O Tempo

segunda-feira, 12 de março de 2012

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Onde nasce o mistério?
Onde começa minha dúvida?
Onde cresce nosso saber?

Ah, o Tempo, tão velho.
Tempo, testemunha silenciosa.
Silencioso, ele observa.
Observador, é indiferente.

Uns nascem, outros morrem,
Uns nascem e tomam o espaço de outros.
Uns são maus, outros não.
Que diferença isto faz para o Tempo?
Velho tempo...
Tempo! Será que existe?

Eu vivi tanta coisa, mas e se não houver testemunhas?
Se eu próprio esquecer de algo?
Terei eu vivido aquilo que se consome pelo esquecimento?
Não seria o esquecimento a incontestável prova de que não há passado nem futuro?

Ah, Tempo calado,
Velho indiferente.
Egoísta? Não, talvés ele saiba de nossa irrelevância.
Talves nos admire pela obsessão em nos registrar por sua pele,
Talves goste de quem consiga, talvés não.
Talvés ele nem exista,
Ou quiçá seriamos nós próprios fruto de sua alucinação.

O que sei é que gosto de Ser.
Sei que o Tempo se não for meu amigo, é então indiferente.
Porque o Tempo ja existia, e o Tempo é a única estrada,
e o Tempo há de continuar quando nossas pernas cansarem.

E quando as pernas cansarem, a única coisa que há de importar é justamente o Tempo,
E tudo aquilo que fizemos com ele.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 11

domingo, 11 de março de 2012

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          Quando Dona Lira partira para a cozinha, Tia Rute permanecera no quarto por mais um minuto até respirar fundo, desafiada, e levantar-se, limitadamente, e andar devagar até a porta, cuja mão áspera e enrugada envolvera vagarosamente a maçaneta e a abaixou. Fazia onze dias que ela não saia do quarto, não fosse para banho, e necessidades, sempre sendo rendida por Dona Lira.

          Pelo corredor ela andou lenta, e olhando fixa para a direção da cozinha. Seus passos eram silenciosos, mas o assoalho rangeu, e com isso, Hortência, igualmente sorrateira colocara a cabeça para fora de um dos quartos e vira a velha andando. Angustiada, pelas pontas dos pés, ela andou até a janela do quarto em que estava, e ao passo que as crianças corriam, Gilmar cortava lenha, com péssimo humor. Ela fez-lhe sinal, mas ele não notara. Atirou então um de seus sapatos.

          Gilmar aproximou, e ela apenas moveu os lábios “As duas deixaram o quarto”.

          Ao saber disso, Gilmar correra até sua cabana, pegara um pedaço grande de papel e um giz de cera, e voltara até a mesma janela, e a pulara sorrateiro. Com passos felinos, ele e Hortência cruzaram o corredor deserto e entraram no quarto aonde os dois meninos repousavam.

          O rapaz debruçou-se embaixo da cama, tateou a marca e esticou o papel e começou a, silenciosamente, registrar o baixo relevo na folha que anteriormente havia embalado qualquer alimento. Ao terminar, batera com as costas na cama, e houve um estrondo.

          Da cozinha, Tia Rute e Dona Lira ouvem. Correm até o quarto. Quando Dona Lira se aproxima do batente ela vê: Gilmar se levanta do chão, devagar e nos braços ergue o menino que havia encontrado no mato, e Hortência levantando o colchão. Ele o carrega até outro quarto, com seis camas, e o deita em uma. Hortência lhe entrega o colchão. Ele o acomoda e coloca o menino, quando se levanta, Tia Rute passa pelo batente do quarto.

          - O que é isso que você tem guardado?

          - Como disse? – indagou o rapaz, desconversando.

          - Nas costas. Quero ver.

          - A senhora não iria gostar...

          - Isso cabe a mim julgar.

          - É verdade, mas eu não faço a menor questão de te mostrar. Se me dá licença, preciso cortar mais lenha para o fogão.

          Saiu do quarto. Dona Lira o seguiu.

