagir com uma rotina sobrenatural bastante curiosa: a menina parecia possuir dons de cura, pois era vista geralmente tratando animais desafortunados que se feriam, ou que fossem molestados por seu irmão.

Sim. Embora seja de conhecimento de muitas pessoas que espíritos não possuam habilidade de interferir no chamado “mundo material”, aquele menino conseguia agarrar pássaros e quebrar suas asas, atirar pedras e dar pauladas em pessoas que encontrasse, sem que nada pudesse causar-lhe quaisquer tipos de injúria.

Por isto é que “viviam” no bosque.

Perguntas não faltavam sobre eles. Ninguém nunca soube quando é que chegaram no bosque, e se ao chegarem ali, já fossem aberrações da natureza ou crianças comuns, pois suas vestes não asseguravam a ninguém um palpite de uma época: estavam nus. Pareciam índios, exceto pelos olhos azuis.

Seus olhos, ao contrário do resto do corpo, não eram transparentes. Eram de carne viva, e flutuavam sinistramente encarando quem os encontrasse. Mesmo os olhos da menina. Apesar de haver bondade em seus gestos, ela carregava no semblante uma expressão odiosa e ainda mais sinistra que a indiferença crapulosa do menino.

Certa vez um garoto da cidade, já adolescente, perdera-se pelo bosque. Teve o infortúnio de encontrar o menino pelado. O menino, sem muita dificuldade surpreendera o adolescente e lhe arrancou os braços. O adolescente sangrou muito, mas a menina o encontrou e o curou.


Grato, o menino lhe trouxera frutas. Ela as recebeu com suspeição. Em pouco tempo, tornara-se um hábito ofertar-lhe frutas. Semanalmente estava o garoto da cidade ali para lhe trazer presentes até que, certa vez, a garota permitiu que suas mãos, que antes lhe atravessavam, conhecessem a textura de sua pele.

O adolescente acariciou-a apaixonadamente, e a profanou, rasgando suas entranhas com brutalidade. Acuada em meio ao choque, não conseguiu retomar sua forma imaterial, e entre seus gritos, fora sufocada. Ele apertava seu pescoço.

O rapaz não fora grato por ela ter-lhe recolocado os braços. Sentia ódio das crianças e foi assim que chegou-se ao ensejo de sua vingança. Enforcou-a até a morte, atraindo o outro menino, que tentou dar-lhe pauladas na cabeça, mas o garoto da cidade percebera que no instante em que era agredido, o corpo do menino do bosque tornava-se derrotável.

Puxou-o pelo pulso e enfiou um estilete nos dois olhos  do menino do bosque, e depois rasgou suas bochechas, deixando à mostra a boca arreganhada da criança. Seus gritos agonizantes, inaudíveis para o menino cujo ódio ensurdecia, não deixaram-no notar que a menina, com sangue escorrendo pelas pernas, havia pegado um tronco fino e rígido e empalara, num golpe rápido, o garoto da cidade, que caíra no chão, violado, ferido e aterrorizado.

Enquanto o menino tirava o galho de seu cu, a menina curava seu irmão. Os dois em pé, vigorosamente transparentes, observaram o jovem gemer no chão, chorando, violado, despido. Com o canivete, o menino do bosque fez um corte profundo no pescoço do garoto da cidade, que sangrou até que seu coração parasse de bater. Ninguém jamais o encontrou.

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Um ano de "O Menino que não podia morrer"

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

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Há um ano atras eu publiquei neste blog o primeiro capítulo do conto "O menino que não podia morrer". Havia começado pensando que terminaria em doze capitulos, sintetizando uma idéia relativamente simples, e o que aconteceu foi que acabou se tornando quase um romance.

Um ano depois, eu to aqui pra aproveitar e dar uma notícia pra quem acessa o blog, e gostou da história. Estou revisando, e trabalhando melhor muita coisa que não soube aproveitar naquela ocasião, e está se tornando, devidamente, um romance do qual eu sinta muito orgulho.

