O Menino que não podia morrer... Capítulo 9

domingo, 26 de fevereiro de 2012

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ATENÇÃO, NOS DOIS PRIMEIROS PARÁGRAFOS A UMA SEQUÊNCIA DE SEXO BASTANTE DESCRITIVA, POR TANTO, PARA NÃO OFENDER ALGUÉM QUE GOSTE DA HISTÓRIA MAS NÃO TOLERE TEXTOS PICANTES, AVISO DADO. DO TERCEIRO EM DIANTE TA PRA FAMÍLIA, RISOS.

          Hortência estava nua dentro da tina com água morna. Em pé, derramava água quente pelos seios, e a espuma escorria pelas curvas de seu corpo, que se arrepiava sob o toque da menor brisa. E fora esta a visão de Gilmar ao chegar assustado da floresta. Ele arrancou a própria camisa sem desabotoar, e ajoelhou-se diante da garota. Beijou-lhe os pêlos pubianos, e esticou a língua para, com um único movimento, tocá-la em sua intimidade.

          A barriga de Hortência contraiu-se e, acompanhado por este gesto, um sopro intenso de sua respiração ofegante. Ele mergulhou com sua língua e saliva na garota, enquanto suas mãos acariciavam suas pernas e seus seios. Ela agarrou os cabelos enrolados de Gilmar com as duas mãos e contorceu-se. Ela se agachou e, tendo-o entre as pernas, empalou-se.

          Enquanto ele a pressionava com seus braços, ela o arranhava nas costas, e seus beijos, longos, intensos, interrompidos por sussurros e gemidos, eram observados pela janela por quatro garotos, silenciosos, ansiosos.

          Quarenta minutos depois, Gilmar estava deitado, e Hortência com a cabeça em seu ombro, o corpo sobre o dele, ficaram em silêncio. Gilmar queria falar sobre suas experiências, e sobre como encontrara o menino. Hortência queria falar sobre o que havia acontecido quando movera a cama.

          - E elas não mudaram a cama? – perguntou o rapaz. Hortência, irrequieta, sentou-se na cama, enrolada no lençol, e começou a falar

          - Ai, Gilmar, isso é tão estranho. Elas não quiseram de forma alguma. Não entendo. Saíram assim que você partiu. Decidi mudar. Aconteceu algo estranho. Estavam dois dos meninos comigo. Era como se tivesse mais alguém no quarto. Adulto, entende? Quando arrastamos a cama com o Lélio em cima, encontramos um negocio no chão. O Júlio me disse “Ponha a cama no lugar”. Alias, ele me deu uma ordem, e olhou pra mim como eu nunca vi alguém olhar. Ele repetiu, como se me ameaçasse, era como se me tocassem no ombro, e alguma coisa aconteceu com o Mauricio. Ele começou a gritar de um jeito esquisito. Eu bati no Júlio, e era como se ele estivesse desligado quando falou comigo.

          - E você sentiu medo?

          - Isso é estranho. Eu não senti medo, mas senti que deveria ter sentido...

          - E o que tinha no chão?

          - Era alguma mandinga de alguma das velhas. Pra curar o menino, acho. Mas foi um negócio tão forte que eu senti. Como se o quarto escurecesse... Era coisa escrita no chão, formando um desenho.

          - Hortência, será que não era alguma coisa ruim não?

          - Ruim ‘cê diz, coisa do diabo? – arrepiou-se a moça, que passou as mãos nos braços para conter os pelos que se haviam arrepiado. – Acho que não. Elas cuidam da gente. As vezes é coisa de Deus. Deus é mal as vezes, não é? E a gente não entende, porque o propósito dele é maior que o saber da gente...

          - Deus é bom, o diabo que é ruim.