           - Gilmar, peça desculpas pra tia Rute. – ela parecia preocupada.

           - O que foi que sumiu? – indagou ele, ríspido.

           - Do que fala? – ela não entendeu. Havia uma nota de súplica contida em sua discrição.

           - Ela desconfia de mim, o que sumiu?

            - Não sumiu nada, meu querido. Apenas peça desculpas, não quero que ela fique com raiva de você.
   
           - Não ligo.
  
           Dona Lira tocou no braço de Gilmar.
    
           - Tudo bem, meu querido. Mas não seja ríspido com ela. Ela é velha.
            
          Gilmar saiu da cozinha. Ela olhou para suas costas, musculosas e suadas. Ela o desejava, mas sabia que era velha para ele, e ele era algo que jamais seria seu.

 [A PARTIR DA PRÓXIMA SEMANA O MENINO QUE NÃO PODIA MORRER SERÁ POSTADO AOS SÁBADOS AO INVÉS DE DOMINGOS]
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Mulá Nasruddin e a verdade

quinta-feira, 8 de março de 2012

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“Estas leis não tornam melhores as pessoas”, disse Nasrudin ao Rei; “elas devem praticar certas coisas de forma a sintonizarem-se com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente.”
O Rei decidiu que poderia fazer que as pessoas observassem a verdade – e o faria. Ele poderia fazê-las praticar a autenticidade.
O acesso a sua cidade era feito por uma ponte, sobre a qual o Rei ordenou que fosse construída uma forca.
Quando os portões foram abertos ao alvorecer do dia seguinte, o Capitão da Guarda estava postado à frente de um pelotão para averiguar todos os que ali entrassem.
Um édito foi proclamado: “Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso permitido. Se mentir, será enforcado.”
Nasrudin deu um passo à frente.
“Aonde vai?”
“Estou a caminho da forca”, respondeu Nasrudin calmamente.
“Não acreditamos em você!”
“Muito bem, se estiver mentindo, enforquem-me!”
“Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!”
“Isso mesmo: agora sabem o que é a verdade: a sua verdade!”

texto copiado do blog Inconsciente Coletivo. Vale a visita, vale acompanhar : ) 

O Menino que não podia morrer... Capítulo 10

domingo, 4 de março de 2012

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Setembro, dia vinte e quatro, 1929. 

          Estava Laio deitado, febril, num sono inquieto, e em cada lado La cama havia uma pessoa. Tia Rute do Lado esquerdo, e Dona Lira do lado direito. E ambas as senhoras pressentiam que pudesse haver mais alguém em sob os pés da cama.

          Dona Lira trocava compressas, enquanto Rute olhava com silenciosa raiva para o menino trazido por Gilmar.

          - Esse menino tem que sair desse quarto. Ele atrapalha. – disse Tia Rute, com uma voz quase masculina.

          - Não sei se ele deveria ser o único a sair daqui. – diz Dona Lira. Silêncio. As duas olham-se. – Não acha, titia?

          - Eu me pergunto o que tem acontecido com você, Lira. Não tem parecido feliz faz um tempo.

          - Faz um tempo... – disse a si mesma, com olhar perdido. – Lembro-me quando minha mãe era viva, e eu era moça, quisera levar-me para tomar uma vacina, mas sempre tive medo de agulhas. Ela me dissera que iríamos na casa da prima Luiza, que nos convidara para um café com algum bolo. Eu gostava de visitar a prima Luiza, porque tínhamos boa conversa e ela sempre me ensinou muito.

          - Era muito arrogante... – Tia Rute a interrompeu, embora Dona Lira demonstrara não tê-la ouvido.

           - E cozinhava divinamente. O fato é, quando fui tomar a vacina, ela me deu efeito negativo, e adoeci. De fato passamos por prima Luiza e, devido a mina fraqueza, permaneci em sua casa, e com ela conversei. Na ocasião, ela me ensinara palavras de francês, e contara-me muitas histórias. Mas com tudo isso, até hoje meu braço dói, e a doença da qual quiseram me prevenir nem mais existe.