Aproveito também para compartilhar algo. Para fazer esta revisão, eu converti a história para o formato Epub, para que eu pudesse ler em um tablet, com a vantagem de um livro impresso, para depois re-escrevê-lo. E estou aqui para compartilhar isso com quem mais quiser.

http://omeninoquenaopodiamorrer.4shared.com

E quero deixar um pedido a todos que visitam este blog. Eu preciso voltar a produzir mais, porque hoje tenho leitores que se interessam pelas minhas idéias, mas confesso que por uma série de fatores, acabo fazendo bem menos. Escrever um texto que as vezes leva três minutos para ser lido pode muitas vezes me tomar um dia inteiro. É desistimulante ter contar para pagar e criar, enfrentando a vida de uma pessoa normal, fazendo coisas que as pessoas normais apenas apreciam. Meu pedido é até simples: Compartilhem!

Escrevi poesias, cronicas sobre problemas sociais, contos repletos de humor negro, outros de terror e suspense. Sempre tem alguma coisa que um amigo seu pode gostar. Então, indiquem. É o que peço de presente de natal atrasado.

Quanto a revisão, a idéia é que seja um livro para publicar por alguma editora, então, se for para obter lucro com meu trabalho, acho justo me dedicar ainda mais para fazer um acabamento que, escrever e publicar, capitulo por capítulo, não me permitia fazer.

E tem D.I. Project. Desculpem pelo imenso atraso em publicar novos capítulos. Isso vai mudar. Esse fim de semana eu retomo o ritmo.

Um forte abraço a todos, e um 2013 maravilhoso, repleto de boas oportunidades, conquistas, e amadurecimento.

Alex Pedro

O pequeno príncipe

sábado, 29 de dezembro de 2012

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Hoje terminei o livro “O Pequeno Príncipe”, e me flagrei no mesmo estado de graça e insatisfação que senti ao assistir “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. A graça por perceber como existem contadores de história sensíveis, maduros, e não obstante, simples, no mundo. E insatisfeito comigo mesmo por não ter me dado ao trabalho de conhecer essa obra há mais tempo.

Claro que como um ser humano no mundo globalizado, eu cresci sabendo que a obra de Antoine de Saint-Exupéry existia, sabia reconhecer os traços de sua arte e, inclusive, conhecia muitas das frases de efeito de sua obra.

Frases de efeito, isto é o pecado que eu percebi ao terminar o livro.

A história, apesar de simples, carrega significados e exemplifica as fragilidades humanas de uma forma que eu só havia “experimentado” ao ler “A História sem fim”, de Michael Ende. Há um livro para aguçar a imaginação fértil das crianças, e uma jornada repleta de revelações para os adultos observarem a si mesmos.

E nisso tudo, sobram o que as pessoas chamam de frase bonita, frase de efeito... Sublinham, passam adiante, sem de fato experimentar a proposta desses respectivos autores: vivenciar algo único, que somente o coração de uma criança é capaz de tornar real, mas contentando-se em usar, de má fé a sensibilidade do contador de histórias como um mero livro de auto-ajuda. Deixe a auto-ajuda pra quem não sabe contar histórias.

Muitas pessoas choram com o final. Particularmente, achei natural a forma como tudo acontece. É lindo, deixa saudade, mas é feliz.

A morte do Papai Noel

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

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Em algum lugar no interior da Bahia se escondia a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era conhecida por histórias de superação. Natalino Ventura fora um sobrevivente: Tinha dois filhos que passavam o dia sozinhos no sitio em que morava, e certa vez, em época de natal viajou até Itabuna para trabalhar em um comércio.

Com a mesma falta de sorte que lhe trouxera uma mulher que engravidara de gêmeos e desapareceu após seu nascimento, Natalino esbarrou com Cristino Gomes, conhecido por Corisco, cangaceiro famoso e perigoso que estava à paisana pelas bandas de Itabuna. Após uma discussão por motivo fútil, Corisco lhe agrediu com violência.

