O Menino que não podia morrer... Capítulo 13

sábado, 24 de março de 2012

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          Tia Rute não gostara nada da saída intempestiva de Gilmar, particularmente porque aquele dia iriam receber uma visita importante. Senhor Heitor viria para buscar o menino Donizete. Partiria com o menino, que a partir de então, chamaria de seu filho.

          O homem chegou em um carro, e nele as duas senhoras subiram com o garoto, e partiram para a cidade. Hortência nunca antes vira um automóvel.  

          Poucos minutos depois da partida, ela percebera um forte alvoroço entre os meninos. Na enfermaria e no quarto, os dois meninos deitados e desacordados suavam, e os membros agitavam-se como se uma corrente elétrica os percorresse de tempo em tempo. Fora assim por um tempo. Desorientada, Hortência corria de um quarto para o outro.

          Laio parara primeiro. E ficou imóvel. Como um espirro de gripe, cuspiu-lhe sangue no rosto. E os músculos do rosto começaram a se contorcer. Lágrimas escorriam pelos olhos fechados daquela criança imutável. Muitas. E o corpo vibrava, como se houvesse uma tentativa de choro contida de algum modo extraordinário.

          “Tia! Tia!” gritou um dos meninos que estavam no quarto com o menino trazido por Gilmar. Angustiada, correu até o outro quarto, e o menino estava de olhos abertos e a olhou com uma força que a arrepiou por inteira. Suas pupilas eram de um negro profundo, e ali ela mergulhara por um deslumbre aterrorizante aonde um Ser imenso a erguia do chão e com os braços, a partia viva, dividindo-a em duas partes. 

          “HORTÊNCIA!”, gritou Gilmar, fazendo-a sair de um estado de choque. Ele olhou e o menino estava olhando para ela. Ela correu até o outro quarto. Laio estava adormecido, calmo. Suado. Ela enxugou sua testa.

          “Os dois começaram a se sacudir juntos...” dissera um menino, apavorado. O orfanato pareceu estar em estado de pânico.

          - Esse sangue? – perguntou o rapaz. Ela tocou no próprio rosto e percebeu o cuspe do garoto. Ela não respondeu. Ficou enxugando Laio, transtornada.

          Gilmar fora até o outro quarto. O menino estava sentado, olhando para os outros, sorrindo, feito qualquer outra criança. Gilmar se agachou, e o encarou. O menino sorriu.

          “Calma, elas não saberão. Todos eles vão dormir daqui a pouco e não se lembrarão de nada.”

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Pessoas estranhas.

quinta-feira, 22 de março de 2012

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Pessoas estranhas usam avatares.
Não importa que sejam especiais, nem importa que sejam notáveis,
Elas temem a si mesmas, se apresentam com mitos, surpreendem o mundo, e se escondem na concha.

Você pode se encantar. Cuidado.
Pessoas estranhas são assim! Elas são como você sempre quis.
Pessoas estranhas nos confundem. Podem ser estranhas para o mundo e perfeitas pra você. Mas elas entendem isso?

Pessoas estranhas são confusas.
Elas são destemidas, determinadas, e buscam seus sonhos.
Algumas realizam, outras fazem de conta que vivem neles, e são de realezas variadas, com coroas reluzentes que mais ninguém vê.

Pessoas estranhas usam avatares.
Isso dói, mas o que se pode fazer?

Os retalhos da controversa história de Jennifer Christinny

quarta-feira, 21 de março de 2012

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Neste episódio da série sobre Itaxoxota do Norte eu não quis usar xilogravura porque o personagem em questão tem poder! riqueza! e glamour!




         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por sua diversidade. Um de seus filhos mais importantes era o menino Joelson, que na vida adulta seria mundialmente conhecido como Jennifer Christinny.

          Joelson era uma bichinha que crescera na Calça do Saci, bairro da zona oeste de Itaxoxota do Norte. Lá Joelson apanhara de muitos moleques desajeitados. Joelson assistia na televisão aos shows de Sarajane, e sabia que um dia iria brilhar.