          - E porque diz isso? – indagou a velha, dando pouca importância.

          - Porque às vezes com um prêmio vem alguma cláusula omitida. E podemos nos arrepender.

          Silêncio. Olham-se sem piscar, inexpressivas, por longos segundos.

          - Teme que você possa se arrepender?

          Novamente o silêncio. Uma queria entender a outra, e embora confiassem mutuamente, havia algo errado.

          - Não foi o que eu disse, titia. Temo - - que certas coisas sejam irreversíveis, e muitas escolhas afetam mais do que apenas as nossas vidas. Temo que “nós” possamos nos arrepender.

          Batem na porta. “Entre”, diz Dona Lira. Hortência trás duas canecas com café.

          - Truxe café pra vocês, - diz a moça – ta quentinho. – Serve às senhoras.

          - Agradeço, querida. – disse Dona Lira.

          - Você e o Gilmar depois vão levar esse menino pro quarto com os outros. Eu não sei o que ele tem não quero que passe pra esse. – disse Tia Rute sem desviar os olhos de sua sobrinha.

          - Sim, senhora. ‘Cênça. – e sai do quarto.

          - Você tem dúvidas? – pergunta a mais velha.

          - Absolutamente não. – diz Lira. Toma um gole de café calmamente. O aprecia. - Apenas é um fato, e a senhora mesma deveria ser humilde e reconhecer que pode se arrepender disso.

          - Não se nega os pais, Lira.

          - Precisamente. Se me dá licença, vou preparar o almoço.

          Dona Lira levanta-se do banquinho, passa perto do menino no chão. Abaixa-se e o olha com curiosidade. Respira fundo. Estava cansada. Levanta-se e sai do quarto.

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O Menino que não podia morrer... Capítulo 9

domingo, 26 de fevereiro de 2012

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ATENÇÃO, NOS DOIS PRIMEIROS PARÁGRAFOS A UMA SEQUÊNCIA DE SEXO BASTANTE DESCRITIVA, POR TANTO, PARA NÃO OFENDER ALGUÉM QUE GOSTE DA HISTÓRIA MAS NÃO TOLERE TEXTOS PICANTES, AVISO DADO. DO TERCEIRO EM DIANTE TA PRA FAMÍLIA, RISOS.

          Hortência estava nua dentro da tina com água morna. Em pé, derramava água quente pelos seios, e a espuma escorria pelas curvas de seu corpo, que se arrepiava sob o toque da menor brisa. E fora esta a visão de Gilmar ao chegar assustado da floresta. Ele arrancou a própria camisa sem desabotoar, e ajoelhou-se diante da garota. Beijou-lhe os pêlos pubianos, e esticou a língua para, com um único movimento, tocá-la em sua intimidade.

          A barriga de Hortência contraiu-se e, acompanhado por este gesto, um sopro intenso de sua respiração ofegante. Ele mergulhou com sua língua e saliva na garota, enquanto suas mãos acariciavam suas pernas e seus seios. Ela agarrou os cabelos enrolados de Gilmar com as duas mãos e contorceu-se. Ela se agachou e, tendo-o entre as pernas, empalou-se.

          Enquanto ele a pressionava com seus braços, ela o arranhava nas costas, e seus beijos, longos, intensos, interrompidos por sussurros e gemidos, eram observados pela janela por quatro garotos, silenciosos, ansiosos.

          Quarenta minutos depois, Gilmar estava deitado, e Hortência com a cabeça em seu ombro, o corpo sobre o dele, ficaram em silêncio. Gilmar queria falar sobre suas experiências, e sobre como encontrara o menino. Hortência queria falar sobre o que havia acontecido quando movera a cama.