 Ninguém jamais soube que o homem que o espancara e o deixara desacordado pela rua era o cangaceiro, a não ser este que vos fala. O fato é, Natalino, com vinte e três anos, acordara sem se lembrar de seu nome, seu lar, exceto lembrar-se que tinha alguém à sua espera.

Seus filhos cresceram, com momentos ora de tristeza, ora raiva. Jamais saberiam o que tinha acontecido até que quando completaram sessenta anos, Indaiara, a moça, agora senhora, por quaisquer forças do destino o encontrara pedindo esmolas em uma praça de Itabuna, com uma barba que passava a altura da cintura, cabelos longos, cinzas e embaraçados, e uma marca de espancamento, como um carro amassado, no cocuruto do velho.

Bastaram três dias para que ele estivesse devidamente asseado, e arrumaram-lhe um trabalho. Um shopping de Itaxoxota, que mais parecia uma pequena galeria, precisava de um velho barbudo para representar o Papai Noel.

Lá estava Natalino. Um velho que não calculava informações. Não assimilava o mundo. Uma alma infeliz, por ansiava por reencontrar coisas que já tinha recuperado e não podia reconhecer. Falava, pensava, mas era vazio. Sentia calor com a roupa vermelha, e a poltrona do Papai Noel, embora parecesse bonita, era dura e desconfortável. E então uma menina se sentou em seu colo.

Ele fez como o dono do Shopping orientara, conversava com a menina, e dera-lhe um doce. Houve uma iluminação em sua mente ao olhar tão próximo do rosto da menina.

“Minha filha...” pensou ele, como quem faz a maior descoberta do mundo. Ele tinha duas crianças. As havia deixado para trabalhar. Esta era a causa de sua angústia. O senso de responsabilidade por seus filhos jamais havia desaparecido, e não lembrar que existiam tornara todos os sessenta anos terrivelmente sufocantes.

Seu coração acelerou. Ele precisava procurar, mas onde estariam.

- Qual o seu nome, meu filho? – perguntou ele para outra criança.

- Enoque. – respondeu o menino.

Era o nome de seu filho. Enoque e Indaiara. De repente tudo voltou à tona. Ele sabia quem era, de onde viera, lembrou-se do diabo loiro que o agredira. Mas não se esquecera dos anos que se passaram.

Sentou-se outra criança. Mas sua aflição apenas se atenuava a cada segundo que passava.

“Meu Deus, aquela moça é minha filha. Onde ela está?” ele pensou, lembrando-se do rosto da mulher Indaiara que o havia resgatado das ruas de Itabuna.

Começou a sentir a boca seca.

- Eu passei de ano! – exclamou um menino, orgulhoso. Olhou para o menino, simpático, tentando parecer calmo, embora surgissem pequenas luzes em seus olhos que piscavam incessantes.

Esticou o braço esquerdo para pegar um pirulito, e o doce caiu de sua mão que formigava. Ele abria e fechava, aflito. A boca, mais seca a cada instante, e de repente ele gritou um breve “Ah!”, e derrubou o menino no chão, e caiu em cima dele. Morto.

Um trovão cortou todo o som que havia na cidade. Um raio havia partido a maior árvore da praça principal, que ficava diante do shopping e da igreja. Também o som da árvore fora um estrondo arrepiante.

E as crianças, que eram muitas começaram a gritar. Umas choravam de medo, outras uivavam e apontavam para o velho morto.
“Papai Noel morreu”, gritavam elas.

E a chuva começou. Densa, tornando a manhã ensolarada em uma noite surgida de modo inesperado. Pessoas corriam pelo shopping e gritavam nas ruas que o Papai Noel havia morrido. Uma hora depois, estavam Indaiara e Enoque ao lado de oficiais que retiravam o corpo de Natalino.