          Joelson vestia o sutiã de sua mãe, colocava uma cueca embolada em cada lado, segurava o pote de xampu, passava o batom de maínha na boca, nas bochechas e nos olhos, ligava o k7 e “Abre a rodinha por favor, abre a rodinha meu amor”.  Certa vez quatro garotos da escola quebraram a janela, e o flagraram. Atiraram ovos e depois tiraram fotos.

          Joelson, pobre menino, não quis mais ir para a escola. Acabou não indo mesmo. Fugiu pra Salvador, aonde se juntou com uma gangue de crianças malandras. Os meninos foram dar uma surra nele, sem saber que Joelson era um capoeirista desde os 4 anos, e aos doze, com raiva dos meninos que lhe atiraram ovos e chamavam de baitola, ficou macho. Não macho de macho, macho de bravo.

          Joelson sentia tanta raiva, que batia em todo mundo. Certa fez foi assaltar, e havia uma negra importada de algum país da Europa, e estava com uma amiga brasileira. Ele ouviu o nome da negra. Jennifer. Ela era tão bonita que ele não quis roubar. Roubou o nome. Joelson agora era Jennifer. Deixou crescer os cabelos, começou a roubar hormônio na farmácia.

          Nasceram peitinhos. Jennifer roubava agora apenas roupas, maquiagem, comida e hormônios. Ainda ouvia Sarajane, Daniela Mercury e Madonna. Aos 16 ela ficou loira e começou a cantar Axé.

          Macumbeira como era, Jennifer apelou aos orixás pra dar certo, e fez um hit de sucesso, segundo contam, escrito por sua cigana, que ganhou o país, depois fez duetos com Daniela Mercury, cantou com a Xuxa, participou de um especial do Roberto Carlos, gravou ao lado de Fábio Junior(com quem dizem ter tido um romance secreto) e ajudou a alavancar a carreira de Ivete Sangalo com o hit “Tiri-dam-tam-tam”(tiri-dam tam-tam, tiri-dam, tam-tam, córáção acéléra por vócê), composição sua. Jennifer Christinny gravou recentemente o single “Breathless love/Esse amorzinho gostoso da gente“ ao lado da cantora estadunidense Beyoncé.

          Uma grande polemica envolveu seu nome quando certa vez, foi parar em uma delegacia. Segundo contam os rumores, o cantor Léo Santana, seu suposto ex-namorado, numa brincadeira supostamente inocente a chamou de Joelson e teve seu braço esquerdo quebrado pela cantora.  

          Jennifer havia conversado com o presidente Lula, certa vez, num churrasco na Granja do Torto, onde teria perguntado como poderia fazer para comprar a cidade de Itaxoxota do Norte. Seu maior sonho era poder chamar a cidade de sua, e incendiá-la com todo mundo dentro.

[PESSOAL, DÁ UMA COMENTADA PRA EU SABER DA REAÇÃO]
CONHEÇA OUTROS PERSONAGENS DE ITAXOXOTA
A imagem é meramente ilustrativa. Trata-se de uma fotografia do cantor inglês Robbie Williams para seu videoclipe "She is Madonna".