          - Não, Gilmar, eu não quis dizer disso. Deus às vezes não é fácil de entender, entende? Como quando Jesus fala que ele é generoso e nos dá liberdade, mas pede pra Abraão matar o filho pra provar que é fiel. Se ele conhece a gente, devia saber da fé do Abraão sem isso, então, devia ter jogo que a gente não entende no meio disso tudo. Parece coisa diferente, mas é porque a gente não entende. Tipo quando ele mandou matar não lembro que povo porque pecava demais. Ele é misericordioso, né? Quem sabe não era pelo povo que ele fez, mas por algum outro motivo. Afinal, ele perdoa e entende a gente melhor que a gente mesmo... Não é?

          - Não sei. Como você disse, a gente não entende. Talvez até seja melhor assim... Quero ver o que tem debaixo da cama. Tem alguma coisa errada acontecendo.
[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 04/03]
[QUARTA MAIS UM CONTO DA BAHIA]

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A Fascinante Jornada de Dona Satanilda

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

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ATENÇÃO: ESTE CONTO TEM LINGUAGEM E HUMOR APELATIVOS E PODE OFENDER UM LEITOR DESAVISADO. DADO O RECADO, BOA LEITURA!

         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por suas opções de lazer. A mais famosa era, evidentemente, a casa noturna Dona Quixota.

         Administrada por Dona Satanilda, Dona Quixota propunha-se a oferecer as baianas mais quentes de todo o Brasil. O que evidentemente era um choque para o povo da cidadezinha. De fato, as únicas baianas bonitas da cidade eram as meretrizes de Dona Satanilda. Negras de traseiros imensos e coxas roliças, outras mais claras, peitudas e estonteantes.

         Dona Satanilda não era puta... Mas podia ser. Tinha cor de café com leite, e desfilava seus peitos grandes, já um pouco moles, mas não menos cobiçados por isso, e suas coxas... Que coxas... Que mulher de quase cinqüenta tem pernas como as de Dona Satanilda?

          “Muié boua..., delícia... Descascava e chupava todinha...” diziam os cabras itaxoxotenses.

          “Vagabunda, ordiária, desavergonhada, despudorada, vendida, demoníaca”, diziam as distintas senhoras de Itaxoxota.

         Ela não era bem aceita, e as mulheres, grandes religiosas, sofreram muito ao dotar-se do conhecimento de que a casa noturna Dona Quixota dizimava a maior contribuição mensal para a paróquia de São Jesus Cristinho.

          “Como o senhor aceita dinheiro da filha do diabo?”, era o que o Padre ouvia, das paroquianas.

         O Padre tinha suas crenças, mas a igreja tinha suas necessidades, então ele fazia vista grossa para os rumores...

         Quando jovem, a família de Satanilda fora vitima de cangaceiros. Ela fez pacto com o diabo, e matou todos os cangaceiros. Desapareceu, voltou, e trouxe consigo algumas vadias estradeiras.

         Organizada como era, ela administrava o que as vadias recebiam, e em menos de três meses elas deixaram de transar embaixo de arvores ou bancos de praça para alugar uma casa pequena.

         Empreendedora, essa é Marinilda de Souza Cavalcante Mendonça de Silva e Carvalho, posteriormente chamada de Satanilda.

         E as putas eram oito. Seis morreram, porque eram encrenqueiras e tomaram tiro de mulher casada, outra virou crente e desapareceu. A outra, era Marivalda Ivonete de Santos, que virou sócia de Satanilda, e adotou o nome de Dona Consugrelo, cuida do Recanto do Marido Feliz, centro de lazer que possui em sociedade com Satanilda na cidade de Serro Azul.

         Aos poucos conseguiram putas que não fossem feias, e progrediram.

          “Nem as praia de Salvadô é mais paraíso que as minhas menina!”


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O Menino que não podia morrer... Capítulo 8

domingo, 19 de fevereiro de 2012

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          Hortência varria a casa, contra gosto. Gilmar havia partido para buscar a carroça e as duas senhoras pareciam preocupadas por qualquer razão.Julio e Maurício ofereceram-se para ajuda Hortência. Dona Lira se aproximou e bagunçou os cabelos dos garotos.