Quando o corpo fora levado, todo mundo soube que o nome do homem se chamava Natalino, e que ele era um milagre. Pois não chovia em toda a região fazia quase seis meses. A chuva levou horas, e toda a cidade saiu, sem guarda-chuvas, para senti-la, fria, abundante e abençoada.

Indaiara e Enoque jamais souberam que seu pai se lembrara deles antes da morte, e fora a dor de tê-los deixado esperar tanto tempo, que lhe tomou a vida. 

A Solução de Rodrigo

domingo, 16 de dezembro de 2012

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 "A solução de Rodrigo", conto de minha autoria, foi originalmente publicado no jornal lusitano Horizonte, em 26 de outubro de 2012

         Era parte da rotina de Rodrigo chegar em casa após a escola e encontrar seu pai, Luís, sentado diante da televisão com o controle remoto na mão direita. Mas às vezes ele não estava em casa.

          Às vezes a casa estava sem o ruído  da televisão alta, e isto não era um bom sinal.

          Nestes dias, Rodrigo ia para o quintal e se deitava no chão do quintal, para observar as nuvens. Chicão, o cachorro da raça pastor alemão, lambia-lhe a cara e depois deitava apoiado no peito do garoto.

          As vezes até dormia. E sua mãe, Leila, que trabalhava como cozinheira em casa de família, chegava em casa todos os dias as oito, e o acordava no quintal. Rodrigo alimentava Chicão, tomava banho e começava a estudar. Eis que começava, sempre na mesma ordem:

         Ouvia as correntes que prendiam o portão mexerem; Chicão latindo, furioso; um barulho irritante do portão sacudindo; seu pai gritando seu nome, ou o nome de sua mãe, precedendo sempre uma palavra rude.

          Rodrigo corria em direção à garagem, mas as vezes Leila já estava lá para abrir o cadeado para o marido, que a empurrava com força para que saísse do caminho. Estava bêbado.

          Na última vez, ele agredira Leila com tanta violência, que ela deixara de ir para o trabalho por quase duas semanas. Inventara uma doença qualquer para a patroa. Rodrigo, por sua vez, ligou em segredo para Sílvia, a patroa de sua mãe, para lhe dizer a verdade.

          Com um bolo de cenoura nas mãos, Sílvia viera visitar Leila, e ofereceu-lhe ajuda. Leila agradeceu, porém disse que não seria necessário, pois nada era o que parecia. Sentiu-se traída pelo filho.

          Rodrigo fora repreendido por sua mãe.

          Desta vez Rodrigo olhava para os modos do pai, para as súplicas da mãe, e pensava. Foi até seu quarto e fechou a porta. Leila o chamava. Era sempre assim...

          Ela chamava o filho para apartar a briga. Ele vinha, separava. A mãe chorava, o pai saía outra vez, ou se trancava no quarto.

          Rodrigo tinha 15 anos, e já estava cansado. Foi até a cozinha, onde o pai batia em sua mãe, mas não separou. Olhou a situação e, com um misto de indiferença e raiva, abriu a porta do quintal para que Chicão entrasse.

          Como um raio, o animal entrou casa adentro e voou na perna de Luís, que caiu e tentou dar socos no cão, mas fora novamente mordido, desta vez no braço. Os dentes afundaram na carne do homem, que gritou. A mãe pegara uma vassoura para bater no animal, mas Rodrigo a deteve.

          Colocou o cão no quintal. Seus pais, horrorizados, olhavam-no em silêncio.

          - Se me dão licença, - disse o garoto – preciso estudar.

          E voltou para seu quarto.


Sobre amor, esperança, e o cupido...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

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Seria o coração um tolo,
ou o cupido filho da puta?

Que diferença faz agora?
O coração é tolo, ele sabe.
Conhece o temperamento do cupido,
Conhece seu senso de humor cruel...
E lá está ele.