O Menino que não podia morrer... Capítulo 12

sábado, 17 de março de 2012

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          Sem muita satisfação, Gilmar montou no cavalo e partiu. Pela estrada, ele percebeu que terra vibrava com as passadas do cavalo, e percebeu as árvores chacoalhando. Ouvira som de urubus. A seu redor, sombras gigantes das aves sob um sol quente.
          Quando olhou para cima, vira onze crianças, aparentemente mortas, voarem como a ave, poucos metros a sua distância, boquiaberto com o choque, uma gota de sangue quente pingou em sua testa e, no susto, sacudira a cabeça. Era apenas uma ilusão.
          Minutos depois ele estava na praça da cidade, a caminho da igreja.
          Estava aberta. Poucos fiéis. O padre estava diante do altar. Ele se aproximou do altar e pela primeira vez abriu seu desenho. Uma corrente de ar forte escancarou as portas da igreja, apagando velas pelo corredor, e o círio pascal, que fez com que o padre imediatamente olhasse para o rapaz e se detivesse no desenho no papel.
          “Isso é hebraico...”, murmurou o Padre, idoso. Olhou para Gilmar, intrigado. “Onde encontrou?”
          - Estava gravado no taco, embaixo da cama do Laio.
          - O menino que não acorda?
          Um coroinha passou pelo altar, cabisbaixo, dobrando a toalha bordada, e recolhendo os castiçais. É o menino que Gilmar recolhera na floresta. Encara-lhe com severidade e vira-se. Gilmar se assusta, e ele olha de volta. Não se tratava da mesma criança. Devia estar ficando louco.
          - O desenho das letras é bonito, não é? – disse o rapaz.
          - Sim, mas eu achava que Tia Rute era apenas uma benzedeira. Gravar oração em hebraico no chão é muito estranho.
          - Mas hebraico não é uma língua boa?
          - Não existe língua boa ou ruim, meu filho. Existem palavras, elas sim têm poder, carregam intenções, e podem ser classificadas de alguma maneira. Não sei o que está escrito aqui, meu filho, mas sei quem pode me ajudar a ler isso aqui. – Olha para o círio pascal, com um suave fio de fumaça. Toca na testa de Gilmar e nela desenha uma pequena cruz. Volta a atenção para o círio pascal, e olha depois nos olhos do rapaz. – Evite a raiva. Evitá-la é uma forma de equilibrar a mente, e neutralizá-la do medo que o mal planta no coração. A ameaça quando vem, vem com a gente tendo medo ou não. Não tê-lo é um passo para que a inteligência fique livre durante a ameaça. Vá com Deus meu filho.
          O padre toma o papel das mãos de Gilmar e se retira. O rapaz olha para a imagem de Nossa Senhora, se curva, e põe-se a rezar, para minutos depois, partir de volta para o Lar.

[SABADO QUE VEM TEM MAIS - 24/03]
PESSOAL, NÃO ESQUEÇAM DE DEIXAR COMENTÁRIOS, PRA EU SABER SE ESTÃO ACHANDO BOM, LEGAL, UMA PORCARIA. PRA EU TER UMA IDÉIA DE ONDE EU ACERTO, ONDE EU ERRO, ENFIM.

As desventuras de Seu Lili e seus filhos na conflictuosa cidade de Itaxoxota no Norte

quinta-feira, 15 de março de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por suas diferenças sociais. Tinha gente rica, tinha gente bonita e bem sucedida, mas tinha quem não conseguisse sair da merda. Seu Lili era um deles, quase um cogumelo, nascido e crescido na bosta. Seus filhos eram todos boçaizinhos também. Desde crianças adoravam tomar Danone na casa dos vizinhos.

          Seu Lili tinha conta pendurada em quase todos os estabelecimentos da cidade. Alias, adorava quando um novo abria, porque em geral, os outros já não o aceitavam mais. Seu Lili não era vagabundo, ele na verdade era preguiçoso. Seu maior sonho era descobrir o marketing de rede perfeito. 

          Seus filhos eram três. Tinha Lisauvandra uma menina feia na infância, mas que viria a mais tarde se casar com um coronel e se mudaria para Salvador, Eliomar, que era um menino feio na infância, e feio nas demais fases também, e Marlene, que era bonita e futuramente largaria Itaxoxota para trabalhar em São Paulo(honestamente, que seja dito!).

          Eliomar adorava contar vantagem. Ele era um menino que na adolescência era o pegador de seu bairro. Jogava bem futebol, e adorava dar tapa na cabeça dos veadinhos da escola. Ninguém sabia, mas a verdade é que ele sempre achara Miguel, o mais gayzinho da turma, uma coisinha linda. Mas batia sempre.

          Pra felicidade de Miguel, Eliomar cresceu e, se na adolescência já não era bonito, aos vinte e poucos, ele ficara mais feio ainda, espinhento, com alguns quilos a mais, e, aos vinte e cinco anos, sem os dentes da frente(macho como era, não abria mão de uma boa briga).

          Certa noite, alcoolizado, lá pelos dezessete, dezoito anos, Eliomar procurou Miguel, que partiria para morar com a mãe no sul do Brasil, lá no Rio de Janeiro, e declarou sua paixão. Miguel o chamou de bicha, mandou tomar no cú, e nunca mais se falaram.