          - E elas não mudaram a cama? – perguntou o rapaz. Hortência, irrequieta, sentou-se na cama, enrolada no lençol, e começou a falar

          - Ai, Gilmar, isso é tão estranho. Elas não quiseram de forma alguma. Não entendo. Saíram assim que você partiu. Decidi mudar. Aconteceu algo estranho. Estavam dois dos meninos comigo. Era como se tivesse mais alguém no quarto. Adulto, entende? Quando arrastamos a cama com o Lélio em cima, encontramos um negocio no chão. O Júlio me disse “Ponha a cama no lugar”. Alias, ele me deu uma ordem, e olhou pra mim como eu nunca vi alguém olhar. Ele repetiu, como se me ameaçasse, era como se me tocassem no ombro, e alguma coisa aconteceu com o Mauricio. Ele começou a gritar de um jeito esquisito. Eu bati no Júlio, e era como se ele estivesse desligado quando falou comigo.

          - E você sentiu medo?

          - Isso é estranho. Eu não senti medo, mas senti que deveria ter sentido...

          - E o que tinha no chão?

          - Era alguma mandinga de alguma das velhas. Pra curar o menino, acho. Mas foi um negócio tão forte que eu senti. Como se o quarto escurecesse... Era coisa escrita no chão, formando um desenho.

          - Hortência, será que não era alguma coisa ruim não?

          - Ruim ‘cê diz, coisa do diabo? – arrepiou-se a moça, que passou as mãos nos braços para conter os pelos que se haviam arrepiado. – Acho que não. Elas cuidam da gente. As vezes é coisa de Deus. Deus é mal as vezes, não é? E a gente não entende, porque o propósito dele é maior que o saber da gente...

          - Deus é bom, o diabo que é ruim.

          - Não, Gilmar, eu não quis dizer disso. Deus às vezes não é fácil de entender, entende? Como quando Jesus fala que ele é generoso e nos dá liberdade, mas pede pra Abraão matar o filho pra provar que é fiel. Se ele conhece a gente, devia saber da fé do Abraão sem isso, então, devia ter jogo que a gente não entende no meio disso tudo. Parece coisa diferente, mas é porque a gente não entende. Tipo quando ele mandou matar não lembro que povo porque pecava demais. Ele é misericordioso, né? Quem sabe não era pelo povo que ele fez, mas por algum outro motivo. Afinal, ele perdoa e entende a gente melhor que a gente mesmo... Não é?

          - Não sei. Como você disse, a gente não entende. Talvez até seja melhor assim... Quero ver o que tem debaixo da cama. Tem alguma coisa errada acontecendo.
[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 04/03]
[QUARTA MAIS UM CONTO DA BAHIA]

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A Fascinante Jornada de Dona Satanilda

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

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ATENÇÃO: ESTE CONTO TEM LINGUAGEM E HUMOR APELATIVOS E PODE OFENDER UM LEITOR DESAVISADO. DADO O RECADO, BOA LEITURA!

         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por suas opções de lazer. A mais famosa era, evidentemente, a casa noturna Dona Quixota.

         Administrada por Dona Satanilda, Dona Quixota propunha-se a oferecer as baianas mais quentes de todo o Brasil. O que evidentemente era um choque para o povo da cidadezinha. De fato, as únicas baianas bonitas da cidade eram as meretrizes de Dona Satanilda. Negras de traseiros imensos e coxas roliças, outras mais claras, peitudas e estonteantes.

         Dona Satanilda não era puta... Mas podia ser. Tinha cor de café com leite, e desfilava seus peitos grandes, já um pouco moles, mas não menos cobiçados por isso, e suas coxas... Que coxas... Que mulher de quase cinqüenta tem pernas como as de Dona Satanilda?

          “Muié boua..., delícia... Descascava e chupava todinha...” diziam os cabras itaxoxotenses.

          “Vagabunda, ordiária, desavergonhada, despudorada, vendida, demoníaca”, diziam as distintas senhoras de Itaxoxota.

         Ela não era bem aceita, e as mulheres, grandes religiosas, sofreram muito ao dotar-se do conhecimento de que a casa noturna Dona Quixota dizimava a maior contribuição mensal para a paróquia de São Jesus Cristinho.