Dureza é: a flechada, ainda que doa,
traz uma esperança quase libertadora.
Mas dói porque, sabe ele, o coração,
que a esperança é a ultima que morre.



Morre antes dela a lógica,
Morre antes dela o bom senso,
e antes de ambos, às vezes,
morre até o amor próprio.

E a esperança, quando morre, morre deixando o buraco de todo o resto, porque ela impedia o coração de perceber tudo o que perdeu pelo caminho.

Mas quer saber? Foda-se. Ter esperança faz bem, porque a esperança só acaba depois que a própria morte chega.

Pobre Letícia... - para o jornal Horizonte

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

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O conto à seguir foi originalmente publicado no jornal Horizonte, do distrito de Viseu, em Portugal, em 26 de junho de 2012.


Letícia era forte.  Letícia aos treze anos cuidava de três irmãos. Letícia aos quinze anos tornara-se mulher da vida, mas Letícia, aos vinte, encantou um homem.

Letícia fora uma menina delicada, mas Letícia se tornara uma mulher de poucos risos. Era aquele enigma de seus olhos que lhe trazia o sustento, pois Letícia nem mesmo era dona de tanta beleza assim.

Talvez aqueles olhos carregassem mais experiências do que se esperaria em alguém de sua juventude. Afinal, Letícia confiava apenas em sua intuição. O mérito desta sabedoria era conseqüência de sua própria história.

Letícia sempre quis dar conforto a seus irmãos, e lamentava que isto não pudesse acontecer por um trabalho de advogada ou médica. Letícia queria que seus irmãos fossem alguém nessa vida. Doutores em alguma coisa... Quem sabe artistas? Artistas mudam o mundo, trazem riso e fazem pensar. Teria se orgulhado.

Mas a verdade é que seus irmãos na adolescência passaram a envergonhar-se dela. A partir deste dia, nada mais pôde fazer por eles. Apesar de aceitarem seu sustento, rejeitavam seus meios. Ela própria os achava cruéis, mas o que poderia fazer? No final das contas, ela própria não teria se orgulhado de sua mãe se esta se deitasse com homens para sustentar os filhos. Embora se lembrasse que sua mãe havia desistido de viver por não poder sustentá-los.

Frustrada exatamente como sua mãe era, porém, que culpa tinha ela e que culpa teriam eles? Fracasso não enche barriga. Precisavam de comida e carinho, sendo ela feliz ou não.

Quando um homem percebeu que aquele olhar que para o mundo parecia sensual, nada mais era do que uma janela para a tristeza incalculável, não poderia oferecer no mundo nada que pudesse valer ver aqueles dois olhos negros brilharem felizes.

Como poderia ela acreditar que aquele homem sentia algo terno por ela, se ela própria não conhecia esse tipo de encanto?

Ao passo que ela abaixou uma alça de seu sutiã, ele a colocava de volta. Ao invés de se encantar, ela sentiu medo. Pobre homem, que levou tantos meses até que ela se permitisse ver a si mesma como uma boa companhia. Ele lhe pagava para que não dormisse com outros homens. 

Pouco a pouco, pobre Letícia, fora descobrindo que ainda era jovem, e isto não fora nada fácil. Não é simples entender que pode haver vida boa adiante, se não houve vida boa no passado. Nem é fácil descobrir-se alguém especial para os outros se nunca soube ser especial para si mesma.

Conhecê-lo a tornou feliz, de alguma forma. Mas seus irmãos não acreditavam. E o homem apesar de ter uma vida boa, apenas era um trabalhador bem sucedido, não um homem rico. Certo dia seus irmãos partiram. Não haviam sequer despedido dela. Afinal, eles eram do mundo, não eram?

O homem cresceu em seu trabalho, e precisou ir para outro país. Ela se despediu dele. Mas ele nunca se despediu dela. Ela partiu em seu encontro alguns meses depois. Sempre pensando em seus irmãos em toda a viagem, e em todos os anos que se seguiram.