          Eliomar, chorando, foi consolado por Cleonice. Na época ela tinha doze ou treze anos. Aos vinte e oito engravidou Leôa, filha de Ariovaldo. Na época a moça tinha 14 anos, já tinha o corpo todo ajeitadinho e abusava bem disso. Seu pai obrigou Eliomar a casar com sua filha. Mas isso é outra história.

          Lisauvandra era gorda e feia. Isso é tudo o que se precisa saber sobre ela. Metida que só. Adorava passar o dia na casa das amigas, e criava intimidade fácil. A primeira visita já bastava para deixá-la à vontade o bastante para a abrir a geladeira da casa das pessoas ou fuçar armários a procura de bolachas recheadas. 

          Aos treze anos, Lisauvandra ficou loira. Era agora gorda, feia e loira. Todo mundo achava ela feia de doer. Meio porca. Não penteava bem os cabelos e nem sempre escovava os dentes. Mas se achava tão melhor que as outras meninas, que acabou, pela auto-confiança, ficando popular na escola. 

          Lisauvandra sonhava com Helinho, que era o menino mais bonito da escola. Mas ele, apesar de bonito, tinha bom coração. Ela, despeitada, começou a acusá-lo de ser bicha, e ficou com muita inveja quando soube que ele estava apaixonado por Bonitinha, a filha do prefeito.

          Lisauvandra até entrou pra academia pra tentar conquistá-lo, mas sem sucesso. Em contrapartida, na academia ela conheceu Adamastor, e depois que se exercitou nele, nunca mais quis outro. E esnobe como era, adorava enxotá-lo, e ele com o tempo foi ficando apaixonado. O tempo passou e ela continuou gorda, feia, e soberba. Até que arrumou emprego de faxineira na casa de Coronel Ordônio e engravidou do velho. Mudou-se pra Salvador.

          Marlene era uma grande vítima. Perceba que eu próprio me referi aos filhos de Seu Lili como boçaizinhos, pelo injusto hábito da generalização. Era sempre vítima, pobrezinha. Era a chata da família, a rabugenta, a ranzinza e rancorosa, pelo simples fato de que queria ser alguém na vida. Na infância ela estudou, na adolescência ela estudou, e quando moça, mandou seu pai à merda e partiu para São Paulo.  

          Fora guardete em uma agência de banco por dois anos, até que conseguiu virar professora. Mas seu grande objetivo era descobrir o paradeiro de sua mãe. Apesar de seu pai e seus irmãos nutrirem uma forte raiva por sua mãe desaparecida, ela a via como uma mulher determinada e perseverante: ela própria teria abandonado a família. Com tal pai, seria difícil imaginar que os filhos pudessem crescer e virar qualquer coisa além de medíocres.

          Mas voltando a Seu Lili, as pessoas se comoviam com sua dificuldade, até descobrir que as dividas nas mercearias eram por conta de arroz, feijão, carne, farinha, ovo, cerveja, cachaça, rapadura, bolacha recheada, leite condensado, refrigerante, sorvete, têta-de-nêga, pé-de-moleque, e outras coisas que dá pra viver sem.

          E nunca mudaria? Depois de se decepcionar com tantos marketings de rede, decidiu abrir uma igreja na cidade, pra concorrer com a paróquia de São Jesus Cristinho. Prosperou, mas isso, ah, isso é outra história.

O Tempo

segunda-feira, 12 de março de 2012

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Onde nasce o mistério?
Onde começa minha dúvida?
Onde cresce nosso saber?

Ah, o Tempo, tão velho.
Tempo, testemunha silenciosa.
Silencioso, ele observa.
Observador, é indiferente.

Uns nascem, outros morrem,
Uns nascem e tomam o espaço de outros.
Uns são maus, outros não.
Que diferença isto faz para o Tempo?
Velho tempo...
Tempo! Será que existe?

Eu vivi tanta coisa, mas e se não houver testemunhas?
Se eu próprio esquecer de algo?
Terei eu vivido aquilo que se consome pelo esquecimento?
Não seria o esquecimento a incontestável prova de que não há passado nem futuro?