          - Eu e a Tia Rute vamos caminhar. Limpe a cozinha, pois ao voltarmos, prepararemos o jantar.

          Que mal havia em ajeitar a cama para perto do canto do quarto, para que pudessem colocar o colchão com o menino recém trazido de forma mais adequada?

          - Sim, Senhora.

          As velhas cochichavam sob o batente da porta, e Hortência as vigiava escondida. Partiram.

          Hortência subiu até a parte de cima da casa e, pelas janelas, viram as duas senhores desaparecerem entre as árvores.  Chamou Julio e Mauricio até a enfermaria.

          Os meninos seguraram a cama de ferro, leve como era, cada um de um lado ela levantou a cabeceira. O chão era de madeira, não queria riscar. Quando a puseram ao lado, percebeu algo embaixo da cama. Havia um desenho gravado com uma faca, embaixo da cama. Ela chegou perto, e percebeu que estava na altura do paciente. Os meninos indagaram, mas ela não soube responder. Aproximou-se e viu que eram letras que formavam o desenho. Sentiu ódio de si mesma por não saber ler.

          Hortência arrepiou-se. Havia um adulto atrás de si. Grande. Olhou assustada, mas não viu ninguém. Tocou com a ponta dos dedos na madeira gravada. Era uma caligrafia bonita, e havia letras da língua deles, e outras, dentro do desenho, que ela não conhecia. Sentiu um arrepio percorrer por seu corpo. Não havia outro adulto no quarto, no entanto, aquela impressão horrível a perturbava. Era como se tocassem seu ombro.

          “Põe a cama no lugar”, murmurou o menino olhando sério nos olhos dela.

          “Júlio?”, ela disse, mas o menino apenas repetiu, sem expressão. “Ponha a cama no lugar.”

          Mauricio espremeu os olhos e tapou os ouvidos. Gritou agudo. Hortência agarrou-o.

           “Calma, Mauricio, calma. Calma... tá tudo bem... Ta tudo bem.”

          Chegaram outras cinco crianças, assustadas e Júlio a olhava fixamente, sem piscar.

          - Vamos, me ajudem a colocar a cama no lugar. – disse ela, olhando para Júlio.  – Vamos, me ajude!

          Ele estava inerte. Ela deu-lhe um tapa na cara. Ele se assustou. Me ajudem a colocar a cama no lugar.

          Colocaram, e ela chamou as outras crianças para dentro e fechou a porta.

           “Não quero que falem sobre o que aconteceu aqui”.

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[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 25/02]
(e na quarta, um conto diferente)

O Menino que não podia morrer... Capítulo 7

domingo, 12 de fevereiro de 2012

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          Com o passar dos anos, Gilmar aprendera a se irritar com as reações de Dona Lira e tia Rute, como acontece com os filhos quando os pais começam a ter manias de gente velha. Particularmente quando não havia qualquer razão aparente para alguma determinada reação.

          Enquanto cavalgava até a carroça, abandonada no caminho, ele pensou, incomodado. Porque não aceitaram que mudasse a posição da cama? Seria mais fácil cuidar de ambos os garotos.

          Quando encontrou carroça, desceu do cavalo, e olhou para a estrada. Era quase noite. Voltou para o cavalo e cavalgou até o lugar em que encontrara o garoto.

          O céu estava limpo, com muitas estrelas, embora ainda não fosse noite. Ele olhou pela direção aonde havia a elipse formada pela imaginada queda da criança. Havia uma estrela, que ficava à leste do cruzeiro do sul. Ele caminhou até o ponto em que o garoto estava deitado, horas antes.

          O mato estava mais escuro do que o céu, tamanha distância do cume de algumas árvores, mas em poucos passos, o rapaz surpreendeu-se com uma luz que lhe pusera medo. Vinha de onde havia encontrado o garoto horas antes. Era de um prateado intenso, como se houvesse uma prata mágica cujo brilho da lua causava uma fosforescente radiação.