Sempre pensou neles. Nunca mais os viu. Mas foi uma mulher muito amada por seu homem, e uma mãe muito amada pelos filhos que teve.

A lenda do velho que ria, Parte 2

sábado, 24 de novembro de 2012

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Pomba-Gira, por Caio de Figueiredo
                Maria Cristina vivia em um apartamento na Avenida São João fazia quatro anos. Quando o comprou, queria convencer seu namorado, Jorge, a casar-se com ela. Ele, por sua vez, após cinco anos com Maria Cristina, decidiu terminar com o relacionamento. Ela não gostou.

                Ela era divorciada, 52 anos. Jorge tinha 28 anos, era bonito, vigoroso e atlético. Ela, após os trinta passara a ganhas alguns quilos por ano e, agora, estava decidida a buscas ajuda espiritual para manter seu relacionamento.

                Mãe Ciníra de Oxossi era uma macumbeira bastante conhecida. Começara com os trabalhos espirituais por volta dos 12 anos e agora aos 70 era uma mulher rica, guru de pessoas bem-sucedidas e, de fato, muito habilidosa no que se propunha a fazer.

                Quando Maria Cristina procurou Mãe Ciníra, já sabia que ia fazer algo tanto moral, quanto espiritualmente errado. Haveria um despacho, seria em uma encruzilhada, e a sexta-feira mais próxima era curiosamente num dia 13.

                Na noite em questão, Maria Cristina sentia medo e constrangimento. Não queria ser vista por vizinhos fazendo despachos e oferendas. Foi por volta da uma e quarenta da manhã que Mãe Ciníra, já enfurecida, intimidou Maria Cristina a descer e fazer o trabalho.

                Começou com sua chegada na grande avenida. Carregavam uma sacola com um alguidar pequeno, uma garrafa de champagne, cigarros, sete rosas vermelhas, e um par de brincos com um colar. Andariam até a esquina da Avenida São João com a Rua Conselheiro Crispiniano, o cruzamento de três vias mais próximo.

                Antes que chegassem ao Largo do Paissandú, porém, algo aconteceu...

                Como que de uma porta invisível surgida no meio da calçada, surgira um velho bem alto, todo branco com uma bengala e um chapéu Panamá.

                “Minha Nossa Senhora!”, exclamou Maria Cristina. Mas Mãe Ciníra, por sua vez, assustou-se, começou a chiar feito uma panela de pressão e a girar até que, de uma gargalhada, parou e o encarou.

                Maria Cristina olhava assustada para o velho, que aparentemente, a ignorava. Olhava apenas para as sacolas com as oferendas. Mãe Ciníra, com a Pomba-Gira incorporada, batera o pé esquerdo no chão, como se desafiasse o velho. O que Maria Cristina não podia ver era como o velho e a pomba-gira enxergavam um ao outro...

                Havia a avenida, repleta por brumas, com edifícios e postes esmaecidos. Duas mulheres quase imperceptíveis e uma gloriosa negra de cabelos longos e armados, trajando apenas uma imensa saia vermelha, com os seios grandes e belos à mostra. De frente para ela estava a criatura.

                Parecia um tipo de aranha com um corpo hominídeo pendurado próximo ao chão, mas suspenso no que parecia uma teia nebulosa branca que chegava até o céu e se expandia por toda direção. O corpo era de um velho monstruoso, não com braços, mas com muitos tentáculos, e aquele semblante de homem idoso, cuja pele parecia feita de cera de vela.

                Permaneceram encarando-se por quase um minuto, até que a Pomba-Gira bateu o pé esquerdo outra vez. O velho se enfureceu e a agarrou com um de seus tentáculos, apertando-a na altura do estômago e do pescoço. E depois ele riu aquela gargalhada não parecia vir de câmaras de uma garganta, mas de corredores de pedra de alguma caverna nas profundezas do mundo.