Ah, Tempo calado,
Velho indiferente.
Egoísta? Não, talvés ele saiba de nossa irrelevância.
Talves nos admire pela obsessão em nos registrar por sua pele,
Talves goste de quem consiga, talvés não.
Talvés ele nem exista,
Ou quiçá seriamos nós próprios fruto de sua alucinação.

O que sei é que gosto de Ser.
Sei que o Tempo se não for meu amigo, é então indiferente.
Porque o Tempo ja existia, e o Tempo é a única estrada,
e o Tempo há de continuar quando nossas pernas cansarem.

E quando as pernas cansarem, a única coisa que há de importar é justamente o Tempo,
E tudo aquilo que fizemos com ele.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 11

domingo, 11 de março de 2012

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          Quando Dona Lira partira para a cozinha, Tia Rute permanecera no quarto por mais um minuto até respirar fundo, desafiada, e levantar-se, limitadamente, e andar devagar até a porta, cuja mão áspera e enrugada envolvera vagarosamente a maçaneta e a abaixou. Fazia onze dias que ela não saia do quarto, não fosse para banho, e necessidades, sempre sendo rendida por Dona Lira.

          Pelo corredor ela andou lenta, e olhando fixa para a direção da cozinha. Seus passos eram silenciosos, mas o assoalho rangeu, e com isso, Hortência, igualmente sorrateira colocara a cabeça para fora de um dos quartos e vira a velha andando. Angustiada, pelas pontas dos pés, ela andou até a janela do quarto em que estava, e ao passo que as crianças corriam, Gilmar cortava lenha, com péssimo humor. Ela fez-lhe sinal, mas ele não notara. Atirou então um de seus sapatos.

          Gilmar aproximou, e ela apenas moveu os lábios “As duas deixaram o quarto”.

          Ao saber disso, Gilmar correra até sua cabana, pegara um pedaço grande de papel e um giz de cera, e voltara até a mesma janela, e a pulara sorrateiro. Com passos felinos, ele e Hortência cruzaram o corredor deserto e entraram no quarto aonde os dois meninos repousavam.

          O rapaz debruçou-se embaixo da cama, tateou a marca e esticou o papel e começou a, silenciosamente, registrar o baixo relevo na folha que anteriormente havia embalado qualquer alimento. Ao terminar, batera com as costas na cama, e houve um estrondo.

          Da cozinha, Tia Rute e Dona Lira ouvem. Correm até o quarto. Quando Dona Lira se aproxima do batente ela vê: Gilmar se levanta do chão, devagar e nos braços ergue o menino que havia encontrado no mato, e Hortência levantando o colchão. Ele o carrega até outro quarto, com seis camas, e o deita em uma. Hortência lhe entrega o colchão. Ele o acomoda e coloca o menino, quando se levanta, Tia Rute passa pelo batente do quarto.

          - O que é isso que você tem guardado?

          - Como disse? – indagou o rapaz, desconversando.

          - Nas costas. Quero ver.

          - A senhora não iria gostar...

          - Isso cabe a mim julgar.

          - É verdade, mas eu não faço a menor questão de te mostrar. Se me dá licença, preciso cortar mais lenha para o fogão.

          Saiu do quarto. Dona Lira o seguiu.

           - Gilmar, peça desculpas pra tia Rute. – ela parecia preocupada.

           - O que foi que sumiu? – indagou ele, ríspido.

           - Do que fala? – ela não entendeu. Havia uma nota de súplica contida em sua discrição.

           - Ela desconfia de mim, o que sumiu?

            - Não sumiu nada, meu querido. Apenas peça desculpas, não quero que ela fique com raiva de você.
   
           - Não ligo.
  
           Dona Lira tocou no braço de Gilmar.
    
           - Tudo bem, meu querido. Mas não seja ríspido com ela. Ela é velha.
            
          Gilmar saiu da cozinha. Ela olhou para suas costas, musculosas e suadas. Ela o desejava, mas sabia que era velha para ele, e ele era algo que jamais seria seu.