          “Como o senhor aceita dinheiro da filha do diabo?”, era o que o Padre ouvia, das paroquianas.

         O Padre tinha suas crenças, mas a igreja tinha suas necessidades, então ele fazia vista grossa para os rumores...

         Quando jovem, a família de Satanilda fora vitima de cangaceiros. Ela fez pacto com o diabo, e matou todos os cangaceiros. Desapareceu, voltou, e trouxe consigo algumas vadias estradeiras.

         Organizada como era, ela administrava o que as vadias recebiam, e em menos de três meses elas deixaram de transar embaixo de arvores ou bancos de praça para alugar uma casa pequena.

         Empreendedora, essa é Marinilda de Souza Cavalcante Mendonça de Silva e Carvalho, posteriormente chamada de Satanilda.

         E as putas eram oito. Seis morreram, porque eram encrenqueiras e tomaram tiro de mulher casada, outra virou crente e desapareceu. A outra, era Marivalda Ivonete de Santos, que virou sócia de Satanilda, e adotou o nome de Dona Consugrelo, cuida do Recanto do Marido Feliz, centro de lazer que possui em sociedade com Satanilda na cidade de Serro Azul.

         Aos poucos conseguiram putas que não fossem feias, e progrediram.

          “Nem as praia de Salvadô é mais paraíso que as minhas menina!”


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O Menino que não podia morrer... Capítulo 8

domingo, 19 de fevereiro de 2012

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          Hortência varria a casa, contra gosto. Gilmar havia partido para buscar a carroça e as duas senhoras pareciam preocupadas por qualquer razão.Julio e Maurício ofereceram-se para ajuda Hortência. Dona Lira se aproximou e bagunçou os cabelos dos garotos.

          - Eu e a Tia Rute vamos caminhar. Limpe a cozinha, pois ao voltarmos, prepararemos o jantar.

          Que mal havia em ajeitar a cama para perto do canto do quarto, para que pudessem colocar o colchão com o menino recém trazido de forma mais adequada?

          - Sim, Senhora.

          As velhas cochichavam sob o batente da porta, e Hortência as vigiava escondida. Partiram.

          Hortência subiu até a parte de cima da casa e, pelas janelas, viram as duas senhores desaparecerem entre as árvores.  Chamou Julio e Mauricio até a enfermaria.

          Os meninos seguraram a cama de ferro, leve como era, cada um de um lado ela levantou a cabeceira. O chão era de madeira, não queria riscar. Quando a puseram ao lado, percebeu algo embaixo da cama. Havia um desenho gravado com uma faca, embaixo da cama. Ela chegou perto, e percebeu que estava na altura do paciente. Os meninos indagaram, mas ela não soube responder. Aproximou-se e viu que eram letras que formavam o desenho. Sentiu ódio de si mesma por não saber ler.

          Hortência arrepiou-se. Havia um adulto atrás de si. Grande. Olhou assustada, mas não viu ninguém. Tocou com a ponta dos dedos na madeira gravada. Era uma caligrafia bonita, e havia letras da língua deles, e outras, dentro do desenho, que ela não conhecia. Sentiu um arrepio percorrer por seu corpo. Não havia outro adulto no quarto, no entanto, aquela impressão horrível a perturbava. Era como se tocassem seu ombro.

          “Põe a cama no lugar”, murmurou o menino olhando sério nos olhos dela.

          “Júlio?”, ela disse, mas o menino apenas repetiu, sem expressão. “Ponha a cama no lugar.”

          Mauricio espremeu os olhos e tapou os ouvidos. Gritou agudo. Hortência agarrou-o.

           “Calma, Mauricio, calma. Calma... tá tudo bem... Ta tudo bem.”

          Chegaram outras cinco crianças, assustadas e Júlio a olhava fixamente, sem piscar.

          - Vamos, me ajudem a colocar a cama no lugar. – disse ela, olhando para Júlio.  – Vamos, me ajude!

          Ele estava inerte. Ela deu-lhe um tapa na cara. Ele se assustou. Me ajudem a colocar a cama no lugar.