          Havia a cavidade de circunferência perfeita, com o solo alterado pela queda do garoto, no entanto, sem que a vida sobre ele sofresse qualquer dano com o impacto. Abaixo do mato, brilhava um pó dourado. Quando Gilmar, de fora da cavidade, esticou o braço direito na direção do buraco, o pó levantou-se inteiro, e grudou em todo seu antebraço e sua mão, que brilhou sob a luz da lua.

          Assustado, sacudiu o braço, e mas o pó não caiu. Ele trouxe para perto do peito o braço e subitamente a luz se apagou, e seu braço estava nu. Quando o estendeu outra vez, lentamente na direção do buraco, a luz da lua o fez reluzir outra vez. Gilmar admirou-a com temor e perplexidade. O que haveria de ser isso?

           Num ruído suspeito, olhou para a frente. Quatro metros dele havia um macaco de duas vezes seu tamanho olhando-o sério. Como que inconsciente, o rapaz olhou para o braço novamente, e então dera-se conta da criatura, mas olhou novamente e não havia nada.

          Estava cansado. Devia ser obra de sua imaginação. Como fora a luz, e depois a criança encontrada adormecida, num lugar aonde um pó que brilha sob a luz da lua grudara em seu braço direito?

          Gilmar procurou a criatura.

          “Não é o momento”, ouviu em sua mente. “Parta!”.

           Tomado por temor, ele correu até a carroça, prendeu no cavalo e partiu com pressa. O braço que brilhava como um artefato de prata, fora coberto com um pano velho.
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[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 19/02]

O Menino que não podia morrer... Capítulo 6

domingo, 5 de fevereiro de 2012

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         Na noite que antecedeu o encontro de Gilmar com o menino perdido no meio do mato, Tia Rute tivera um sonho que a deixara inquieta. Neste sonho, ela caminhava por um bosque, e havia sangue orvalhando as folhas das árvores, e pequenas poças, de um escarlate brilhante e escuro no chão. Era uma manhã clara. Ela não estava mais jovem do que era, no entanto, não andava com toda a limitação que tinha nos dias de hoje.

          Quando ela olhou para o Céu, ela percebeu que crianças mortas voavam em círculos, como o vôo dos urubus. E depois, adiante, percebeu uma criatura olhando para ela. Estava furiosa. Seus braços eram longos, e os punhos estavam fechados.

          Era um homem, gigante e peludo, feito um macaco. O que quer ele fosse, era algo Elemental, e sagrado. Ela se ajoelhou diante dele. Ele a segurou pelos braços, e os arrancou do corpo, e depois, com uma única mordida, comeu sua cabeça, e ela acordou.

          A criatura de seu sonho, não era uma lenda, era algo que vivia em todas as florestas, e era o espírito das florestas, e a castigava por algum motivo. Havia uma criança que Gilmar, pobre ignorante, não sabia explicar de onde vinha. E ela sabia que havia algo alienígena ali.

          Ela não era apenas uma mulher velha, era uma pessoa antiga, e isso significa muito.

          E agora ela olhava para uma criança que Gilmar encontrara perdida adormecida no meio do mato. O rapaz era xucro, não haveria de mentir, mas ela sabia que tinha alguma coisa estranha.

          Hortência limpara o corpo do menino recém trazido e vestiu-lhe um pijama limpo. Um papelão fora colocado no chão, e um colchão velho posto em cima dele, para acolher o menino. Tia Rute e Dona Lira não ficaram muito confortáveis com uma segunda criança na enfermaria.