 [A PARTIR DA PRÓXIMA SEMANA O MENINO QUE NÃO PODIA MORRER SERÁ POSTADO AOS SÁBADOS AO INVÉS DE DOMINGOS]
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Mulá Nasruddin e a verdade

quinta-feira, 8 de março de 2012

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“Estas leis não tornam melhores as pessoas”, disse Nasrudin ao Rei; “elas devem praticar certas coisas de forma a sintonizarem-se com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente.”
O Rei decidiu que poderia fazer que as pessoas observassem a verdade – e o faria. Ele poderia fazê-las praticar a autenticidade.
O acesso a sua cidade era feito por uma ponte, sobre a qual o Rei ordenou que fosse construída uma forca.
Quando os portões foram abertos ao alvorecer do dia seguinte, o Capitão da Guarda estava postado à frente de um pelotão para averiguar todos os que ali entrassem.
Um édito foi proclamado: “Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso permitido. Se mentir, será enforcado.”
Nasrudin deu um passo à frente.
“Aonde vai?”
“Estou a caminho da forca”, respondeu Nasrudin calmamente.
“Não acreditamos em você!”
“Muito bem, se estiver mentindo, enforquem-me!”
“Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!”
“Isso mesmo: agora sabem o que é a verdade: a sua verdade!”

texto copiado do blog Inconsciente Coletivo. Vale a visita, vale acompanhar : ) 

O Menino que não podia morrer... Capítulo 10

domingo, 4 de março de 2012

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Setembro, dia vinte e quatro, 1929. 

          Estava Laio deitado, febril, num sono inquieto, e em cada lado La cama havia uma pessoa. Tia Rute do Lado esquerdo, e Dona Lira do lado direito. E ambas as senhoras pressentiam que pudesse haver mais alguém em sob os pés da cama.

          Dona Lira trocava compressas, enquanto Rute olhava com silenciosa raiva para o menino trazido por Gilmar.

          - Esse menino tem que sair desse quarto. Ele atrapalha. – disse Tia Rute, com uma voz quase masculina.

          - Não sei se ele deveria ser o único a sair daqui. – diz Dona Lira. Silêncio. As duas olham-se. – Não acha, titia?

          - Eu me pergunto o que tem acontecido com você, Lira. Não tem parecido feliz faz um tempo.

          - Faz um tempo... – disse a si mesma, com olhar perdido. – Lembro-me quando minha mãe era viva, e eu era moça, quisera levar-me para tomar uma vacina, mas sempre tive medo de agulhas. Ela me dissera que iríamos na casa da prima Luiza, que nos convidara para um café com algum bolo. Eu gostava de visitar a prima Luiza, porque tínhamos boa conversa e ela sempre me ensinou muito.

          - Era muito arrogante... – Tia Rute a interrompeu, embora Dona Lira demonstrara não tê-la ouvido.

           - E cozinhava divinamente. O fato é, quando fui tomar a vacina, ela me deu efeito negativo, e adoeci. De fato passamos por prima Luiza e, devido a mina fraqueza, permaneci em sua casa, e com ela conversei. Na ocasião, ela me ensinara palavras de francês, e contara-me muitas histórias. Mas com tudo isso, até hoje meu braço dói, e a doença da qual quiseram me prevenir nem mais existe.

          - E porque diz isso? – indagou a velha, dando pouca importância.

          - Porque às vezes com um prêmio vem alguma cláusula omitida. E podemos nos arrepender.

          Silêncio. Olham-se sem piscar, inexpressivas, por longos segundos.

          - Teme que você possa se arrepender?

          Novamente o silêncio. Uma queria entender a outra, e embora confiassem mutuamente, havia algo errado.

          - Não foi o que eu disse, titia. Temo - - que certas coisas sejam irreversíveis, e muitas escolhas afetam mais do que apenas as nossas vidas. Temo que “nós” possamos nos arrepender.

          Batem na porta. “Entre”, diz Dona Lira. Hortência trás duas canecas com café.

          - Truxe café pra vocês, - diz a moça – ta quentinho. – Serve às senhoras.

          - Agradeço, querida. – disse Dona Lira.