                Maria Cristina pôs-se a correr. A Pomba-Gira sumiu, e Mãe Ciníra caiu no chão, morta num enfarto fulminante.

                                                                                                        Continua...

A lenda do velho que ria, Parte 1

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

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                Na Avenida São João, no quarteirão entre o Largo do Paissandu e a Avenida Ipiranga, dizem os moradores de rua, boêmios e prostitutas que um velho branco sinistro aparece em toda noite de dia 13 e nas madrugadas de todos os santos. Sempre entre as duas e três horas da manhã.

                Com uma capa branca encardida, camisa e calça sociais e um chapéu panamá, sua aparência curiosa põe medo em quem já o encontrou. Aquela figura de um metro e noventa, muito magra, tem um rosto pálido, e com uma pele quase artificial similar à textura lisa e brilhante de uma cera de vela.

                O sorriso macabro, de muitas rugas que pareciam parênteses nos cantos da boca até quase o meio das bochechas, era visto por quem o cumprimentasse, embora ele ficasse sempre com a boca fechada, andando como um corcunda, com uma bengala de madeira preta.

                Contam que ele anda de lá pra cá, como se esperasse por algo, ou alguém. Atravessa a avenida e anda ora numa calçada, ora noutra, ora pelo meio da rua. Os transeuntes contam histórias. O mendigo Zé que dorme na largo do Paissandu, próximo à estátua da Mãe Preta, disse que o viu pela primeira vez, e inicialmente se assustou.

                O velho carrancudo e sério lhe fixou dois olhos de órbitas vazias, com um branco profundo. O cachaceiro ofereceu-lhe bebida, o velho sorriu sinistra e simpaticamente, e negou com a cabeça. Zé ouviu aquela risada de boca fechada e seguiu seu caminho.

                Nesta mesma noite, Pâmela, uma travesti que trabalhava na região passou por ali. Inicialmente vendo o velho de longe, pensou ser um potencial cliente, mas ao se aproximar, e ver aqueles olhos brancos, teve vontade de gritar. Contemplou a expressão absurdamente enrugada, sem pensar, perguntou se o velho não gostaria de uma companhia.

                O velho riu, aquele riso medonho que enrugava toda sua face sobrenatural, que parecia uma máscara viva com um sorriso generoso estranhamente maligno. Mas um rapaz jovem, transeunte, que cruzara o caminho do velho não tivera a mesma sorte.

                Luiz andava pela Avenida São João, levemente embriagado, quando viu aquele homem que andava de bengala, e se aproximou, dando um chute na bengala. Por mais apoiado que o velho parecesse, ele não caiu. Ficou intacto. Entretanto, a bengala do chão, levitou-se até a mão do velho, e isto assustou o rapaz.

                Sentindo-se fuzilado por aqueles olhos terríveis, gritou algo que ofendeu ainda mais o velho, que ergueu a bengala e, como se esta fosse uma lança, enfiou-lha no estômago do rapaz, que caiu no chão, gritando de dor e aflição. O velho então escancarou a boca que abria até o meio das bochechas e deu aquela gargalhada de muitas vozes infernais, exibindo dentes longos e pontiagudos que pareciam vidro.

                Enquanto girava e torcia a bengala pelas vísceras do rapaz, aproximou-se até que pudesse puxá-lo pelo pescoço para então, de uma única mordida arrancar seu ombro e engoli-lo. O rapaz caiu no chão, levantou-se e saiu correndo.

                Nada daquilo tinha de fato acontecido.

                Todos relataram suas experiências, sem que quaisquer ouvintes acreditassem, pois demorava até que o velho que ria fosse visto outra vez. 

                Durante anos histórias grotescas de encontros eram repercutidas pelas ruas do centro de São Paulo. Por anos, pessoas foram ameaçadas, cumprimentadas e açoitadas pelo velho que ria. Mas era fato, as histórias mais impressionantes eram justamente aquelas que ninguém nunca ouviu falar.

                                                                                                              Continua... 

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