          Tentaram convencê-las de mudar a posição da cama, para que o colchão fosse posto de forma a poder em circular em volta e cuidar dos dois meninos, mas elas, talvez por implicância de gente velha, disseram que não ficaria bom. A tarde já estava dando lugar para o escuro, Gilmar partira para buscar a carroça, e Tia Rute acendeu uma vela ao lado do menino doente, e pediu que a deixassem a sós para orar, e fazer suas simpatias.
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[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 12/02]

O Menino que não podia morrer... Capítulo 5

sábado, 28 de janeiro de 2012

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      Quem olhasse para Tia Rute, veria uma velha de oitenta e poucos anos, arqueada, magra, descascando batatas, laranjas, arrumando camas, e tirando poeira de superfícies, e jamais imaginaria que na realidade se tratava de uma mulher de mais de cem anos, que pouco falava, e carregava histórias complexas, sem quaisquer testemunhas, além de sua prima, Lira.

      Rute não sorria, e só se dirigia à Lira e ocasionalmente à Hortência, sempre dizendo o necessário e nada mais. Gostava de crianças? Isso ninguém tinha idéia. Não se dirigia à elas. Nem demonstrava indiferença. Na verdade, era prestativa, evidentemente, sempre na medida que sua disposição a permitia.

      Naquele dia de chuva forte, ela andava até a cozinha, com suas passadas sobrenaturalmente lentas. Andava devagar, de um modo que as vezes não era sequer percebida por alguém em estado de distração.
Estava Dona Lira, uma mulher de sessenta e alguns, apoiada no batente da porta, observando O pátio molhado, da chuva que cessara fazia poucos minutos Em que pensava? Nada importante, supôs Rute, que tocou seu ombro, fazendo-a tomar um susto.

      “O casulo. Alguma diferença?”

      - Está como deveria estar. – Lira disse. – Estou cansada.

      Saiu da porta, quando ia deixar a cozinha, Rute murmurou algo. Lira voltou até a porta, e viu Gilmar vindo carregando uma bolsa nas costas e alguém nos braços. Correu até ele, para ajudar de algum modo, mas ele logo alcançou a casa.

      Rute observava atenta a criança nos braços de Gilmar.

      “Esta criatura, de onde vem?” murmurou.

      Gilmar a olhou nos olhos. Não soube o que dizer. Não seria capaz de dizer que caíra do céu, porque ele próprio não estava convencido que isto havia de fato acontecido.

      - Estava adormecida, no mato. – ele disse.

      - Leve para o quarto de medicamentos, vou chamar Hortência. – disse Dona Lira, que os deixou. Gilmar levou a criança até o quarto aonde havia uma cama com o menino doente, e um colchão sobrando no chão. Deitou o menino recém encontrado ali. Estava sozinho. Descobriu o menino de seu paletó, e o cobriu com um cobertor. Tinha uma impressão ruim. Não com o menino, mas com sua chegada. Uma mão tocou seu ombro, e ele abalou-se num pequeno susto. Era a velha tia Rute.

      “Porque ele não tem roupas?”

      - Isso é o que devemos perguntar a ele quando acordar.

      Ela abriu um sorriso. Era forçado, porque as rugas ao redor de seus olhos não mudaram em absolutamente nada. Um sorriso faltando dentes, com um olhar duro fixo em seus olhos.

      “O que mais, Gilmar? Como o encontrou?”

      - Foi tudo muito rápido, e sem nada de interessante. Depois vamos à policia ver se dão falta de alguma criança.

      “Exato.", disse ela, com uma voz absolutamente masculina. -Não quero crianças que não sejam trazidas pelo juizado.

      Ela olhou mais uma vez para o menino que dormia irresistivelmente relaxado, e partiu, vagarosamente. Ela não o queria ali, Gilmar notou, e essa decisão era muito apreciada por ele.
(CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 05/02)

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O Menino que não podia morrer... Capítulo 4