          - Você e o Gilmar depois vão levar esse menino pro quarto com os outros. Eu não sei o que ele tem não quero que passe pra esse. – disse Tia Rute sem desviar os olhos de sua sobrinha.

          - Sim, senhora. ‘Cênça. – e sai do quarto.

          - Você tem dúvidas? – pergunta a mais velha.

          - Absolutamente não. – diz Lira. Toma um gole de café calmamente. O aprecia. - Apenas é um fato, e a senhora mesma deveria ser humilde e reconhecer que pode se arrepender disso.

          - Não se nega os pais, Lira.

          - Precisamente. Se me dá licença, vou preparar o almoço.

          Dona Lira levanta-se do banquinho, passa perto do menino no chão. Abaixa-se e o olha com curiosidade. Respira fundo. Estava cansada. Levanta-se e sai do quarto.

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O Menino que não podia morrer... Capítulo 9

domingo, 26 de fevereiro de 2012

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ATENÇÃO, NOS DOIS PRIMEIROS PARÁGRAFOS A UMA SEQUÊNCIA DE SEXO BASTANTE DESCRITIVA, POR TANTO, PARA NÃO OFENDER ALGUÉM QUE GOSTE DA HISTÓRIA MAS NÃO TOLERE TEXTOS PICANTES, AVISO DADO. DO TERCEIRO EM DIANTE TA PRA FAMÍLIA, RISOS.

          Hortência estava nua dentro da tina com água morna. Em pé, derramava água quente pelos seios, e a espuma escorria pelas curvas de seu corpo, que se arrepiava sob o toque da menor brisa. E fora esta a visão de Gilmar ao chegar assustado da floresta. Ele arrancou a própria camisa sem desabotoar, e ajoelhou-se diante da garota. Beijou-lhe os pêlos pubianos, e esticou a língua para, com um único movimento, tocá-la em sua intimidade.

          A barriga de Hortência contraiu-se e, acompanhado por este gesto, um sopro intenso de sua respiração ofegante. Ele mergulhou com sua língua e saliva na garota, enquanto suas mãos acariciavam suas pernas e seus seios. Ela agarrou os cabelos enrolados de Gilmar com as duas mãos e contorceu-se. Ela se agachou e, tendo-o entre as pernas, empalou-se.

          Enquanto ele a pressionava com seus braços, ela o arranhava nas costas, e seus beijos, longos, intensos, interrompidos por sussurros e gemidos, eram observados pela janela por quatro garotos, silenciosos, ansiosos.

          Quarenta minutos depois, Gilmar estava deitado, e Hortência com a cabeça em seu ombro, o corpo sobre o dele, ficaram em silêncio. Gilmar queria falar sobre suas experiências, e sobre como encontrara o menino. Hortência queria falar sobre o que havia acontecido quando movera a cama.

          - E elas não mudaram a cama? – perguntou o rapaz. Hortência, irrequieta, sentou-se na cama, enrolada no lençol, e começou a falar

          - Ai, Gilmar, isso é tão estranho. Elas não quiseram de forma alguma. Não entendo. Saíram assim que você partiu. Decidi mudar. Aconteceu algo estranho. Estavam dois dos meninos comigo. Era como se tivesse mais alguém no quarto. Adulto, entende? Quando arrastamos a cama com o Lélio em cima, encontramos um negocio no chão. O Júlio me disse “Ponha a cama no lugar”. Alias, ele me deu uma ordem, e olhou pra mim como eu nunca vi alguém olhar. Ele repetiu, como se me ameaçasse, era como se me tocassem no ombro, e alguma coisa aconteceu com o Mauricio. Ele começou a gritar de um jeito esquisito. Eu bati no Júlio, e era como se ele estivesse desligado quando falou comigo.

          - E você sentiu medo?

          - Isso é estranho. Eu não senti medo, mas senti que deveria ter sentido...

          - E o que tinha no chão?

          - Era alguma mandinga de alguma das velhas. Pra curar o menino, acho. Mas foi um negócio tão forte que eu senti. Como se o quarto escurecesse... Era coisa escrita no chão, formando um desenho.

          - Hortência, será que não era alguma coisa ruim não?