          Colocaram, e ela chamou as outras crianças para dentro e fechou a porta.

           “Não quero que falem sobre o que aconteceu aqui”.

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[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 25/02]
(e na quarta, um conto diferente)

O Menino que não podia morrer... Capítulo 7

domingo, 12 de fevereiro de 2012

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          Com o passar dos anos, Gilmar aprendera a se irritar com as reações de Dona Lira e tia Rute, como acontece com os filhos quando os pais começam a ter manias de gente velha. Particularmente quando não havia qualquer razão aparente para alguma determinada reação.

          Enquanto cavalgava até a carroça, abandonada no caminho, ele pensou, incomodado. Porque não aceitaram que mudasse a posição da cama? Seria mais fácil cuidar de ambos os garotos.

          Quando encontrou carroça, desceu do cavalo, e olhou para a estrada. Era quase noite. Voltou para o cavalo e cavalgou até o lugar em que encontrara o garoto.

          O céu estava limpo, com muitas estrelas, embora ainda não fosse noite. Ele olhou pela direção aonde havia a elipse formada pela imaginada queda da criança. Havia uma estrela, que ficava à leste do cruzeiro do sul. Ele caminhou até o ponto em que o garoto estava deitado, horas antes.

          O mato estava mais escuro do que o céu, tamanha distância do cume de algumas árvores, mas em poucos passos, o rapaz surpreendeu-se com uma luz que lhe pusera medo. Vinha de onde havia encontrado o garoto horas antes. Era de um prateado intenso, como se houvesse uma prata mágica cujo brilho da lua causava uma fosforescente radiação.

          Havia a cavidade de circunferência perfeita, com o solo alterado pela queda do garoto, no entanto, sem que a vida sobre ele sofresse qualquer dano com o impacto. Abaixo do mato, brilhava um pó dourado. Quando Gilmar, de fora da cavidade, esticou o braço direito na direção do buraco, o pó levantou-se inteiro, e grudou em todo seu antebraço e sua mão, que brilhou sob a luz da lua.

          Assustado, sacudiu o braço, e mas o pó não caiu. Ele trouxe para perto do peito o braço e subitamente a luz se apagou, e seu braço estava nu. Quando o estendeu outra vez, lentamente na direção do buraco, a luz da lua o fez reluzir outra vez. Gilmar admirou-a com temor e perplexidade. O que haveria de ser isso?

           Num ruído suspeito, olhou para a frente. Quatro metros dele havia um macaco de duas vezes seu tamanho olhando-o sério. Como que inconsciente, o rapaz olhou para o braço novamente, e então dera-se conta da criatura, mas olhou novamente e não havia nada.

          Estava cansado. Devia ser obra de sua imaginação. Como fora a luz, e depois a criança encontrada adormecida, num lugar aonde um pó que brilha sob a luz da lua grudara em seu braço direito?

          Gilmar procurou a criatura.

          “Não é o momento”, ouviu em sua mente. “Parta!”.

           Tomado por temor, ele correu até a carroça, prendeu no cavalo e partiu com pressa. O braço que brilhava como um artefato de prata, fora coberto com um pano velho.
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[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 19/02]

O Menino que não podia morrer... Capítulo 6

domingo, 5 de fevereiro de 2012

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         Na noite que antecedeu o encontro de Gilmar com o menino perdido no meio do mato, Tia Rute tivera um sonho que a deixara inquieta. Neste sonho, ela caminhava por um bosque, e havia sangue orvalhando as folhas das árvores, e pequenas poças, de um escarlate brilhante e escuro no chão. Era uma manhã clara. Ela não estava mais jovem do que era, no entanto, não andava com toda a limitação que tinha nos dias de hoje.

          Quando ela olhou para o Céu, ela percebeu que crianças mortas voavam em círculos, como o vôo dos urubus. E depois, adiante, percebeu uma criatura olhando para ela. Estava furiosa. Seus braços eram longos, e os punhos estavam fechados.