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

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A carroça atolou na lama. Gilmar pensou em gritar, mas a frustração era mais forte, ele respirou fundo, segurou o ar, e o soltou devagar. Olhou para o menino desconhecido. Será que deveria deixá-lo pelo caminho? Quem sabe alguém não o encontra e lhe oferece uma família... Não. Levariam-no para o abrigo. Faz quase sete anos que não aparecia alguma família para adotar algum deles. Este iria morrer ali, como ele próprio.
Na verdade houve uma ocasião, no passado, em que um homem de trinta e poucos anos aparecera ali no abrigo para conhecer as crianças, e Gilmar descobriu gostar dele. Ele tinha olhos brilhantes, e um sorriso calmo. Era bondoso, e isso sua voz dizia. Falou histórias de marujos, piratas, gênios, tapetes voadores... Ele ia sempre lá, e passava muito tempo com as crianças, particularmente com Gilmar.
Um dia ele disse “vou te contar um segredo: quero que você seja o meu filho”.
Gilmar o abraçou e chorou. O jovem não deveria ter lhe dito isto. Ele tentou adotar, mas tudo parou. Ele começou a ir com menos freqüência, cada vez ficando menos tempo. Gilmar sabia que estava se despedindo. Anos mais tarde, Dona Lira trivialmente dissera “Você quase foi adotado, mas descobri que o homem que o queria vivia com outro homem. Pouca vergonha! Imagine, destruir a sua infância e sua formação como homem.”
Inicialmente, Gilmar pensou que Dona Lira pudesse ter razão, mas a verdade é que Gilmar gostava de comer Hortência, gostava de ouvir a bunda dela batendo em seu corpo, e acima de tudo, ouvi-la gemer. Não iria gostar menos de uma mulher por viver com dois homens que se gostavam. Essa reflexão lhe acendera uma pequena chama de ódio, mas nada capaz de causar-lhe incêndio.
Gilmar sabia escrever o próprio nome, e era tudo o que sabia. Sabia fazer contas nos dedos, tinha lógica para calcular, mas não sabia fazer nada em papel, nem escrever números. Quem sabe como filho de dois veados ele não saberia ler livros inteiros. Era seu sonho, ler um livro, e ele odiava livros com figuras, porque isso o lembrava do quão ignorante ele era.
Quando ficou mais velho e começou a assumir algumas responsabilidades no Lar Cardeal Peregrino, e ir mais à cidade, via como os jovens se vestiam, e cortavam os cabelos, e como falavam. Gilmar sentia vergonha de si mesmo. Sentia raiva do mundo. E sentia pena, porque era pouco provável que aquela criança pudesse ter um destino diferente.
A chuva passara. Ele pegou a bolsa com os medicamentos, segurou o menino no colo, e o colocou sobre o cavalo. Deixou a carroça para trás. Mais tarde ele voltaria para buscar. Partiram.


(PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO - DOMINGO, 29/01(DIA DE COMER NHOQUE))
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O que se faz?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

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O que se faz nesta hora?
O que se faz quando um amigo, em seu humor diverte-se com o que lhe frustra e machuca?
O que se faz quando voce não sabe o que responder?
Quando responder inevitavelmente o fará vítima, ou o fará igualmente cruel?
Me calo.
Melhor que prolongar o inevitavel, que é sempre interminável e ainda mais doloroso, é deixar que as coisas esfriem, deixando à minha própria mente um recado: "Não se esqueça que isto aconteceu".