          - Ruim ‘cê diz, coisa do diabo? – arrepiou-se a moça, que passou as mãos nos braços para conter os pelos que se haviam arrepiado. – Acho que não. Elas cuidam da gente. As vezes é coisa de Deus. Deus é mal as vezes, não é? E a gente não entende, porque o propósito dele é maior que o saber da gente...

          - Deus é bom, o diabo que é ruim.

          - Não, Gilmar, eu não quis dizer disso. Deus às vezes não é fácil de entender, entende? Como quando Jesus fala que ele é generoso e nos dá liberdade, mas pede pra Abraão matar o filho pra provar que é fiel. Se ele conhece a gente, devia saber da fé do Abraão sem isso, então, devia ter jogo que a gente não entende no meio disso tudo. Parece coisa diferente, mas é porque a gente não entende. Tipo quando ele mandou matar não lembro que povo porque pecava demais. Ele é misericordioso, né? Quem sabe não era pelo povo que ele fez, mas por algum outro motivo. Afinal, ele perdoa e entende a gente melhor que a gente mesmo... Não é?

          - Não sei. Como você disse, a gente não entende. Talvez até seja melhor assim... Quero ver o que tem debaixo da cama. Tem alguma coisa errada acontecendo.
[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 04/03]
[QUARTA MAIS UM CONTO DA BAHIA]

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A Fascinante Jornada de Dona Satanilda

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

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ATENÇÃO: ESTE CONTO TEM LINGUAGEM E HUMOR APELATIVOS E PODE OFENDER UM LEITOR DESAVISADO. DADO O RECADO, BOA LEITURA!

         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por suas opções de lazer. A mais famosa era, evidentemente, a casa noturna Dona Quixota.

         Administrada por Dona Satanilda, Dona Quixota propunha-se a oferecer as baianas mais quentes de todo o Brasil. O que evidentemente era um choque para o povo da cidadezinha. De fato, as únicas baianas bonitas da cidade eram as meretrizes de Dona Satanilda. Negras de traseiros imensos e coxas roliças, outras mais claras, peitudas e estonteantes.

         Dona Satanilda não era puta... Mas podia ser. Tinha cor de café com leite, e desfilava seus peitos grandes, já um pouco moles, mas não menos cobiçados por isso, e suas coxas... Que coxas... Que mulher de quase cinqüenta tem pernas como as de Dona Satanilda?

          “Muié boua..., delícia... Descascava e chupava todinha...” diziam os cabras itaxoxotenses.

          “Vagabunda, ordiária, desavergonhada, despudorada, vendida, demoníaca”, diziam as distintas senhoras de Itaxoxota.

         Ela não era bem aceita, e as mulheres, grandes religiosas, sofreram muito ao dotar-se do conhecimento de que a casa noturna Dona Quixota dizimava a maior contribuição mensal para a paróquia de São Jesus Cristinho.

          “Como o senhor aceita dinheiro da filha do diabo?”, era o que o Padre ouvia, das paroquianas.

         O Padre tinha suas crenças, mas a igreja tinha suas necessidades, então ele fazia vista grossa para os rumores...

         Quando jovem, a família de Satanilda fora vitima de cangaceiros. Ela fez pacto com o diabo, e matou todos os cangaceiros. Desapareceu, voltou, e trouxe consigo algumas vadias estradeiras.

         Organizada como era, ela administrava o que as vadias recebiam, e em menos de três meses elas deixaram de transar embaixo de arvores ou bancos de praça para alugar uma casa pequena.

         Empreendedora, essa é Marinilda de Souza Cavalcante Mendonça de Silva e Carvalho, posteriormente chamada de Satanilda.

         E as putas eram oito. Seis morreram, porque eram encrenqueiras e tomaram tiro de mulher casada, outra virou crente e desapareceu. A outra, era Marivalda Ivonete de Santos, que virou sócia de Satanilda, e adotou o nome de Dona Consugrelo, cuida do Recanto do Marido Feliz, centro de lazer que possui em sociedade com Satanilda na cidade de Serro Azul.

         Aos poucos conseguiram putas que não fossem feias, e progrediram.

          “Nem as praia de Salvadô é mais paraíso que as minhas menina!”


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