          Era um homem, gigante e peludo, feito um macaco. O que quer ele fosse, era algo Elemental, e sagrado. Ela se ajoelhou diante dele. Ele a segurou pelos braços, e os arrancou do corpo, e depois, com uma única mordida, comeu sua cabeça, e ela acordou.

          A criatura de seu sonho, não era uma lenda, era algo que vivia em todas as florestas, e era o espírito das florestas, e a castigava por algum motivo. Havia uma criança que Gilmar, pobre ignorante, não sabia explicar de onde vinha. E ela sabia que havia algo alienígena ali.

          Ela não era apenas uma mulher velha, era uma pessoa antiga, e isso significa muito.

          E agora ela olhava para uma criança que Gilmar encontrara perdida adormecida no meio do mato. O rapaz era xucro, não haveria de mentir, mas ela sabia que tinha alguma coisa estranha.

          Hortência limpara o corpo do menino recém trazido e vestiu-lhe um pijama limpo. Um papelão fora colocado no chão, e um colchão velho posto em cima dele, para acolher o menino. Tia Rute e Dona Lira não ficaram muito confortáveis com uma segunda criança na enfermaria.

          Tentaram convencê-las de mudar a posição da cama, para que o colchão fosse posto de forma a poder em circular em volta e cuidar dos dois meninos, mas elas, talvez por implicância de gente velha, disseram que não ficaria bom. A tarde já estava dando lugar para o escuro, Gilmar partira para buscar a carroça, e Tia Rute acendeu uma vela ao lado do menino doente, e pediu que a deixassem a sós para orar, e fazer suas simpatias.
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[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 12/02]

O Menino que não podia morrer... Capítulo 5

sábado, 28 de janeiro de 2012

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      Quem olhasse para Tia Rute, veria uma velha de oitenta e poucos anos, arqueada, magra, descascando batatas, laranjas, arrumando camas, e tirando poeira de superfícies, e jamais imaginaria que na realidade se tratava de uma mulher de mais de cem anos, que pouco falava, e carregava histórias complexas, sem quaisquer testemunhas, além de sua prima, Lira.

      Rute não sorria, e só se dirigia à Lira e ocasionalmente à Hortência, sempre dizendo o necessário e nada mais. Gostava de crianças? Isso ninguém tinha idéia. Não se dirigia à elas. Nem demonstrava indiferença. Na verdade, era prestativa, evidentemente, sempre na medida que sua disposição a permitia.

      Naquele dia de chuva forte, ela andava até a cozinha, com suas passadas sobrenaturalmente lentas. Andava devagar, de um modo que as vezes não era sequer percebida por alguém em estado de distração.
Estava Dona Lira, uma mulher de sessenta e alguns, apoiada no batente da porta, observando O pátio molhado, da chuva que cessara fazia poucos minutos Em que pensava? Nada importante, supôs Rute, que tocou seu ombro, fazendo-a tomar um susto.

      “O casulo. Alguma diferença?”

      - Está como deveria estar. – Lira disse. – Estou cansada.

      Saiu da porta, quando ia deixar a cozinha, Rute murmurou algo. Lira voltou até a porta, e viu Gilmar vindo carregando uma bolsa nas costas e alguém nos braços. Correu até ele, para ajudar de algum modo, mas ele logo alcançou a casa.

      Rute observava atenta a criança nos braços de Gilmar.

      “Esta criatura, de onde vem?” murmurou.

      Gilmar a olhou nos olhos. Não soube o que dizer. Não seria capaz de dizer que caíra do céu, porque ele próprio não estava convencido que isto havia de fato acontecido.

      - Estava adormecida, no mato. – ele disse.

      - Leve para o quarto de medicamentos, vou chamar Hortência. – disse Dona Lira, que os deixou. Gilmar levou a criança até o quarto aonde havia uma cama com o menino doente, e um colchão sobrando no chão. Deitou o menino recém encontrado ali. Estava sozinho. Descobriu o menino de seu paletó, e o cobriu com um cobertor. Tinha uma impressão ruim. Não com o menino, mas com sua chegada. Uma mão tocou seu ombro, e ele abalou-se num pequeno susto. Era a velha tia Rute.