O Menino que não podia morrer... Capítulo 3

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

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                    Hortência esperou por alguns instantes após a saída de Dona Lira, e trocou novamente a compressa do menino.
                    - Pobre diabo, você. Não devia morrer... – tocou-lhe o rosto. – Se crescer vai ficar um homem lindo. – Acariciou o peito do menino – Nem tem pêlos ainda. Tomara que tenha pêlos no peito e nas coxas. – suas mãos desceram pela barriga, e pelas pernas. - Eu gosto de pêlos – disse, indiferente.
                    Ficou em silêncio, a espera de ouvir algo, então se aproximou, lambeu o suor da febre no pescoço do menino e subiu com a língua até suas orelhas. Beijou seu rosto, e foi interrompida por seu próprio grito, ao ouvir um trovão. Molhou o pano na água fria, e continuou a limpar o menino, tranquilamente.
                    Era já um menino crescido, de doze ou treze anos. Era um menino bonito, alto. De fato, se tornaria um homem belo se sobrevivesse à febre que o deixava desacordado sempre. Febre que, alias, ninguém lembrava quando havia começado. Ele sempre esteve assim fazia muito tempo. Esqueceram até seu temperamento.
                    Cobriu-o com um lençol limpo e deixou o quarto. As crianças estavam limpando a casa. Havia dezesseis crianças naquela casa. Aquele era chamado Lar Cardeal Peregrino, mas ninguém se lembrava mais deste nome. Era apenas o “abrigo de crianças”. Lá Hortência crescera, e vira crianças de todas as idades irem e virem.  Ela própria crescera no abrigo, junto a Gilmar, criados por Dona Lira e Tia Rute, que era agora uma velha frágil, que não saia da cozinha.

                    Hortência não gostava nem desgostava do abrigo. Não tinha com o que comparar sua vida, logo, vivia em paz. Monotonamente. Gostava das crianças. Na verdade, não houve nada de extraordinário em sua vida que a fizesse perceber a infância passar, nada além da descoberta do sexo.

                    Nicanor era um homem de um metro e setenta e oito, forte, peludo, e fedido. Era responsável pelo trabalho pesado, há muitos anos atrás, quando Hortência era apenas uma menina de onze anos. Uma menina extraordinária, que com problemas hormonais, aos nove já lhe havia começado a crescer os seios, os quadris e os pelos pubianos. E Nicanor percebera isto.

                    Dissera-lhe Nicanor: “Sabia que já é uma mulher?”. Hortência não entendera. Ele a sentou em seu colo e enquanto acariciava os cabelos, e a envolvia com um de seus braços na cintura, continuou “Isso é uma dádiva, você é uma criança, e é inocente, no entanto, já está pronta para desfrutar do que há de melhor em ser adulto”. Ele a domou. Ela gostava do cheiro forte dele.

                    Ele começou com caricias superficiais, fazendo-a descobrir seu próprio prazer sem tocar em nenhuma parte intima, e assim foi por um mês, até que ele provou do seu corpo com sua boca e seu falo. E ela se entregou feliz. Sempre fora uma menina disposta a essas sensações.

                    Dona Lira percebeu certa vez que a menina não parava de apertar os bicos dos seios e roçar seu sexo com os dedos sempre que pensava estar sozinha, e esperou. Um dia, tarde da noite, ela encontrou Hortência, obediente, cavalgando alucinada sobre o falo de Nicanor, com os dedos agarrados nos pelos do seu peito suado, enquanto ele próprio beliscava-lhe os mamilos. Astuta, percebeu que a menina estava à vontade e não lhes surpreendeu. Quem sabe o choque de descobrir que seu prazer era na realidade um ato de violência não poderia lhe causar danos ainda piores.

                    Na mesma madrugada, Dona Lira e Tia Rute foram até casinha separada, aonde vivia Nicanor, e nunca mais ele fora visto. As crianças acreditaram por um tempo que elas o tivessem matado por alguma razão desconhecida.
(PRÓXIMO CAPÍTULO, NO DOMINGO, 22/01)


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O Menino que não podia morrer... Capítulo 2