      “Porque ele não tem roupas?”

      - Isso é o que devemos perguntar a ele quando acordar.

      Ela abriu um sorriso. Era forçado, porque as rugas ao redor de seus olhos não mudaram em absolutamente nada. Um sorriso faltando dentes, com um olhar duro fixo em seus olhos.

      “O que mais, Gilmar? Como o encontrou?”

      - Foi tudo muito rápido, e sem nada de interessante. Depois vamos à policia ver se dão falta de alguma criança.

      “Exato.", disse ela, com uma voz absolutamente masculina. -Não quero crianças que não sejam trazidas pelo juizado.

      Ela olhou mais uma vez para o menino que dormia irresistivelmente relaxado, e partiu, vagarosamente. Ela não o queria ali, Gilmar notou, e essa decisão era muito apreciada por ele.
(CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 05/02)

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O Menino que não podia morrer... Capítulo 4

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

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A carroça atolou na lama. Gilmar pensou em gritar, mas a frustração era mais forte, ele respirou fundo, segurou o ar, e o soltou devagar. Olhou para o menino desconhecido. Será que deveria deixá-lo pelo caminho? Quem sabe alguém não o encontra e lhe oferece uma família... Não. Levariam-no para o abrigo. Faz quase sete anos que não aparecia alguma família para adotar algum deles. Este iria morrer ali, como ele próprio.
Na verdade houve uma ocasião, no passado, em que um homem de trinta e poucos anos aparecera ali no abrigo para conhecer as crianças, e Gilmar descobriu gostar dele. Ele tinha olhos brilhantes, e um sorriso calmo. Era bondoso, e isso sua voz dizia. Falou histórias de marujos, piratas, gênios, tapetes voadores... Ele ia sempre lá, e passava muito tempo com as crianças, particularmente com Gilmar.
Um dia ele disse “vou te contar um segredo: quero que você seja o meu filho”.
Gilmar o abraçou e chorou. O jovem não deveria ter lhe dito isto. Ele tentou adotar, mas tudo parou. Ele começou a ir com menos freqüência, cada vez ficando menos tempo. Gilmar sabia que estava se despedindo. Anos mais tarde, Dona Lira trivialmente dissera “Você quase foi adotado, mas descobri que o homem que o queria vivia com outro homem. Pouca vergonha! Imagine, destruir a sua infância e sua formação como homem.”
Inicialmente, Gilmar pensou que Dona Lira pudesse ter razão, mas a verdade é que Gilmar gostava de comer Hortência, gostava de ouvir a bunda dela batendo em seu corpo, e acima de tudo, ouvi-la gemer. Não iria gostar menos de uma mulher por viver com dois homens que se gostavam. Essa reflexão lhe acendera uma pequena chama de ódio, mas nada capaz de causar-lhe incêndio.
Gilmar sabia escrever o próprio nome, e era tudo o que sabia. Sabia fazer contas nos dedos, tinha lógica para calcular, mas não sabia fazer nada em papel, nem escrever números. Quem sabe como filho de dois veados ele não saberia ler livros inteiros. Era seu sonho, ler um livro, e ele odiava livros com figuras, porque isso o lembrava do quão ignorante ele era.
Quando ficou mais velho e começou a assumir algumas responsabilidades no Lar Cardeal Peregrino, e ir mais à cidade, via como os jovens se vestiam, e cortavam os cabelos, e como falavam. Gilmar sentia vergonha de si mesmo. Sentia raiva do mundo. E sentia pena, porque era pouco provável que aquela criança pudesse ter um destino diferente.
A chuva passara. Ele pegou a bolsa com os medicamentos, segurou o menino no colo, e o colocou sobre o cavalo. Deixou a carroça para trás. Mais tarde ele voltaria para buscar. Partiram.


(PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO - DOMINGO, 29/01(DIA DE COMER NHOQUE))
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