sábado, 14 de janeiro de 2012

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Sentada no banquinho de quatro pernas ao lado da cama, Dona Lira bocejava.
“Ele vai morrer”, pensou, olhando para o menino deitado na cama. Parecia o palpite de alguém sem esperança, mas aquela era uma mera questão de intuição.
 - Teve alucinações durante a noite. “Não há descanso...” foi a única coisa que distingui no meio dos resmungos. Gilmar foi buscar medicamentos. Pobre homem, com este temporal por vir. – dissera à Hortência, uma jovem que, sentada na cama, trocava compressas na testa do menino.
 - Precisa tirar as roupas do varal, Dona Lira. Pegaram bastante vento, devem ter secado.
 Esquecera-se completamente. As roupas. Saiu do casarão sem pressa, com uma das mãos sempre apoiada em uma parede, como se precisasse escorar-se. Era apenas um gesto de uma mulher cansada, não propriamente debilitada. Lá fora estavam os varais cheios de lençóis e algumas roupas de crianças.
 Apanhou uma bacia num gesto automático e começou a tirar lençol após lençol sem nenhuma pressa. O céu era escuro. Olhou-o, e dele para a direção por onde a qualquer momento voltaria Gilmar trazendo comida. Distraiu-se com um lençol. Alguma ave havia se empoleirado e feito suas sujeiras. Suas mãos seguraram o lençol, apertaram-no num gesto de ódio, e ela observou seus dedos. Como estavam magros.  Parecia uma arvore seca, com manchas e galhos cheios de nós.
 Nunca tivera mãos bonitas e quando ela própria era jovem e ainda lhe havia alguma beleza, suas mãos já estavam calejadas pelo ofício nada delicado que lhe havia sido imposto por ser mulher. Admirou-as por um instante. Esfregaria novamente o lençol que estava limpo, não fossem as fezes do animal. Sentia pena de si mesma. Concentrada em suas mãos, assustou-se com um trovão alto.
 Arrancou os demais lençóis passou para dentro do casarão. Olhou novamente para a estrada. A chuva havia começado.
  Jamais ela partiu daquele lugar e agora era tarde. Passaria o resto de seus dias e, ao morrer, seria esquecida pelo mundo, e nunca teria existido.
(PRÓXIMO CAPITULO NA QUARTA FEIRA 18/01)
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O Menino que não podia morrer... Capítulo 1

domingo, 8 de janeiro de 2012

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Setembro, dia treze. 1929

Gilmar apoiava-se para cochilar na carroça velha naquele entardecer frio e nublado quando percebeu uma luz tão forte sobre sua cabeça e sentiu um estouro poderoso a menos de quinze metros dele. O chão tremeu, o cavalo correu, e ele próprio desnorteou-se por alguns segundos. Olhou para trás.
Calou-se, contido pelo choque. Sentiu a terra sob seus pés. Estava quente como a tarde de algum verão rigoroso. O céu, cujas nuvens continham uma chuva forte que despencaria a qualquer momento, estava cinza escuro e um buraco, de uma elipse perfeita, permitia que a luz do sol iluminasse uma parte do mato: aonde havia caído algo.
O mato não havia sido queimado, nem sequer amassado: contorcia-se para aconchegar algo, e havia formado no solo uma cavidade redonda perfeita, e no centro havia uma criança pelada, deitada em posição fetal. Uma criança grande, de seis anos, limpa, de cabelos pretos, longos e brilhantes e uma respiração deliciosamente relaxada. Gilmar andou até o buraco. A chuva começara. Ele escorregou ao entrar e aproximou-se da criança. Ajoelhou-se e viu o sexo, era um garoto. Cobriu-o com seu paletó, mas não havia frio. O sol os abrigava. O sol abrigava unicamente aquelas duas pessoas no meio do vento gelado e a chuva fina que começava.
As nuvens começaram a deformar o orifício por onde a luz passava. Gilmar permaneceu silencioso contemplando o céu, misterioso. Depois segurou a criança em seus braços e a levou até a carroça, e seguiu seu caminho.
Estava cansado. Sua vida não mudava, e seria para sempre isso. Já era incapaz de reconhecer a própria juventude. Pousou seus olhos cansados sobre o menino deitado ao seu lado, inconsciente. Quem seria ele? Teria caído do céu? Não. Era apenas um delírio de uma imaginação que sempre implorava por alguma esperança.
Com o corpo molhado da chuva, e resfriado pelo vento forte, ele seguiu seu caminho.
(CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO – 15/01)
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